Liberdade pode ser um problema

Há oito anos, trabalho como autônomo e preciso definir por conta própria meus horários, prazos e metas. Como escritor, a página em branco no início de um texto é a experiência máxima de liberdade e, para muita gente, de frustração e bloqueio.

Se posso fazer qualquer coisa a qualquer momento, seja na rotina, seja no trabalho, também posso não fazer coisa alguma. E muitas vezes é o que acontece.

Vejo isso com escritores o tempo inteiro. É como se a possibilidade de escrever a partir de qualquer ideia ou qualquer estilo se amontoasse de forma paralisante.

Vejo isso o tempo inteiro também com pessoas que trabalham de forma autônoma, especialmente aquelas que acabaram de sair de rotinas convencionais com hora marcada e chefe cobrando resultados.

Então liberdade é algo ruim? Não, apenas pouco eficaz para alcançarmos resultados. Se o que quero é alcançar resultados, restringir a liberdade aqui e ali me parece ser a forma mais poderosa de fazê-lo.

De novo, vejo isso o tempo inteiro com escritores: não consegue escrever? Escreva sobre um elefante azul numa tarde ensolarada. Pronto, nascem textos infinitos.

De novo, vejo isso o tempo inteiro com autônomos: precisa produzir melhor? Separe um horário para cumprir algumas rotinas, escrita, exercício, alimentação, estudos… E as coisas começam a se encaixar.

Para mim, essa é a maior ironia da liberdade: o melhor modo de aproveitá-la é restringi-la.


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