Caminhos do Flow

Eu comecei a fazer registros escritos dos meus aprendizados em 2008, no último ano da graduação. Comprei um caderno bonito, desenhei meu nome na capa e passei a carregá-lo comigo para aulas, cursos e eventos. Se eu lia algo interessante, anotava lá. Se eu vivia algo impactante, anotava lá. Para mim, escrever sempre figurou como uma arte que me deixa em contato com a melhor parte de mim.

Ano passado, recebi o convite de uma ex-colega de Estaleiro Liberdade para vê-la palestrar sobre o conceito de flow, desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi. A Verena Pessim, criatura fantástica e sem dúvida mais próxima de Buda do que estarei ainda muitas encarnações por vir, me reencontrou esses dias e contou sobre como usa meu texto para compartilhar algumas ideias sobre o flow. Um texto que foi fruto de um momento de plena presença e atenção, ou seja, de um momento de flow.

De forma resumida, entramos em estado de flow quando há um momento de alta habilidade combinado com alto desafio.

caminhos do flow mihaly

Nem preciso dizer que saltei de felicidade quando a Verena me convidou para acompanhá-la durante o Dia Flow, um encontro de nove horas seguidas dedicado a explorar diferentes maneiras de experimentar o flow. Especificamente, três maneiras: pela compreensão intelectual do que acontece no esporte, pela meditação guiada por tambores e pelo improviso. Junto com a Paula Macedo e um grupo de convidados (Marcelo Conteçote, Monica Jurado, Gabriela Treteski e Markus Fourier), vivi um sábado dedicado à presença e à entrega.

Apresentar ao outro é apresentar-se a si próprio

Após o café da manhã, um grupo de aproximadamente vinte pessoas se apresentou. A Verena queria uma dinâmica diferente e propus que conversássemos em duplas para então cada pessoa apresentar uma à outra. Gosto desse exercício porque ele nos coloca na posição de reveladores da história dos outros e de ouvintes de nós mesmos. O que o grupo saberá de nós dependerá daquilo que o outro ouvir, entender e achar relevante dentre nossas palavras.

Já aqui, comecei a implicar com as pessoas. Quem olha para meu rostinho sorridente acha que sou um poço de paz e amor, mas tenho um extenso currículo na arte de julgar os outros em silêncio. Coisa feia, eu sei, mas acontece. Enquanto alguns se apresentavam, ia eu anotando mentalmente sobre como certas pessoas, mesmo quando vão falar das outras, acabam falando mais de si mesmas, sem conseguirem se desprender do eu.

Instantes depois de pensar isso, me dei conta de uma realidade ainda mais profunda: da minha arrogância. Quem não conseguia se desprender do “eu” era eu mesmo, entregue aos meus julgamentos. As pessoas estavam se apresentando e entregando partes importantes de si e dos outros, mas tudo o que eu conseguia fazer era reparar nas limitações alheias. Se alguém soubesse disso tudo que se passou pela minha cabeça, certamente entenderia que meus pensamentos apontavam para esse grande ego muito mais do que qualquer modo de falar a história dos outros.

(Sorte minha que ninguém saberá o que eu pensei, esse será o nosso segredo!)

O rio é um dos caminhos do flow

O primeiro convidado da Verena e da Paula foi o Marcelo Conteçote. Canoísta, ele trouxe a experiência da teoria de Mihaly por meio de sua prática com canoa e com o caiaque de água branca. Os dez pontos necessários para o estado de flow estavam presentes nas histórias de Marcelo (que tu pode ler no meu outro texto sobre o assunto):

  1. Metas claras e feedback imediato. Passar pelo rio no caiaque é técnica e desafio e tu sabe imediatamente se alcançou teu objetivo.
  2. Desafios e habilidades altos e equivalentes. Vencer rios com pedras escondidas e cachoeiras altas demanda um alto nível de técnica.
  3. Sensação de controle. O rio responde ao que fazemos porque entendemos os limites da nossa habilidade e das respostas do rio — ele não vai correr para trás, por exemplo.
  4. Concentração profunda. Há sempre muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas somente aquelas relativas ao trabalho são consideradas.
  5. Foco temporal no presente. Não dá tempo de pensar em experiências anteriores ou em analisar como seria um futuro melhor.
  6. Distorção da experiência temporal. Imerso no rio, uma hora pode parecer um ano, mas a verdade é que o tempo não importa.
  7. Suspensão temporária da autoconsciência reflexiva e transcendência da individualidade. Em meio à natureza, o “eu” se torna parte do todo, um pedacinho de um universo complexo.
  8. A experiência é intrinsecamente recompensadora. Descer um rio em um caiaque não é algo feito para chegar ao outro lado, mas para descer um rio em um caiaque.
  9. Aumento da autoestima. Além da habilidade de fazer, desenvolve-se o contto e o cuidado com outras pessoas que também fazem.
  10. Crescimento da complexidade do self. Na medida em que se desbrava o desconhecido, nossa existência se torna mais complexa porque passamos a conhecer mais.

