PERDEMOS A CAPACIDADE DE TOLERAR O TÉDIO

Thiago Alencar
Sep 4, 2018 · 2 min read

Você está na fila do banco, vê aquele amontoado de gente aguardando para ser atendido e toma de imediato uma ação literalmente automática: saca do bolso o seu querido smartphone. Pronto, o tédio se foi.

Está conversando com alguém — se é que realmente está — e o assunto não parece muito interessante. Inicialmente você insiste em prestar um pouco de atenção às palavras do interlocutor, mas aquilo parece que não será muito produtivo. Você dá um belo bocejo e dá aquela “puxada de-celular-do-bolso”. Pronto, obteve um pouco de adrenalina e dopamina (checou as notificações do Facebook), deu uma olhadinha nos grupos mais interessantes do whatsapp e, como se não fosse o bastante, fez um “storie” pro Instagram sem que o seu interlocutor percebesse o ato.

Essa situação parece exagerada, mas não é. Estamos perdendo gradativamente a capacidade de tolerar o tédio. Não me refiro ao grande tédio da vida do qual muitos filósofos escreveram obras grandiossas. Me refiro aos curtíssimos momentos entre uma atividade e outra, entre um refletir e uma espera. Não conseguimos mais esperar sem um fim em si. “Se é para esperar por algo, que seja me divertindo neste intervalo entre o que não está ocorrendo e o que ainda irá ou poderá ocorrer”, você resmunga.

Por isso as redes sociais estão em alta. Por isso você não consegue mais terminar de assistir um filme de 2 horas sem se sentir incomodado pela provável possibilidade de estar perdendo algo. Afinal, você não pode perder o último meme político.

Agora quero incitar uma breve reflexão. Quem foi o último grande intelectual/filósofo/político/cientista? Você poderá contar nos dedos as últimas personalidades ditas geniais, pois essa turma possui uma característica fundamental: elas não viveram sob estímulos permanentes do excesso informacional e, sobretudo, aguentaram exaustivas horas de trabalho duro regado a muito tédio. Não se produz um trabalho genial apenas regando a “criação” à conta-gotas. Ou há dedicação plena, horas sobre o empreendimento, estudo, horas planejando e até “sofrendo” para atingir o resultado final.

Aposto que Leonardo da Vinci, Schopenhauer, Isaac Newton ou Einstein tiveram que passar horas a fio de muito tédio para criarem obras, invenções e teorias geniais. Aposto também que não revezavam estudo, lazer, altas cargas de adrenalina e dopamina para realizarem seus trabalhos

Estamos entrando numa era em que será cada vez mais raro a aparição de um gênio?

Thiago Alencar

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Mestrando em Ciências Sociais, escrevo aqui sobre o cotidiano, a filosofia, o café e o "possível" sentido da vida.

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