Oficina III

Ela curte Bk’,
eu também, 
mas curto mais ela 
pela coincidência


O clima atual não pede Bk’.

Por mais que o cara seja um talento de proporções que não se enxerga fim ou começo, a melodia e a temática dos sons não encaixa bem no momento.

Lights Please toca no auto-falante.

Like, “Baby, look at how we live broke on the boulevard”
But all she ever want me to do is unhook her bra

Bem mais condizente.


— Aê, cê curte J. Cole, né?

— Sim, mas não ouvi o último disco ainda.

— Fica pra próxima.

— Quem disse que vai ter próxima?

— Você.

— Eu?? Quando?

— Quando eu tiver metendo o pé cê já vai ter dito.

— Duvido muito.

— Mas sabe que é provável.

— Eu sei é que você é bem metido.

— Um tanto quanto um pouco pra caralho.

— Tá precisando de um corretivo.

— E quem vai dar?

Ela se aproxima de mim com lentidão e graça, igual gatas fazem. Seus olhos sem desviar. Felina e ardilosa — ou talvez as duas coisas sejam uma só.

And all the pain the world cause, she be healin’ that shit
And naw, that ain’t your girl, dog
But you be feelin’ that chick

Suas mãos caem sobre meus ombros com força suficiente pra me empurrar contra o encosto da cama. Eu rio.
As mãos macias como sua própria voz escorregam no meu peito. Ela continua com seu olhar de artimanha.

Sinto oito alarmes agudos. 
Oito dores simultâneas
se arrastando abdômen abaixo.

Continuo cavando trincheira nos olhos de terra dela. 
É onde quero ficar por um tempo, me abrigando das bombas que caem de todos os lados sempre que saio porta à fora.
Não há nada de sublime nessa guerra. Não há honra, não há estandarte. Não tem bandeira garrida trapeando no final. Sequer há silêncio quando tudo acaba. O acufeno perpétuo é com o que me deito ao final de cada vitória. Junto do receio do porvir dos amanhãs.

Lights please, lights please, turn off the lights
For now everything just seems so right
And how you make the darkness seem so bright
I’m feeling like things gon’ be alright

Meu cinto se abre.
Olho pra baixo e encontro duas quadras de marcas vermelhas indo em direção à fivela. 
Ela puxa o cinto com força e o segura nas mãos erguidas na altura dos seios. Olha o objeto como se o estudasse. É tudo mise-en-scène. Eu adoro porque ela é boa nisso.
Ela o dobra. Aperta nas duas pontas e puxa com violência as suas terminações.
O impacto das duas metades do cinto se encontrando faz um som característico. Barulho que, entre todos os barulhos existentes, mais se percebe sinônimo de putaria.
Ela faz o barulho soar mais uma vez. Quer me atiçar. 
Cinematografia excelente: luz favorável; interpretação decente; figurino bem selecionado (sutiã e bermuda jeans); maquiagem perfeita (nenhuma); cabelo preso e amorfanhado — com aquela mecha que teima em cair por cima dos olhos; pele levemente reluzente do calor — seja do tempo ou de nós.
10 de 10. Mas acho que ela quer quebrar o placar.

— Eu. Eu vou dar esse corretivo — , ela diz com um sorriso safado.

Balança o cinto em dois swings pra cada lado
e o joga pra trás de si
botando força na pancada.

A viagem do flagelo é curta. Eu seguro o pulso armado e prendo o antebraço dela atrás das costas.
Quase que instintivamente sua mão esquerda, que estava livre, se levanta e vem em direção ao meu rosto.
Seguro no pulso e prendo também atrás de suas costas.

Ela exala um ar breve e súbito, quase como um sopro. Não de surpresa mas de alguém que se diverte. A mecha à frente do seu rosto voa e me toca a face juntamente de um hálito cálido.

Eu ouço o cinto cair no colchão.

— Desistiu tão fácil?

— Você é tão idiota e você nem sabe.

O sutiã dela se solta repentinamente e eu percebo com exatidão o que ela quis dizer.

Olho pra baixo.
Ela solta os braços e tira o suspensório devidamente.

É, ela conseguiu.

O placar quebrou.

