A magia da vida no Creative Mornings

Este texto é um registro narrativo do Creative Mornings de setembro, cujo tema foi Magia (Magic) e o palestrante convidado foi Rodrigo Vieira da Cunha. O Creative Mornings é uma série de encontros com café da manhã para pessoas criativas se encontrarem e discutirem temas interessantes. Os encontros acontecem em mais de cem cidades ao redor do mundo, todas com o mesmo tema. Desde abril, ofereço como voluntário o meu serviço de registro narrativo, colhendo as experiências e aprendizagens para transformá-las em histórias.

No livro Show Your Work, o artista Austin Kleon defende que não há gênios, mas cênios. Ou seja, em vez do mito da originalidade individual, ele fala sobre o poder de um contexto criativo que estimule a criação. O Creative Mornings é isso: um encontro mensal gratuito e voluntário que coloca em contato gente muito incrível.

Uma série de fatores ajudam a criar uma experiência de troca rica e efervescente: o local, os palestrantes, os conteúdos, o momento de conversa e café da manhã — além da equipe de produção, cujo trabalho muitas vezes é invisível.

varal de facilitações gráficas do creative mornings

Em cada edição do Creative Mornings, um lugar diferente abre suas portas para receber os participantes. O local da vez foi o Istituto Europeo di Design, faculdade de design e criatividade, que ofereceu um pátio amplo para o café da manhã e uma grande sala como auditório para acolher a palestra. Enquanto comiam, bebiam e conversavam, as pessoas podiam observar as facilitações gráficas de eventos anteriores — expostas em um varal pendurado nas árvores.

Facilitação gráfica é a arte de transformar discursos e conversas em imagens. Para o Creative Mornings, quem presta esse serviço é a artista Vivian Dall’Alba, que colhe e desenha ao vivo, durante a apresentação da palestra. O resultado desse trabalho é uma imagem que sintetiza as principais falas e conceitos oferecidos durante uma fala, facilitando na difusão e memória do que foi compartilhado.

(foto da facilitação da Vivian)

Além do visual, os encontros do Creative Mornings São Paulo também contam com a participação do músico Cris Romagnã, que compõe, junto com Fernanda Martins, e toca uma música especificamente inspirada no tema do mês do Creative Mornings. Na canção, o convite para fechar os olhos, respirar fundo e sentir a mágica acontecer — todos juntos, inspirando e expirando em conjunto e uníssono.

Nesta edição de setembro, quem palestrou foi o jornalista Rodrigo Vieira da Cunha, que compartilhou o seu entendimento sobre o que é magia: uma coisa que a gente não entende, um mistério, algo que às vezes só conseguimos entender muito tempo depois que aconteceu.

Para tratar do mistério da vida inteira, Rodrigo começou com as curvas da sua própria narrativa — afinal, nas suas próprias palavras, magia é uma história que a gente conta pra gente.

Como jornalista, foi chamado para auxiliar um amigo na Veja e entrevistar uma pessoa que vinha tomando remédio contra câncer. Era um senhor no interior do Rio Grande do Sul que morava num casebre junto à esposa. Ele seria entrevistado porque havia descoberto que estava tomando remédio falsificado, portanto seu tratamento vinha sendo uma ilusão. Seus olhos tinham um brilho de vida maculado pela palidez da morte que se aproximava na forma de um câncer que não foi apropriadamente combatido. No quarto do entrevistado, Rodrigo viu uma cabeceira, um criado-mudo e um relógio, cujo tic-tac incessante parecia anunciar cada segundo a menos daquela vida cujo tempo havia sido diminuído pela ganância de algum empresário.

Rodrigo seguiu trabalhando como jornalista e aos 23 anos assumiu a sucursal da Veja em Porto Alegre. Uma certeza o motivava a seguir fazendo seu trabalho: a crença de que estava cumprindo sua missão social enquanto jornalista, fazendo matérias por todo o Rio Grande do Sul. Estava tão focado no trabalho que até recusou um convite do irmão para surfar na Indonésia — surfar era um dos seus maiores prazeres.

Até que foi chamado por um editor de São Paulo para auxiliar em uma matéria envolvendo grandes figuras da cena política brasileira. Sua missão era conversar com pessoas importantes, dentre elas o então presidente Fernando Henrique Cardoso, sobre quem seria Jorge Yunes. Rodrigo ligou e ligou, falou com secretárias, pediu contatos, mas nada adiantava. Decepcionado, ele voltou para sua editora de mãos vazias. Ela sugeriu que Rodrigo dissesse que conhecia Fulano (cujo nome foi preservado). Rodrigo ligou novamente para as mesmas pessoas e acabou conseguindo uma declaração sucinta do FHC.

Felicidades, comemorações, futebol. Na tarde do dia seguinte, recebeu uma ligação do chefe de seus chefes.

“Você conhece Fulano?”

“Não, fui instruído a dizer que conhecia.”

“Se você fizer cagada, a gente tá do seu lado. Mentir para a Presidência da República é molecagem. Você está demitido.”

Rodrigo ficou devastado, abatido, desolado. Sua carreira de jornalista havia sofrido um baque impensável… até que ele percebeu que poderia dizer sim ao convite do irmão e acompanhá-lo nas ondas da Indonésia. Assim ele fez e, de uma experiência ruim, encontrou a oportunidade de explorar uma experiência incrível junto ao mar.

Depois de voltar, ele seguiu trabalhando em outros veículos de comunicação e explorando os mistérios da vida… Até que, um dia, seu filho mais velho perguntou: “Pai, de onde surgiu o universo?”.

O que ele poderia responder a uma criança de quatro anos e que fosse capaz de sintetizar o mistério — e a magia — que significa estar vivo? Ele encontrou uma resposta possível neste vídeo:

A pergunta como surgiu o universo convidou Rodrigo a pensar não apenas sobre uma grande explosão que deu origem a tudo, mas sobre como tudo o que somos é parte e também existe no restante do universo. O mistério dessa magia se desenvolve na pergunta: o que fazemos com a vida que temos?

Abraçamos a quem amamos, como este macaco? Encaramos os desafios com coragem sem nos importarmos com o tamanho deles, como este coelho? Ou fazemos de tudo para aparecer, como essas arraias?

E o que olhamos? O modo como as árvores se comunicam entre si? O padrão de voo dos pássaros? Ou as ondas do mar, só que de um jeito que ninguém mais vê?

Para pensarmos sobre a magia da vida, Rodrigo nos perguntou: como e por quê chegamos até aqui? Somos o resultado de uma combinação infinitesimalmente complexa e, tudo indica, aleatória. O simples fato de existirmos e de estarmos vivos já é uma indicação da maravilha indescritível que é existir.

A fim de refletir sobre como tudo que há está conectado, Rodrigo sugeriu o livro Uma breve história de quase tudo, de Bill Bryson, e provocou: a mágica da vida é tão rara que até hoje não sabemos se ela aconteceu também em algum outro ponto do universo. Para além disso, a magia principal está muito mais próxima, na batida dos nossos corações, na respiração, no estar junto numa manhã para conversar com outras pessoas.

Família que fez o creative monrnings

A magia também está na conexão. Rodrigo, o palestrante, é marido da Mari Camardelli, host do Creative Mornings em São Paulo, e juntos conduziram um encontro fabuloso e mágico. Sobre a Mari, uma rápida história sobre dar vida a projetos: perguntaram como ela conseguia fazer tantas coisas. A resposta? “Eu não faço, o segredo é que eu começo as coisas e as pessoas assumem e levam adiante”. Como a vida, é magia!


Originally published at Tales Gubes.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Tales Gubes’s story.