Meus 2 centavos: Rafaela Silva, seleção feminina de futebol e Teresa Almeida
Eu tento me abster o máximo que eu posso mas é fato: estas Olimpíadas têm sido um show de preconceito deformado.
É a judoca Rafaela Silva que, antes de ser vencedora, é uma pretinha, favelada, dependente de auxílio. É o futebol feminino que basicamente só atingiu o interesse do público em massa por uma “falta de coisa melhor”. É a goleira da seleção da Angola que cai nas graças da torcida única e exclusivamente por conta de seu biotipo físico.
É essa verdadeira síndrome dos privilegiados de sempre procurar um mascote para afagar. Isso quando aquele e aquela que levanta esses enaltecimentos vertiginosos na verdade não o faz em vista de um interesse próprio, não para dar calço sem solicitação a alguém mas para dar promoção a uma ou outra ideologia ou inclinação política.
Eu tenho toda a certeza do mundo de que a maioria das pessoas que fazem esse tipo de coisa possuem em si uma boa intenção. Porém, para você que por ventura toma esse tipo de atitude, sugiro que faça este rápido exercício: olhe para a Rafaela Silva em cima do pódio com sua medalha de ouro no pescoço; olhe para as mulheres jogadoras da seleção feminina de futebol; olhe para Teresa Almeida — porque, sim, por incrível que pareça, a goleira da seleção angolana de handebol tem nome e este não é “gordinha”.
Feito esse exercício, faça-se a pergunta: alguma dessas mulheres é realmente digna de pena?
Se você fez bem o exercício, passo a passo e com a devida atenção aos olhares dessas mulheres, você vai perceber que a resposta é não.
Eu acho louvável o ímpeto da pessoa bem intencionada. Me tranquiliza que existem pessoas dotadas de consciência por aí. Mas a mensagem que eu mando a essas pessoas é a seguinte: toda boa intenção é válida, porém nem toda atitude bem intencionada é necessária ou apropriada.
Cabe ao indivíduo e à indivídua sempre exercer forte análise sobre a fonte de seus pensamentos, sejam estes bons ou ruins. Pois escolher a coisa certa pelos motivos errados é ainda uma atitude sórdida. Os fins não justificam os meios.
De tal maneira, torcer pra uma seleção de mulheres por falta de qualidade na seleção masculina dessa mesma modalidade é uma ofensa. Gritar e incentivar uma atleta por conta de sua aparência física fora dos padrões e não por seus méritos no seu esporte é um preconceito. Destituir uma atleta medalhista Olímpica de sua conquista para usá-la como plataforma é má fé extrema.
Vivemos em uma sociedade que ama um complexo de inferioridade e que ama mais ainda desajustados e coitados. É sempre necessário suprir a vitória de uns com alguma biografia triste, coisa que deve ter sua origem nas dificuldades sociais que a maioria dos brasileiros e brasileiras que geralmente consomem dessas reportagens conhecem como uma realidade pessoal.
Isso quando a história triste já não está evidente pois, afinal, quão obviamente triste é ser uma mulher angolana plus-size? E ser uma mulher que joga futebol, então? Para prevenir o coração de ficar contrito é melhor nem entrarmos no assunto de mulheres faveladas.
O aplauso e o grito, a depender de motivo, podem ser tão prejudiciais e discriminantes quanto vaias e xingamentos. Pense nisso antes de enaltecer quem quer que seja não por suas glórias legitimadas mas por uma condição como ser-humano.