Said “I know you wanna change the world
But for the night, please
Just reach over and hit the lights please”

barulho de putaria

sem couro sintético

só couro de pele

impacto

batida

pancada

percussão

no estalo

e vinda de fora

I wasn’t looking for you
I wasn’t searching
I wasn’t creeping around
I wasn’t lurking
I wasn’t sleeping around
I wasn’t thirsting
But, I got a thang for you
I got a thang for you

o quarto é uma sauna. vapor, suor. poros e pupila dilatados. há delírio nos movimentos. a percepção vem do tato. se ouvisse, veria gritos. se enxergasse, ouviria movimentos espasmódicos. sou anca e pélvis e só. o prédio poderia desabar sobre nós, não perceberíamos as batidas alarmantes dos vizinhos. poderia chover e relampejar aqui dentro, viraríamos tempestade. ficamos submersos no torvelinho no centro desta cama. o som do choque entre nossos quadris é intervalado pelo som escandaloso e sincopado de respiração. as batidas espirram suor, cada uma nos jogando pra mais longe das engrenagens dentadas desse mundo. cada uma absorvendo nossas mentes pulsantes em maior entropia. se as paredes caíssem, tenho certeza que veríamos uma supernova enquanto orbitamos o nada nesse caos em nirvana. meus braços apertam e deslizam em volta de seu corpo. ela envolve meu pescoço com ímpeto igual. só nos basta sumir, mas pra isso não dá pra soltar. somos nave. o brilho de estrelas invade os painéis. a boca dela parece consumir até luz. o universo se curva e esse côncavo me traz direto a ela. lambo seu pescoço e beijo seu peito quase com aflição de tanto êxtase. com uma mão ela segura minha nuca. a outra ela morde.

Não é só na extensão,
ela tem o gosto do mar, também.


Liga pra NASA, diz que tem uma nave em casa
E a decolagem é daqui mais ou menos uma brasa
Ela é uma trip em cada olhar, fácim de se perder
E eu cheguei bem perto

“Tá bem?”

Tô cansado, mas sem fadiga, se é que isso faz sentido. Encostado na cabeceira da cama, eu tiro a mão da frente dos olhos e a vejo de banho tomado e cabelos úmidos, com a toalha em sua volta enquanto enxuga a cabeça.

“Tô, sim. Liberou o banheiro?”, eu pergunto enquanto esfrego os olhos. Depois disso, olho pela janela. Infelizmente, o mundo ainda tá lá.

“Sim”, ela diz enquanto senta na cama de frente pra mim.

Ela permanece me olhando, aparentemente sondando alguma coisa. Nunca fui de curtir isso, mas pelo visto com ela eu não ligo.

Acho que ela espera o ocasional “que foi?”, mas ele não chega. Eu olho pra ela e aguardo até que perceba que ele não vem.

“Você não liga pra mim, né?”

A pergunta é dramática, mas o jeito que ela faz não transparece. A pragmática das situações é sempre esquisita quando entre duas pessoas pouco usuais.

Eu olho pela janela de novo. Observo que choveu. O céu está alvacento. Há brisa circulando no quarto. O vento é benfazejo.

Quando retorno o olhar, é o dela que está perdido na estratosfera.

“Claro que não”, eu digo com um sorriso de canto.

Ela sorri, provavelmente muito porque eu não respondi nada. E também muito porque, no final das contas, a resposta não lhe importe.

“Cê tem um cigarro?”, pergunto.

“Você fumando?!”

“Vai pagar de mãe, agora? Tem ou não?”

Ela se levanta e vai até a mochila. Traz um maço sucateado, visivelmente de alguns dias.

“Aqui”, diz enquanto me entrega um cigarro e um isqueiro.

“Que marca é? Deixa eu ver”, estendo a mão.

“Marlboro, Gold. Só fumo esse.”

“É seu último maço?”

“É, sim.”

“Valeu.”

No que digo isso, me viro e apanho minha mochila do chão. Tiro um cigarro do maço e coloco o pacote num dos bolsos mais vazios.

“Você é folgado pra caralho!”

“Sou mesmo. Aproveitando essa percepção sua, cê pode me dar um copo d’água, por favor? Obrigado”, eu sorrio.

Ela se vira fingindo indignação mas transparecendo o suficiente que está brincando. Volta com um copo cheio.

“Esse é meu último cigarro, então. A gente vai ter que fumar juntos.”

Eu pego o copo, bebo um pouco de água, o coloco sobre o criado-mudo e pego o cigarro e o isqueiro. Com o cigarro em mãos, eu o passo abaixo de minhas narinas pra sentir a fragrância. O cheiro de tabaco é bom, tenho que admitir. Terminado o ritual, eu parto o cigarro ao meio, jogo suas metades no copo preenchido até a metade com água e guardo o isqueiro comigo.

“Era seu último cigarro mesmo, e espero que isso responda a sua pergunta.”

“Que pergunta?!”

Eu balanço a cabeça.

“Você é tão idiota e você nem sabe.”

a ficha cai