Tentação

O dia é manhã ainda, ainda não é dia — é tão dia quanto uma criança é homem ou mulher. A parcela da coisa é pífia frente às várias horas a serem expendidas, porém já me estranha essa maneira insossa como se põem a mover.

O sol está pálido, acho que precisa de exame. Talvez por contágio as nuvens flutuam anêmicas, esquálidas como um corpo afogado que boia na baía. Não há gaivotas mas urubus na abóbada celeste. Têm mais conforto em dias macabros.

Já dentro do ônibus sinto a compulsão. Resolvo aguardar ao máximo, pois, oposto à vital paciência, o impulso como um todo pode esquecer de si mesmo, esmorecer, sumir. Quando desço, me deparo em primeira vista com uma menina a saciar o próprio ímpeto, que também é o meu. Prefiro duvidar da providência. Caminho, ignorando ambos ela e o elefante.

O perímetro da Praça dos Poetas — deveras fiel à ideia já que de poetas a praça é vazia — se estendeu muito além do que deveria concretamente. Isto por conta da mente fragilizada deste autor combinada à fatalidade de, em um espaço tão comprido e tão povoado, ser tentado mais alguma vez. A preocupação afinal se provou verdadeira. Através de força, sigo reto.

Evitei os corredores principais. Sentia que havia esgotado a reserva. Subo as primeiras escadas e transito pelo andar de cima, mais ermo e cândido a minha condição. Chego à sala.

Sem excepcionalidade, entro e me sento para uma aula que já se afastava de seu início. Fala-se de Mattoso Câmara, Jr. em oposição ao texto de alguma outra senhora. O assunto de desinência e flexão ainda tem certo frescor no meu consciente, o que não o torna menos interessante. Morfologia como um todo é absolutamente fascinante. As típicas interrupções no roteiro da aula para os característicos monólogos do Professor, para mim, são como curvas e alívios cômicos em uma peça de teatro surrealista. É uma tristeza que os mais jovens não apreciem essas escusas assim como eu. Evidentemente se perdem na identificação, confundem os pontos e se desgostam da própria incompreensão, que, por fim, cai sobre o pobre Professor.

Durante a aula, ouço o clangor e sinto a vibração das pancadas. Meu senso me trai novamente. Arredio, lanceia contra meus sentidos. A compulsão retorna. Teria sido alguma fragrância a mim tomada imperceptível que entrou através da janela aberta? De nada sei, nem da minha resiliência. A reserva esgotou, meu braço está fraco. Não há jeito.

Estando adjacente à janela, me pergunto se o Professor se importaria. Quem dera os inquéritos do imaginário agitassem as moléculas de ar assim como o som faz. Quem dera fossem de frequência somente decodificável pelo próprio objeto dos pensamentos. Seria o caos. Quem dera o caos.

O fato é que do distúrbio só pode dizer quem recebe. E muito se sabe que sofre bem mais o passivo do que o ativo. Conveniente seria considerar o mal e o bem-estar de todos os meus colegas, contudo, por motivo de hierarquia e privilégio, somente o parecer do Professor é que me importa.

Para o diabo! É desumano exigir tamanho comedimento do necessitado. Me afasto o que é possível de meus semelhantes e abro a porta para meu desejo entrar. Alcanço a mochila, cegamente procuro meu afago.

Perfeito. De lá retiro o pacote vermelho, cor mais quente, que admoesta perigo, afastamento. Para mim, é a cor do descanso. Da calma.

Deixando cair, bato uma vez o pacote contra a palma da mão esquerda. De forma quase litúrgica, abro o pacote com delicadeza. Com apreensão. Com êxtase.

Levo meu presente à boca. Percebo o olhar de alguns colegas. O Professor nada faz.

Na primeira catarse inspiro profunda, lenta, metodicamente. Os olhos fecham inscientes. O sabor satisfaz muito mais a vontade do que o paladar.

Absorto, termino o primeiro sem qualquer consequência. Quem é refém do vício sabe que não há porção mínima prescrita. Não há limite aceitável. Tiro do pacote rubro mais um desvario.

Outra catarse.

Sem nenhum compartimento acessível, bato os excessos do meu desvario, restando ao solo seus cuidados. Odeio intensificar a tarefa dos trabalhadores da limpeza. O desejo nos faz relevar qualquer sequela externa.

Termino mais um desvario, outro vem bater na porta. Encontrando-a aberta, entra sem dizer licença. Mais um em minhas mãos.

Um vizinho me encara. Em seus olhos encontro meu recente conflito. Conflito expurgado por minha rendição.

Ofereço uma peça de desvario.

Ele me olha com hesitação. Aceita:

‘Obrigado.’

Descendo da primeira catarse, me olha um tanto entorpecido.

Me diz:

‘Cara, como é bom comer Goiabinha da Piraquê!’

‘Como posso negar?’


— Dalta