A punição e a culpa são inimigas da educação

Vamos construir juntas um futuro em que as pessoas não tenham medo de aprender?

“Professor, vai ter alguma punição por eu ter passado do número máximo de palavras?”, o moço me perguntou. Eu não gosto de ser chamado de professor, mas aquele ainda não era o momento de problematizar sobre o peso das palavras. Aquele era o momento de refletir sobre ambientes de aprendizagem e a lógica da punição.

Fui criado dentro de um sistema educacional baseado na punição, no qual quem erra perde pontos. Esse é um sistema que funciona quando existem respostas certas a serem descobertas, uma situação muito diferente daquela encontrada na vida fora da escola. Minha experiência me leva a acreditar que a maioria das pessoas no Brasil (para falar do que está próximo de mim) foram criadas em sistemas semelhantes.

Quando alguém me pergunta se haverá punição por não cumprir um acordo previamente estabelecido, eu fico triste porque a ideia de punição aparece sem qualquer questionamento. Ela aparece como uma ideia lógica, quase óbvia. Se alguém erra, tem que haver punição, né? Se alguém erra, tem que ser punido pra aprender a não fazer de novo, não é mesmo?

Não, não é.

A ideia de punição é prima da ideia de culpa. A gente pune a pessoa que for culpada por algum erro ou delito. De forma geral, isso tem a ver com quem nós acreditamos que tem a responsabilidade de lidar com as consequências de uma falha ou um equívoco. Quem for apontado como responsável por um erro será a pessoa com o dever de corrigi-lo.

O que seria diferente se, em vez de trabalharmos com culpa e punição, nós entendêssemos enquanto comunidade que há algo ali que precisa ser resolvido? Se em vez de retribuir o “mal” que alguém causou, a nossa intenção fosse reconstruir, trabalhar junto para tornar a vida mais maravilhosa para todo mundo?

Pra mim está muito claro: se alguém faz algo que me machuca e minha reação é punitiva, eu estou apenas produzindo mais dor e sofrimento. A dor que eu senti não desaparece quando alguém é punido por tê-la causado. Por outro lado, a dor da punição dá sequência a um ciclo muito nocivo de retribuições. Se pago dor com dor, é isso que estou semeando no mundo.

Em ambientes de aprendizagem, os efeitos da lógica punitiva são ainda mais evidentes. Se toda vez que eu erro, sou punido, então errar é errado. Faz sentido pensar assim, porque errar é doloroso. Alguém vai se certificar de que meu erro seja transformado em um problema para mim, então é melhor eu me matar estudando e garantir que eu não erre nada. Por via das dúvidas, é melhor também eu nem arriscar muito e ficar aqui quietinho no meu canto durante a aula pra não correr o risco de falar besteira e ser punido.

Mais uma vez lembro de um professor, sobre o qual já escrevi:

Tive um professor na faculdade cujo “estilo pedagógico” incluía iniciar o semestre falando sobre jogar água no deserto (nós, estudantes, éramos o deserto) e tratar os alunos como “abobados da enchente”.

Quem errava ou não construía bem um pensamento crítico era transformado em alvo de chacota. Eu tinha medo de falar nas aulas dele e passava o tempo ora calado, ora rindo das pessoas que erraram. Na época, eu sequer percebia o quanto esse sistema estava produzindo um mundo muito diferente daquele no qual desejo viver.

Hoje reconheço que aprendo melhor quando me sinto seguro e confiante na minha própria competência para aprender e quando entendo e aceito que errar faz parte de qualquer processo de aprendizagem. Sem medo de errar e ser punido pelos meus equívocos, experimento mais e sou capaz de alcançar resultados diferentes daqueles que eu vinha conseguindo. Eu aprendo.

Ao facilitar ambientes de aprendizagem de escrita pelo Ninho de Escritores, minha principal preocupação é deslocar as pessoas desse lugar de medo e paralisia rumo à liberdade do improviso e da experimentação. O improviso não é qualquer coisa, mas sim um estado consciente de jogo em que a lógica é construir em cima dos erros, nossos e de outras pessoas. Quando topamos o jogo do aprender, paramos de falar em culpa e punição e começamos a imaginar o que podemos fazer para aprender melhor.

Então não, não há punição por entregar cinco páginas de texto em vez de três. O que há é a intenção e a energia investidas na escrita e na decisão de ultrapassar o limite proposto. Há, também, a responsabilidade do e para com o grupo em lidar com um texto maior do que o combinado.

Em vez de nos perguntarmos se haverá punição, imagina como seria legal se a pergunta fosse:

O que podemos aprender com isso?

Esse certamente é um jogo que me interessa muito mais.

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