“Você tem que estar muito tranquilo”, ele disse, “porque está lidando com forças muito maiores do que você”. Aquelas palavras bateram em mim com força. O mundo é infinitamente maior que mim. “Meio metro de água é o suficiente para matar você”.

Embora eu não seja um esportista das águas, entendo as palavras do Marcelo por meio de uma experiência com artes marciais.

Koshi-nage

Eu treinava Aikido havia uns três anos. Em uma noite de treino qualquer, eu estava com as unhas cumpridas (unhas e cabelos são coisas que demoro a cortar, metade preguiça, metade apreço por uma certa feminilidade). Acontece que o Aikido só pode ser treinado com parceiros e, quando um aplica uma técnica, outro deve recebê-la e aliviar o impacto. Na técnica daquela noite, eu deveria segurar o quimono do meu parceiro para que, quando projetado em direção ao chão, eu pudesse evitar machucados. Assim que fui arremessado pelo meu colega de treino, peguei-me em seu quimono e minhas unhas rasgaram seu peito, deixando três riscos avermelhados marcados em sua pele. Pedi desculpas, fui repreendido pelo sensei sobre meus cuidados com o próprio corpo e com o corpo dos outros e segui treinando. Minutos depois, era a hora de eu receber outra técnica. No Aikido, os movimentos se tornam muito rápidos depois de uma certa graduação. Preocupado em não cortar ninguém, eu travei e, em vez de rolar o corpo, eu coloquei meu braço entre meu corpo em rápido movimento e o chão. Como resultado, fiquei mais de dois meses sem conseguir treinar porque havia machucado o braço. Eu sabia cair, sabia receber a técnica, mas não estava presente no momento, estava preocupado demais com o que poderia acontecer por conta da minha negligência ao não cortar as unhas. Por não estar muito tranquilo, lidei com forças maiores que as minhas e me machuquei.

“Quando começa, é você contra a natureza”, disse o Marcelo. “Só depois que você percebe que é você com a natureza”.

O ritmo da meditação

A segunda convidada do flow foi a Monica Jurado. Com ela, experimentaríamos a meditação guiada por batidas de tambor. Quando me convidou para o evento, a Verena me disse que queria saber como uma pessoa acostumada a colocar experiências em palavras relataria o processo. Aqui está minha humilde resposta.

Antes de começarmos a meditação, a Monica pediu que ficássemos em círculo e entoássemos um “aaaah”. Enquanto fazíamos isso, ela passava de pessoa em pessoa averiguando quem estava fazendo direito, “no alto do corpo”, e quem precisava subir mais. Eu não entendi o que aquilo significava e não entender me deixou em estado de desconforto. No gráfico proposto por Mihaly, um desafio muito maior que nossa habilidade nos leva a uma sensação de preocupação e ansiedade.

Depois, deitamos, fechamos os olhos e fomos conduzidos por um processo de meditação acompanhado por batidas de tambor. Embora já tenha meditado em outras ocasiões, o silêncio costuma ser o companheiro desses momentos. Os tambores, por outro lado, eram tão altos que mal me deixavam escutar a voz da Monica conduzindo o processo. Enquanto eu alternava entre ouvi-la e ouvir aos tambores, algumas imagens vinham à minha cabeça, mas eu me esforçava para afastá-las. Eram cenas parecidas com as que me visitam logo antes de dormir, mas pensei que estava fazendo algo errado ao recebê-las, por isso não dediquei atenção a nenhuma delas.

Após um período de vinte ou trinta minutos, começamos a trocar experiências. Algumas pessoas viram animais, outras enxergaram lugares e padrões de cores. Tudo aquilo soou muito estranho para mim, pessoa conceitual desacostumada a visualizar o que quer que seja. Decidi que nada daquilo faria sentido para mim e que seria melhor me concentrar no restante do dia, mas aí falaram que haveria uma segunda rodada de meditação.

