Epiphanea: voar é cair e errar o chão

Neste sábado, vivi um dia de artista. O pessoal da Epiphanea, uma escola livre para artistas, me convidou para conhecer e, se possível, também narrar a experiência do encontro chamado Voar é cair e errar o chão. A artista convidada para conduzir o grupo de participantes foi Thais Ueda, cujo trabalho com desenhos é absolutamente inspirador.

Mesmo que eu não quisesse fazer esse registro narrativo, seria impossível negá-lo.

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O encontro aconteceu na Hiperespaço e começou cedinho. Fomos levados para uma sala na parte da frente da casa. Cortinas pretas bloqueavam a luz, deixando tudo na penumbra. Escuro ou não, eu sabia que não tinha com o que me preocupar, pois conheço a casa de cabo a rabo. Eu estava errado, mas só descobriria mais tarde…

(Pensando agora, posso dizer que conheço o Hiperespaço de uma ponta a outra. Isso é muito mágico!)

No escuro, recebemos um conjunto com folhas, pincel japonês e um potinho com nanquim. A Thais nos instruiu: “Vocês perceberão que o pincel japonês é diferente do normal”. Tateei o pincel, senti que ele terminava em uma argola molenga e comecei a pintar com ela. De fato, era diferente e difícil!

Quando as luzes foram acendidas e começamos a olhar os trabalhos uns dos outros, entendi por que tudo estava tão difícil: eu havia feito duas pinturas com o lado errado do pincel. Rimos e rimos, mas no fundo eu estava chateado por haver errado. Enquanto todas as demais pinturas eram cheias de tinta, as minhas tinham traços leves e finos, como se eu tivesse medo de sujar o papel.

Medo, sombra, aquilo que a gente não fala nem pensa muito a respeito. Esses foram os temas que nortearam a dinâmica seguinte. Escrevemos em post its nossas respostas a perguntas como “do que eu tenho medo?” e “o que eu não consegui fazer”. Do que eu tinha medo naquele momento? Que todas rissem de mim. O que não consegui fazer? Descobrir a tempo o lado correto do pincel…

Colamos nossos post its na parede e os deixamos para trás. Meio como fazemos no dia a dia com as coisas que não queremos enxergar.

Atravessamos a casa do Hiperespaço e fomos para o subsolo, onde passamos a conversar sobre o processo criativo da Thais e o modo como ela pesca imagens para usar como referências em sua arte. Um dos pontos mais marcantes de suas respostas foi a sinceridade com que a artista admitia não ter todas as respostas. “Eu me expresso por imagens, em grande parte porque o que quero expressar, não sei colocar em palavras”. Em seu trabalho, a arte é uma forma de investigar o mundo e as possibilidades de criação. Nesse processo, ela vai descobrindo e experimentando o que é ser artista, o que faz sentido e o que precisa ser deixado de lado.

Na hora do almoço, uma surpresa: nos separamos em duplas e cada pessoa ficou encarregada de preparar o prato da outra. Na mistura, bifum, brócolis, frango, shitake, carinho e cuidado. Em meio a muitos sabores, uma unanimidade: o prato preparado pela outra pessoa ficou mais gostoso.

Depois de almoçarmos, voltamos para a sala escura. Lá dentro, ganhamos vendas. O escuro ficou ainda intenso, agora ampliado pelo pano escuro em frente aos nossos olhos. Com uma música de fundo, fomos orientados a deixar o corpo se manifestar e a caminhar pela sala sem medo. Fiz quase isso, me mexi e andei, mas estava cheio de receio, certo de que alguém podia me ver e estava, naquele momento, entregue a muitos risos (em silêncio, para poder não estragar a brincadeira e continuar rindo).

Mandaram-nos sentar de novo, em qualquer lugar, quando nos sentíssemos à vontade. Pulei no chão e ali fiquei, paradinho, tão seguro quanto poderia com os olhos vendados.

Alguém tocou-me o ombro.

“Vem comigo”, disse a voz.

Dei minha mão, levantei e fui sendo guiado passo a passo. Há dois anos, quando era eu guiando os participantes vendados do Escrita Gourmet, achei tudo muito engraçado. Mas eu, logo eu, tão cheio de medo de não estar mais no controle, estava ali nas mãos de alguém que eu nem sabia quem era porque não havia reconhecido a voz. Aceitei meu destino e segui caminhando, evitando um degrau aqui e outro ali.

Eu conhecia a casa, então deveria saber onde estava, mas minha noção de espaço estava perdida. Na realidade, eu sequer conseguia recorrer à minha memória do ambiente. Eu bem poderia estar no hiperespaço.

Minha guia me entregou a outra. “Aqui tem um degrau grande”, ela disse. Subi. “Agora outro”. Subi. “Mais um”. Subi de novo. “Agora vira pra mim”. Virei. Ao fundo, ouvia o som de vento e motor, como se houvesse algum ventilador industrial próximo de mim. Onde eu estava? Nenhum lugar do Hiperespaço tinha aquelas características, aqueles degraus, aquela sensação de estar cego nas alturas…

“Sente o chão atrás de ti”. Eu tateei com o pé e entendi que a plataforma acabava dali alguns centímetros. Comecei a tremer inteiro e apertei firme as mãos da moça que me sustentava. Meu equilíbrio estava — literalmente — nas mãos dela. “Fica com os pés bem pra trás”. Obedeci, com apenas meio pé apoiado na plataforma, meus calcanhares sem base.

“Quando você quiser, se você quiser, pode se soltar e deixar o corpo cair para trás”.

Cair?

Uma cena de Divergente me veio direto à cabeça.

O que poderia dar errado? Não sei tu, mas eu sou muito bom para responder esse tipo de pergunta e já estava considerando todas as implicações e significados possíveis para um salto de costas cego rumo ao desconhecido.

Mentira, eu não pensei em nada. Eu só conseguia sentir medo de me entregar à experiência. Não era uma sensação nova, muito pelo contrário, era uma sensação que vem me acompanhando desde muitos anos. Medo de tentar, medo de ser ridículo, medo de ser ridicularizado, medo de falhar, medo de cair e não voar.

Então eu caí.

Minhas costas atingiram um colchão de ar gigante e toda minha ansiedade foi expelida num grito engolido. Quando saí do colchão gigante, minhas pernas tremiam sem parar e meu coração nem considerava desacelerar. Assisti outras pessoas enfrentarem o mesmo percurso, hesitarem da mesma forma e tremerem iguaizinhas a mim. Depois me vendei mais uma vez e caí de novo, ainda com medo, mas um tantinho menos.

A sensação era de que alguma coisa há muito tempo cristalizada dentro de mim havia se soltado e isso foi incrível.

Voltamos para a primeira sala, agora iluminada, e tornamos a pintar. Desta vez, usei o lado certo do pincel. Fizemos uma sequência de pinturas a partir das nossas respostas escritas nos post its. Àquela altura do dia, eu já não tinha medo de pintar errado, de acharem graça de mim nem nada parecido.

Eu estava lá, presente, pintando ideias com nanquim, caindo sem atingir o chão.

Quando fui embora, carreguei comigo a sensação de que o mundo inteiro havia mudado. Mesmo que tudo continuasse igual como eu conhecia, também estava tudo incrivelmente diferente. E era (ainda é) um diferente que não cabe em palavras.

Obrigado, Epiphanea!


Originally published at Tales Gubes.

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