Do Jogo pra Vida: mais motivação

Ganhe pontos extras de Energia cuidando da sua motivação intrínseca com esses quatro elementos.

Meu irmão é o cara dos jogos. Seja para salvar o mundo ou para vencer os adversários, ele dedica muitas horas se desenvolvendo nos jogos que escolhe e tem muitos amigos com os quais pode contar na comunidade de jogadores. Qualquer jogo que for colocado nas mãos dele será vencido em uma questão de horas.

Jogos são construídos para produzir engajamento e prender a atenção das pessoas por meio da diversão. Quando falamos na Vida Real, assim com iniciais maiúsculas, parece que não há espaço nem para a diversão, nem para a atenção plena, quanto mais para o engajamento.

Mas aí eu paro pra pensar: será que tem como piratear o Jogo da Vida? Desvendar quais são os elementos utilizados para conquistar o engajamento do meu irmão nos inúmeros jogos nos quais ele se envolve e aplicá-los na vida real? Em vez de O Jogo da Vida, pensar Do Jogo pra Vida? Esse tem sido meu projeto atual e a razão pela qual estudo gamification: a aplicação da mentalidade de jogos para tornar coisas que não são jogos em experiências mais engajadoras e divertidas.

A tal da motivação

Estar motivado significa basicamente que nossa energia flui com mais facilidade na direção de realizar determinadas ações. Querer fazer algo é um tempero poderoso na constituição de uma experiência prazerosa e bem-sucedida. Querer fazer nos dá energia para efetivamente fazer.

Se não queremos fazer alguma coisa, provavelmente encontraremos milhares de desculpas até que essa coisa deixe de fazer parte de nossas vidas. Meus dois últimos empregos formais foram assim: eu tanto não queria estar neles que resisti apenas cinco meses em cada um antes de pedir demissão. Os dois empregos, cinco meses; esse foi meu limite.

A motivação pode aparecer de forma extrínseca ou intrínseca. Quando falamos no chicote (punição) ou na cenoura (recompensa), estamos falando de motivação extrínseca, aquela que vem de fora. Ela tem o seu lugar, especialmente quando falamos de resultados rápidos em trabalhos que não exigem pensamento divergente, ou seja, naquelas operações menos criativas.

Neste texto, estou mais interessado em encontrar a motivação intrínseca, aquela que vem de dentro e nos deixa cheios de vontade de agir. Ela está dividida em pelo menos quatro quatro elementos, os quais já escrevi neste texto, ao falar do meu irmão, e vou recuperar agora:

Seja para salvar o mundo ou para vencer os adversários (sentido), ele dedica muitas horas se desenvolvendo (maestria) nos jogos que escolhe (autonomia) e tem muitos amigos com os quais pode contar na comunidade de jogadores (relações).

Sentido

A narrativa é a linguagem da experiência. Nós contamos histórias para dar sentido para qualquer coisa que façamos ou sejamos. Esses dias me perguntaram por que eu seria um “game expert” (aviso: eu não me considero assim, mas fui apresentado nesses termos) e eu precisei contar uma história que oferecesse um sentido para isso.

Narrativas têm início, meio e fim. O que o sentido faz é nos apontar uma direção para esse fim, mesmo naquilo que fazemos pelo prazer de fazer. Eu estudo narrativas e ficções porque acredito que elas são a base da organização do nosso mundo. Eu estudo gamification porque desejo piratear a forma como penso e pratico educação. Eu pratico aikido porque encontro nesta arte marcial uma tradução corporal para a comunicação não-violenta (e porque meu corpo fica mais leve e gostoso, também).

O sentido aponta uma direção para onde caminhar. Sem a percepção desse sentido, caímos sentados de braços abertos perguntando “pra quê?”.

No meu último emprego, quando fui tutor na educação a distância em uma grande universidade particular de São Paulo, eu era responsável por 1500 estudantes. Com que qualidade eu conseguia avaliar as atividades realizadas por eles? Quase zero, meu trabalho era corrigir atividades o mais rápido possível para cumprir o prazo — sem uma verdadeira preocupação com o processo pedagógico —, então não via sentido naquilo.

Maestria

O ciclo da motivação é mais ou menos o seguinte: eu faço algo, tenho sucesso, sinto-me motivado a fazer mais. Ser bom em alguma coisa nos ajuda a querer fazer mais. Esse ciclo pode começar em qualquer ponto. Talvez eu seja reconhecido por um sucesso que nem alcancei ainda (alguém falou game expert?); para dar sentido a esse nome e para ser bom o bastante e merecer o título, eu me sinto motivado a estudar e a praticar.

Eu tenho facilidade para escrever e isso sempre me trouxe de volta à escrita, mesmo após sete anos parado. Eu era bom o suficiente em aikido para que mesmo depois de doze anos sem treinar eu tenha me sentido motivado a voltar. Não fui começar kung fu nem karate porque precisaria iniciar do zero, mas voltei para o aikido e me sinto super bem em saber que já tenho alguma habilidade treinada.

