O que você escolhe manter vivo?

Toda escolha que faço ajuda a sustentar algumas ideias e ações e a abafar outras.

Todos os treinos de aikido dos quais participei começaram da mesma forma: com uma reverência à imagem do fundador Morihei Ueshiba. É uma tradição da arte cumprimentar a fotografia, também onipresente nos dojos por onde circulei.

Eu lia esse gesto respeitoso quase como uma devoção religiosa, um culto àquele que, por inventar uma arte marcial, estaria mais próximo dos deuses do que eu estou. Há uma certa aura mística que permeia a prática do aikido e as histórias que se contam sobre O Fundador (assim, com letras maiúsculas) são um convite ao assombro.

Com meu atual sensei (palavra japonesa de respeito que indica quem veio primeiro), aprendi uma forma alternativa de pensar esta reverência à imagem de Ueshiba. Em vez de pedir que baixemos a cabeça para uma fotografia na parede, sensei José Bueno convida à memória de todos os nossos mestres, aquelas pessoas que de alguma maneira foram importantes para que nos tornemos quem somos. Não apenas o fundador do aikido, mas inúmeras outras figuras surgem em minha memória quando baixo a cabeça em reverência.

Nada do que vivo começou em mim. Meus genes sobreviveram a gerações, a língua portuguesa foi compartilhada por tantos, meus conhecimentos e leituras foram produzidos por outros. Eu não começo no zero.

Pensar sobre isso me deixa mais leve para fazer reverência à imagem do fundador do aikido. Ao baixar a cabeça, honro a história que tornou possível o meu treinamento. É um ato de gratidão e apreço pela corrente de vidas e culturas humanas necessárias para sustentar a existência disso que chamamos aikido.

Quando treino, estou honrando esta memória. Quando escrevo, também estou honrando um certo passsado — com suas próprias tradições. Toda escolha que faço, no aikido, na escrita e na vida, ajuda a sustentar algumas ideias e ações e a abafar outras. Se pratico com violência, é a violência que estou mantendo viva. Se pratico com cuidado, com compaixão, com carinho, minha prática é cuidadosa, compassiva, carinhosa.

Todos nós honramos o passado, de uma maneira ou de outra, ao mantermos vivas algumas práticas e abafarmos outras. Meu modo de agir é uma resposta ao passado. Se quero manter, faço igual. Se quero mudar, não.

A reverência à imagem de Morihei Ueshiba é uma metáfora para esse processo. Ao baixar a cabeça, lembro que não vim do nada e que minhas ações darão vida a ideias e práticas. Se vejo a reverência como submissão à hierarquia, é a isso que estou dando vida. Se a entendo como honra ao que me forma, então entrego energia para outra coisa. No futuro, serei parte da tradição de outras pessoas.

Cada atitude é uma escolha na direção do que desejo manter vivo. Muito mais do que pensar entre certo ou errado, parece-me necessário refletir: quero mais disso para o mundo?