CreativeMornings São Paulo: Genius

Café da manhã, gente maravilhosa e uma palestra inspiradora. Essa é a receita do CreativeMornings.

O evento, organizado inteiramente por voluntários e patrocinadores, acontece uma sexta-feira por mês em mais de 170 cidades ao redor do mundo. Um mesmo tema é definido para todos os capítulos (como são chamadas as cidades que realizam o CreativeMornings) e então o grupo de voluntários escolhe alguém da comunidade criativa local para apresentar sua visão sobre o tema.

Em agosto, o tema foi Genius e o palestrante escolhido, Sérgio Chaia.

Provocado a refletir sobre o significado de genialidade, Sérgio decidiu compartilhar quatro momentos de fracasso em sua trajetória de vida e o que aprendeu com eles.

O sonho frustrado

Quando criança, Sérgio não pensava em ser executivo. Seu sonho era ser jogador de futebol. Aos 13 anos, jogou com seu time de bairro contra o Guarani de Campinas, foi chamado para fazer um teste e passou a integrar o time de base. Jogou lá dos 13 aos 15 anos.

Aos 15, seu pai e seu treinador o convenceram a abandonar o futebol. Eles argumentaram que Sérgio tinha a oportunidade de estudar em boas escolas e faculdades e deveria aproveitá-la. Sua reação? Baixou a cabeça, disse que tudo bem e abandonou o sonho de ser jogador de futebol.

Sérgio aceitou a ordem do pai, mas ficou preenchido pela frustração de não haver batalhado pelo seu sonho. Esse foi um primeiro momento de fracasso.

Em resposta, ele traçou para si um novo plano. Seu pai alcançara o cargo de diretor em uma multinacional aos 46 anos. Para superá-lo, Sérgio se tornaria presidente antes dos 40. Daí por diante, viveu a partir do plano. Se estava em uma empresa e via que não alcançaria o que buscava no tempo desejado, mudava.

Após passar por diversas empresas, finalmente tornou-se diretor geral na Sodexo. É neste momento que viveu sua segunda história de fracasso.

Uma festa vazia

Há um ritual de celebração do aniversário de diretores em grandes empresas. A secretária chama para uma reunião urgente que não estava marcada na agenda e leva o diretor até uma sala onde os funcionários aguardam para cantar o parabéns a você. No dia do seu aniversário, não foi diferente.

Sérgio foi conduzido pela sua secretária até uma sala de reuniões e deparou-se com seis subordinados e uma mesa com bolo, salgadinhos e refrigerantes. Cantaram parabéns e trocaram abraços burocráticos. Sérgio cortou o bolo e ofereceu um pedaço aos colegas, mas todos estavam de dieta. Deu-o para a secretária, que lhe cortou outro pedaço. Assim foi a festa.

Quando todos foram embora, a secretária perguntou: “o que você vai fazer com esse bolo? Levar para casa ou deixá-lo para a copeira?”

Sérgio deixou-o para a copeira.

Estava envergonhado de levar um bolo inteiro para casa, apenas dois pedaços compartilhados entre as pessoas com as quais passava a maior parte do tempo de sua vida. Nesse dia, compreendeu que sua busca por reconhecimento confundira-se com a busca por poder, mas poder e reconhecimento são coisas diferentes.

Aos 35 anos, decidiu-se por um novo caminho: reconhecer as pessoas. Teve seu primeiro filho, começou a praticar o budismo e a reconhecer os outros antes de esperar ser reconhecido. Esse novo caminho levou-o para seu terceiro momento de fracasso.

A assinatura falsa

A vida profissional de Sérgio havia se transformado. Na Nextel, ele atuava como um presidente-celebridade, aparecendo em capas de revistas, andando de jatinho e alcançando grandes resultados. Quando assumiu seu cargo na empresa, tinha 700 funcionários e faturamento de 70 milhões. Anos depois, 7 mil pessoas e 1 bilhão em faturamento.

Um dos hábitos que Sérgio desenvolveu, na busca por reconhecer outras pessoas, foi o de escrever cartas para os vendedores que alcançassem 120% da meta. Era uma forma de mostrar que ele se importava com o trabalho de todos.

Em um evento, Sérgio encontrou um dos vendedores que recentemente havia superado a meta e recebido uma carta. Perguntou a ele o que havia achado. “Eu não gostei da cartinha”, foi a resposta. “Porque é falsa, não é sua assinatura”.

Era verdade. Com o aumento da empresa, cresceu o número de vendedores que alcançavam 120% da meta. O que antes eram até 30 pessoas já alcançava facilmente 200 vendedores. A solução que Sérgio encontrou foi ensinar sua secretária a forjar sua assinatura. Deste modo, ela assinava as cartas. Ocorre que alguém viu-a assinando as cartas do presidente e a notícia se espalhou pela empresa.

Sérgio aprendeu que, preso em manter sucesso, esquecera de prestar atenção nos resultados.

O verdadeiro compromisso

Mais alguns anos no futuro, Sérgio encontrava-se em dúvida sobre voltar a ser CEO de alguma grande empresa ou dedicar-se ao trabalho como coach. Teve uma ideia: passaria mais um ano e meio como CEO e manteria em paralelo sua carreira como consultor e coach.

Achou uma empresa, participou do processo seletivo e chegou à última fase. Era uma entrevista com o conselho da empresa. Toda a conversa seguia com bastante fluidez. Para Sérgio, a sua aprovação estava praticamente garantida. Ele contava sobre sua trajetória e também seu trabalho atual como consultor. Em dado momento, o principal acionista da empresa perguntou:

“Você sabe que para ser CEO aqui terá que abandonar tudo isso?”

Sem titubear, Sérgio respondeu o que estava em seus pensamentos:

“Eu sei, mas não sei se quero fazer isso.”

A entrevista acabou, abraços e cumprimentos, e Sérgio aguardou pela resposta positiva que nunca veio. Uma semana depois, conversou com o headhunter que o havia encaminhado para a vaga.

“Você perdeu a posição” ele disse, “porque respondeu de forma extremamente ingênua”.

“Eu queria tanto!”

“Mas deu a sensação de que ficaria só um pouco e sairia.”

Aquela resposta concluiu mais um fracasso em sua vida. Ele estava errado em acreditar que podia controlar o mundo.

Uma definição de genialidade

Após não conseguir a vaga de CEO, Sérgio refletiu sobre o que verdadeiramente gostava e fazia bem. Achou sua resposta na ideia de que apreciava levar organizações a patamares melhores de performance, e é isso que tem feito como coach e consultor. Desta vez, não apenas de empresas. Também de pessoas, como o trabalho voluntário que realiza no Instituto Ser Mais, orientando jovens em situação de alta vulnerabilidade social a se desenvolverem.

Finalizando sua palestra, Sérgio compartilhou o que entende por gênio:

Genialidade é saber quem você é, aonde quer chegar e mergulhar na vida sem boia.

Este texto foi um registro narrativo da palestra de Sérgio Chaia no CreativeMornings São Paulo. Para conhecer e participar dos encontros do CreativeMornings em São Paulo, você pode seguir nossa página no Facebook, assinar nossa newsletter do site do CreativeMornings São Paulo e ver as fotos no Flicker!