A diferença entre ser melhor, o melhor e o bastante

Se pudesse voltar no tempo, optaria por ser melhor.

Durante o Ensino Fundamental, eu disputava para ser o estudante com as melhores notas. Na sala de aula, toda devolução de prova era um momento de competição. Eu queria ser melhor que os outros e me esforçava para isso. Com frequência, eu conseguia, de modo que o desafio não era grande o bastante.

Fui fazer o Ensino Médio em outra escola mais prestigiada. Desde o teste de admissão, fui cultivando a sensação de que era um peixe fora d’água, mas tudo bem porque eu estava lá pela excelência. Eu acreditava que era melhor do que meus colegas. Acontece que naqueles três anos, eu não fui.

Lembro de uma das minhas primeiras aulas de matemática. A professora nos colocou em trios e pediu que resolvêssemos uma série de problemas. Um daqueles problemas, ela disse, era um desafio bônus, só para quem realmente tivesse entendido a matéria. Nem pensei duas vezes: avisei ao meu grupo que eles podiam cuidar das demais questões enquanto eu atacava o problema bônus e me pus a calcular. Aquela era a minha chance de mostrar a todos que o estudante recém-chegado sabia o que estava fazendo.

Considerando todo o bullying que eu experimentaria naquela escola, demarcar meu espaço no grupo dos inteligentes parecia a coisa certa a ser feita.

Acabou o tempo para os grupos realizarem os exercícios e a professora começou a corrigir um por um no quadro. Quando chegou o momento de corrigir o desafio, ela perguntou quem tinha conseguido fazê-lo. Levantei a mão junto com apenas mais dois ou três colegas. Ela chamou um menino para dar a resposta e ele acertou. Eu havia errado.

Naquele trimestre, precisei fazer prova de recuperação em matemática (e também em biologia).

Daquele ponto em diante, uma verdade se instalou na minha cabeça: eu jamais seria o melhor, portanto poderia me contentar com ser bom o bastante.

Com o tempo, desenvolvi um conjunto de habilidades que me permitiram ser bom o bastante para lidar com a maior parte dos desafios da vida: eu escrevo bem, tenho facilidade para aprender e manipular idiomas e uma disposição para ser crítico. Esse pacote de competências tornou possível que eu terminasse a graduação em jornalismo, passasse no mestrado, escrevesse uma dissertação e virasse professor. Eu era bom o bastante para tudo aquilo.

Quando mudei para São Paulo, decidi ser empreendedor e levar uma vida nos meus próprios termos. Como diz o Chris Guillebeau em A arte da não-conformidade, meu guia de sobrevivência para construir meu próprio caminho na vida, a minha competência é a minha segurança. Se opto por ser apenas bom o bastante, preciso me contentar com o que cabe nesse “o bastante”.

Nesses últimos anos, voltei a querer mais tanto de mim quanto do mundo. Apenas ser bom o bastante já não basta mais.

Hoje eu gostaria de voltar àquela manhã em que falhei em resolver um problema de matemática. Em vez de largá-lo, frustrado pela falha, eu tentaria de novo até entender onde estava equivocado. No momento em que passei a acreditar que o meu bom o bastante não era o suficiente para lidar com certos desafios do mundo, eu diminuí o meu mundo possível.

Passei anos e anos da minha formação escolar e superior — da minha formação como pessoa — acreditando que havia um limite para o que eu podia ser e fazer.

Hoje eu gostaria de voltar àquela manhã em que falhei, mas não para ser melhor que os outros. Já não estou interessado em jogos de certo e errado. Eu voltaria para me tornar melhor que a mim mesmo, porque é aí que nasce a diferença entre ser bom o bastante e perseguir o caminho da maestria.

Ser o bastante é aceitar nossos limites. Ser o melhor é se colocar à frente dos limites dos outros. Meu objetivo atual está além dos limites. Quero apenas ser melhor, a cada dia, porque acredito na potência infinita de quem somos e de quem podemos nos tornar. Assim mesmo, no plural.