Faça primeiro o que for mais rápido e mais fácil

Antes da motivação, existe a autoeficácia. Você se considera capaz de agir para vencer seus desafios?

A primeira missão em Baldur’s Gate, na minha opinião um dos melhores jogos de RPG eletrônico já lançados (ele é de 1998, mas devo confessar que conheço poucos jogos), é matar os ratos que infestam uma casa.

É uma missão fácil e rápida na qual a derrota só se torna possível se você não fizer nada. Enfrentando ratinhos, os jogadores descobrem como o jogo funciona e começam a entender as habilidades e possibilidades de seus personagens.

Baldur’s Gate não é o único jogo que faz isso. Na verdade, arrisco dizer que quase todos os jogos minimamente complexos iniciam com desafios mais simples e aos poucos vão se tornando mais difíceis. Isso acontece porque os jogadores, logo que entram em contato com um jogo novo, ainda precisam se situar sobre como as coisas funcionam. Conforme desenvolvem habilidade com o jogo, aí sim passam a ser capazes de responder a desafios mais elaborados.

Na vida deveria ser a mesma coisa, mas os designers falharam na programação e lançam desafios simples e complexos aleatoriamente, o que dificulta o nosso processo de aprendizagem sobre como jogar. Aliás, diferente de jogos como Baldur’s Gate, sequer sabemos quais desafios devemos enfrentar, se somos capazes de vencê-los ou o que ganharemos com eles.

Para viver melhor, portanto, decidi aprender com jogos como Baldur’s Gate.

Desafios rápidos para ganhar experiência

O que quer que eu queira fazer, preciso ganhar experiência para ser capaz de alcançar bons resultados. Essa é uma regra básica de jogos de RPG e também da vida: se quero escrever bem, preciso treinar; se quero dançar, preciso treinar; se quero fazer macarons, preciso treinar.

Uma opção tentadora é achar o maior desafio possível e enfrentá-lo logo de cara. A ideia é tentadora, porque um sucesso significaria já uma grande conquista. Contudo, a probabilidade de falha (e de resultado ruim) é alta.

Nos últimos anos, venho trabalhando minha habilidade de iniciar conversas com pessoas desconhecidas. Há dois anos, fui a uma exposição em que não conhecia ninguém. Eu era a única pessoa sozinha lá — todas as demais pessoas estavam organizadas em duplas, grupos e rodas de conversa. Entrar em qualquer desses grupos parecia um desafio incomensurável, então optei por um desafio menor: conversar com pelo menos uma pessoa antes de ir pra casa. Para o Tales daquela época, ainda era desafiador o suficiente para me deixar ansioso, mas pequeno o bastante para importar.

Qualquer que seja o objetivo que estou buscando, hoje eu tento quebrá-lo em porções menores para localizar as vitórias mais rápidas que posso alcançar. Isso tem a ver com confirmar minha capacidade, meu senso de autoeficácia.

Sucesso atrai sucesso

Tenho escrito bastante sobre motivação e desistência e pensado sobre motivação extrínseca (fugir de punição ou buscar recompensa) e motivação intrínseca (autonomia, maestria, propósito e relacionamento). Entretanto, recentemente descobri, durante a minha leitura de Superbetter, de Jane McGonigal, o conceito de autoeficácia.

Autoeficácia é um julgamento pessoal de quão bem uma pessoa se entende capaz de realizar as ações necessárias para lidar com uma dada situação. Dito de forma simples, autoeficácia tem a ver com acreditar-se capaz. Observe que a autoeficácia não é um conceito geral e sim referente a cada habilidade específica.

De modo geral, pessoas evitam tarefas nas quais possuem baixa autoeficácia e enfrentam facilmente aquelas em que possuem alta autoeficácia. Em outras palavras, tendem a fazer mais daquilo que já conseguiram fazer antes.

Há quatro fatores que influenciam a autoeficácia:

  • Fisiologia. Se antes de fazer algo, sentimos nervosismo e ansiedade, podemos entender que essa reação do corpo significa que não nos julgamos bons o bastante e, portanto, isso diminui nosso senso de autoeficácia (uma profecia autorrealizada). McGonigal indica que a ansiedade e a excitação ocorrem de modos fisiologicamente similares e que a única diferença é a interpretação que fazemos dos mesmos sinais do corpo, por isso aposta em técnicas de releitura dessas sensações para nos convencer que estamos empolgados em vez de nervosos. Conto mais sobre isso quando testar.
  • Persuasão social. Estar em ambientes e com pessoas que acolham e incentivem é um bom jeito de desenvolver o senso de autoeficácia em uma determinada habilidade. Assim como a fisiologia, não é o modo mais poderoso de influenciar a autoeficácia, mas toda ajuda é bem-vinda!
  • Experiência vicária. Se outra pessoa que pensamos ser razoavelmente similar a nós tem uma experiência de sucesso, tendemos a acreditar que nós também teríamos e isso aumenta nosso senso de autoeficácia. Foi assim que voltei a escrever: lendo um livro publicado por um rapaz parecido comigo em termos de idade e formação. O sucesso dele me levou a acreditar que eu também poderia alcançar esse mesmo tipo de sucesso. Representatividade importa.
  • Experiência de sucesso. O melhor jeito de desenvolver autoeficácia é alcançando sucesso no uso da habilidade em questão. Da mesma forma, falhas significativas são um jeito garantido de abalar nosso senso de autoeficácia. Para evitar falhas precoces, o melhor jeito é ganhar experiência de sucesso com desafios pequenos e rápidos, mas ainda assim significativos, ou seja, que nos levem para mais perto do que desejamos alcançar.

Por isso, faça primeiro o que for mais fácil e mais rápido. Conforme seu senso de autoeficácia crescer, ficará mais simples enfrentar desafios cada vez maiores, mais complexos e mais exigentes.

O jogo não é justo

Tem gente com baixa habilidade e alta autoeficácia. Essas pessoas estão topando e vencendo os desafios, mesmo que suas entregas sejam medíocres ou ruins.

Tem gente com alta habilidade e baixa autoeficácia. Essas pessoas com frequência sofrem da síndrome do impostor e ficam choramingando pelos cantos sobre as oportunidades perdidas, o jogo injusto e a dor que é ver pessoas menos competentes alcançando mais resultados.

A discussão sobre quem vai e faz não deveria ser sobre qualidade. Antes de qualquer coisa, deveria ser sobre saber-se capaz — algo subjetivo, mas que pode ser influenciado por experiências bem desenhadas e mudanças de mentalidade.

Vamos adiante, porque o jogo continua!

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