Difícil é diferente de ruim

Em algum momento da vida, me ensinaram que o maior objetivo da vida é viver fácil. Dinheiro para comprar o que quisesse, casa própria pra não pensar em aluguel, emprego estável pra não se preocupar com fonte de renda, relacionamentos tranquilos e sem conflitos.

Conflitos são difíceis porque nos colocam de frente com interesses distintos, às vezes até opostos. Se o objetivo é o fácil, então conflito realmente é ruim.

Vamos olhar isso de outra forma?

Um conflito sinaliza que as pessoas envolvidas não estão se sentindo contempladas e cuidadas com o modo como as coisas são feitas no momento atual. Isso pode acontecer mesmo que tudo pareça absolutamente igual ao que sempre foi, porque as pessoas mudam e as relações também.

Quem eu era ontem poderia estar lindamente feliz com a situação presente, mas se mudei minha perspectiva, talvez hoje eu queira algo diferente. Se eu fiz um acordo prévio que limita quem eu quero ser hoje, temos um conflito. O jeito é reconversar os acordos e procurar novos modos de cuidar de todo mundo. Isso é difícil.

Ser difícil, porém, não é ruim. Ser difícil significa que dá trabalho e que às vezes a gente não saberá nem por onde começar. Ser difícil quer dizer que precisamos parar, avaliar, estudar, repensar, conscientemente mudar (e seres humanos têm medo de mudança).

Fica mais fácil apreciar o difícil quando entendemos que estamos todos tentando cuidar das nossas necessidades, daquilo que é importante pra gente. Se não estamos contentes com o modo como as coisas estão nesse instante, a dificuldade de um conflito é o caminho para realinhar nossas relações e cuidar do que necessitamos.

Conflito é um indicador de que as coisas não estão boas como poderiam, mas justamente por isso elas poderão estar.


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