Terminal — Parte II

Parte 1: https://medium.com/@takwila/terminal-4603e4b76f6b

Autor: Lee Zimmerman

— eu sou adulta agora’

— ninguém adulto de verdade diz isso’

— você pode fingir só por essa noite que me ama?’

— não posso’


Há lembrança nas dobras da pele, na fragrância do hálito, alguma coisa nova já vista antes. Em seu quadril as curvas são mais perigosas, penso em quantos devem ter se acidentado por elas. As diferenças não são profundas o suficiente, como nunca o são. Ela é mulher para muitos, imperadora sobre homens prostrados. Ao meu lado, uma menina. Nos meus braços, vulnerável como garota ferida.

Os caminhos de uma mulher são coisas que não se esquecem. Minha língua e meus lábios não perderam ajuste. Eu sou seu maior ódio, portanto seu maior amor. Não é preciso muito para perceber que não houve quem chegasse perto de tê-la como eu a tive. Ou quem a chupasse como eu a chupo, ou beijasse como eu a beijo. Pernas tremem em espasmos familiares. Demoramos tanto para chegar aqui quando claramente era só aqui que queríamos tanto chegar.


— Vem até aqui, então.

— Não.

— Por que tem que ser lá em casa?

— Por que eu não quero te conhecer agora, eu quero te ter como antes.


Want the same thing where we lay
Otherwise mine’s a different way
A different way from where I’m going
Oh, it’s you again, listen, this isn’t a reunion

Nos deslocamos pelos cômodos ao som de Amy. Lembra o tempo em que fodiamos como coelhos. Uma busca sempre nova, incessante. Sobrava desgaste, mas não ali. A nossa volta o mundo queimava. Nossas mãos escurecidas das cinzas, nosso corpo suado das chamas. Enquanto nossa casa cedia de coluna à coluna, nós transávamos sem dar salva. Nos segurava a contemplação de nossa tragédia. Dois incendiários a admirar o sublime martírio. O fogo de fora ainda menor que o fogo de dentro.

Onde havia confusão estávamos nós. Em nossa confusão de sentimentos e sentidos. Argumentações repetidas a tanto que elevar a voz era tentativa de penetrar significado. Uma confusão de gritos e pernas, agressões e gemidos. Os vizinhos certamente ouviam em silêncio tanto prélio quanto gozo. A violência aumentada à cada incompreensão compreendida. Selvageria entre olhos e cama. Não nos matávamos por amor demais, então nos dopávamos de prazer até uma função instável mais amena. Orgasmos de uma breve morte de assassinados repetentes. Crimes passionais e suas cenas desastrosas.


— não tem muita coisa além daqui.’

— não tem muita coisa além do que só se precisa.’

— parece poeta ele.’

— às vezes até acho que sou.’

silêncio

— agora sério, o que é isso aqui?’

— um terminal vazio em que se espera um ônibus que não sai, mas que também não chega.’

— você fala tão bonito quando se cala.’

— você é tanto bom senso quando dorme.’

— e nós, nada.’

— nada, nem nós.’

— então, dormimos.’

— e esperamos.’

— sempre bom esperar ou voltar pra alguma coisa.’

— ir pra lugar nenhum.’

— só estar.’

— só estar.’

So sorry if I turn my head
Yours is a familiar face
But that don’t make your place safe
In my bed, my bed, my bed

o CD recomeça