A segunda vez foi diferente porque decidi que não me negaria à experiência, e esse foi o tema de tudo o que vi ou lembrei. A primeira imagem que me veio foi a de uma praia, e depois me recordei dos tempos de criança quando eu adorava curtir as ondas, pulá-las e sentir-me entregue ao oceano, sem medo e sem pressa. Tum, tum, tum, batiam os tambores, e eu voltava ao mar, voltava às lições de Aikido, voltava ao último dia em que chorei. Deitado no chão, senti frio e senti que esse frio era uma representação física do medo que me abraça quando estou diante de algo que é novo e que ainda não entendo — que talvez eu nunca entenda, que talvez faça parte de um universo no qual eu nunca de fato entrarei, ou que só entrarei se me permitir. Água. Tum, tum, tum, acolhi na meditação o convite a soltar minhas represas e não reter qualquer energia que fosse.

monica jurado meditação com tambores

Para saber mais sobre meditação com tambores, procure a Casa Jaya.

“As memórias são nós de energia que podemos manter ou desatar”, disse Monica.

Quando a meditação terminou, senti clareza sobre quais fluxos de água eu desejo soltar em minha vida: os encontros, as viagens, os treinos de Aikido, as escritas de mim e dos outros. Gostaria de explicar a experiência de forma mais racional, mas não imagino como. Creio que ela dialogou comigo por um campo que não é o da lógica e o das palavras, mas sim da experiência concreta, intraduzível, inenarrável.

No almoço, a Paula Macedo me disse para não me preocupar caso não houvesse sentido ou visto algum animal. “Para cada um, a meditação com tambores traz coisas diferentes”. Fiquei mais tranquilo e disposto a aceitar o que viesse pela frente.

Sobre agir e errar

A terceira experiência do dia foi conduzida pela Gabriela Treteski e pelo Markus Fourier e nos colocou para brincar com jogos de improviso. Eu, que morro de medo de perder o controle, lá estava com um bando de gente desconhecida explorando as possibilidades de jogos que, em outros momentos, eu só toparia fazer entre amigos — e ainda assim, com muito cuidado.

O que fez diferença para mim foram as regras do improviso, regras essas que podem ser trazidas para a vida. Já escrevi sobre improviso antes, mas ainda não havia experimentado na prática. É diferente saber que uma pessoa num palco está disposta a errar e nós mesmos pisarmos nesse palco.

Três proposições me deixaram mais calmo. A primeira delas era aproveitar a experiência e se divertir. Tudo o que acontecesse ali tinha o único propósito de ser uma experiência em si mesma, ou seja, não pretendíamos criar valor de nenhuma outra forma que não experimentando o momento. Desde o início sabíamos as regras de cada momento: imitar o outro, passar ou devolver a energia que vinha do círculo, sentir o grupo e caminhar junto com todos. A segunda proposição era abrir mão de si em nome do coletivo. Nós estávamos lá para brincar em conjunto, como se fôssemos crianças, livres dos nossos preconceitos e dúvidas. Por fim, a terceira proposição, que me liberou dos receios, foi: deveríamos assumir o erro do outro e continuar o jogo para não interromper o fluxo. Se eu errasse, outra pessoa tinha o dever de cuidar do coletivo e salvar o momento, em vez de perder tempo me julgando ou apontando o dedo e procurando culpados. Era um jogo de confiança: confiando nos outros, eu podia me libertar do receio de estragar tudo e atrapalhar a experiência alheia, pois mesmo os erros seriam celebrados e acolhidos.

Mesmo que eu fosse um erro, eu seria celebrado e acolhido.

Improvisar é um jogo que demanda pelo menos duas pessoas dizendo sim. Se um de nós dissesse não ou quisesse achar alguém para culpar por equívocos — e erros são esperados em jogos de improviso –, toda a brincadeira se perderia. Quando o coletivo decide que a experiência do grupo é mais importante do que culpas e realizações individuais, o processo de entrega se torna mais intenso e as pessoas deixam de importar isoladamente, pois o que se torna essencial é a relação e o conjunto.

Desse momento de brincadeiras, entendi a importância de me cercar de pessoas que digam sim e topem construir a partir dos meus erros, dos nossos erros, em vez de barrar as trocas e experiências.

Ao final: há muitos caminhos do flow

Se eu tivesse que resumir a experiência do Dia Flow, usaria as palavras que a Verena encontrou num livro taoísta: “você pode ir com o rio ou contra o rio; ele não se importa”.

Ou seja, a vida está aí e continuará seguindo seus fluxos. Nós podemos aceitá-los e dizer sim, improvisando e entrando em sintonia com ela, ou podemos tentar resistir — mas a vida continuará mesmo assim e ela é mais forte que nós. Aprender o que me deixa em estado de fluxo me parece a escolha inteligente, porque assim posso acompanhar mais facilmente os movimentos do rio da vida.

No final das contas, é isso que trago para mim da experiência deste dia dedicado a explorar o estado de fluxo. Estar presente pode nem sempre ser fácil, mas me permite estar na vida e aberto à vida. Tem coisa melhor?


Originally published at Tales Gubes.

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