Estar motivado, portanto, parece envolver a prática daquilo que consigo fazer bem. Ou achar um jeito de aprender rápido. Eu sou o tipo de pessoa que desiste frente a desafios que parecem complicados demais, então a coisa mais inteligente que posso fazer é encontrar modos de facilitar meu aprendizado, aumentar a diversão e diminuir a ansiedade frente a um problema complexo, pelo menos até que minha habilidade cresça e eu possa chegar ao estado de fluxo (dois textos meus sobre isso: os 8 elementos do estado de fluxo e caminhos do flow).

No último emprego, eu levei duas semanas para dominar o Blackboard, o ambiente virtual de aprendizagem que utilizávamos. A parte da correção das atividades não levou muito mais do que isso. O desafio da correção, para além do tempo escasso, se mantinha relativamente estável, então logo minha habilidade era muito maior que o desafio e o meu estado de humor era o tédio. Daí não dava, né?

Autonomia

Nós somos criaturas livres num espaço amplo, já disse o Gustavo Gitti no CreativeMornings sobre amor. Quando somos obrigados a fazer alguma coisa, especialmente se não tem sentido e se está além ou aquém das nossas habilidades, a tendência é nos sentirmos presos.

Esse é um elemento básico dos jogos: eles sempre são voluntários. Se eu sou obrigado a jogar, a diversão se perde.

Hoje em dia eu tenho o privilégio de querer fazer tudo o que faço — o que é muito diferente de só fazer o que eu quero. Eu quero treinar aikido, trabalhar com jogo de mobilização social, escrever, jogar RPG, estudar japonês, organizar e participar de grupos de estudos, namorar, encontrar meus amigos, organizar e facilitar encontros e oficinas de escrita.

Isso não quer dizer que não haja coisas chatas no meio desse caminho: tem horas que é um saco fazer divulgação dos meus cursos. Eu reviro os olhos (e quem já me encontrou pessoalmente sabe exatamente a frequência com a qual eu faço isso) quando tenho que lidar com pessoas indispostas (é contagiante, inclusive). Por aí vai: mesmo os trabalhos mais fantásticos da vida terão partes chatas.

Como tutor na educação a distância da grande universidade, eu tinha muito pouco poder de atuação para mudar qualquer questão relevante no processo que estava acontecendo. Essa experiência basicamente indicava que meu lado humano e criativo estava fora da equação, o que para mim foi um grande “não” na hora de decidir continuar trabalhando lá.

Relações

Estar com outras pessoas é um grande motivador. Pessoas que nos entendem, que compartilham nosso senso de sentido, que reconhecem nossas habilidades e são habilidosas por si só.

Dizem por aí que somos a média das pessoas com as quais convivemos, então procuro me relacionar com pessoas que provocam e estendem meus limites de compreensão do mundo. Isso é algo que procuro em qualquer lugar. No caso do meu último emprego, era o principal motivador intrínseco que sustentava minha permanência para além do primeiro ou segundo mês: eu convivia com pessoas fantásticas que me faziam sorrir, aprender e me divertir — dá pra pedir mais?

Como trazer isso tudo para a vida?

Tudo muito lindo, tudo muito gostoso, mas como a gente aplica isso na vida? O que funcionou para mim foi encaixar pouco a pouco práticas, lugares e situações nas quais encontro sentido, maestria, autonomia e relações. Eu não comecei minha vida atual toda ao mesmo tempo.

Há três anos, criei o Ninho de Escritores, um espaço que reunia os quatro elementos. Uma vez por semana, apenas três horinhas preciosas, e fui descobrindo nelas uma via de escape para as coisas que não funcionavam na vida. Minha missão passou a ser trazer mais daquela sensação para meu cotidiano. Achei um outro espaço na vida e voltei a jogar RPG, depois a treinar aikido. Aos poucos, fui recuperando espaços que me nutriam para viver de forma mais motivada.

Desafio prático

Encontre um turno na semana que possa ser dedicado para você. Três ou quatro horas em que você consiga se separar das obrigações cotidianas. Para fazer esse tempo valer, avise as outras pessoas do seu plano de usar esse tempo para si.

Uma vez separado esse tempo, escolha fazer algo que tenha sentido, que desenvolva suas habilidades e que permita se relacionar com outras pessoas. Algo que você realmente queira fazer, afinal é o seu tempo.

Voi là, vai e faz. Esse momento na semana será a sua joia, o espaço-tempo para o qual você pode retornar e reencontrar aquilo que é precioso para si. É um movimento pequeno o suficiente para ser fácil, mas grande o suficiente para valer a pena.

Dica: não deixe pra pensar nisso depois. Separe agora um tempo na próxima semana e decida o que fazer. Você pode mudar depois, mas o mais importante é agir.

Desafio extra

Se quiser tornar essa ação ainda mais significativa, comenta neste texto o que e quando você fará. O compromisso social fortalece nosso compromisso (é uma das dicas de motivação externa), por isso é uma boa arma quando nossa motivação interna ainda não está se sustentando sozinha.