Por que as pessoas desistem?

E como podemos criar ambientes para que continuem tentando.

Meu namorado escreveu uma mensagem em japonês no quadro branco.

わたしのははわあなたに おくりものおくれました。

Como estou estudando japonês, o desafio estava posto. Comecei a traduzir, montei uma palavra, pesquisei no Google Tradutor e perguntei se era aquilo mesmo: sim. Legal! Montei outra palavra, essa mais difícil por causa dos caracteres que ainda não havia aprendido, pesquisei, perguntei… e não. Ali já me subiu uma angústia, uma vontade de parar tudo. Pesquisei mais um pouco e fiz outra pergunta, mas parte de mim já estava irritado. Quando empaquei na terceira e última palavra, fiquei frustrado e desisti.

(O significado desta frase está em algum lugar deste texto.)

Desde que comecei a trabalhar na elaboração metodológica e narrativa de um jogo para mobilização social (se quiser saber mais, fala comigo em particular), uma das questões que mais me atento é: como cuidar das pessoas que desistem? Essa é uma preocupação porque eu sou uma dessas pessoas que, frente a adversidades, paralisam, travam, sentem medo e desistem mais cedo do que gostariam.

Isso, aliás, é um fator importante pra mim: desistir mais cedo do que gostaria. É exatamente o que eu faço: desisto e fico me remoendo sobre por que não insisti mais um pouco.

Encontrei no blog do Larusso (meu mentor dos tempos de Estaleiro Liberdade) uma tradução do infográfico criado por Anna Vital sobre por que as pessoas desistem:

1. Esperam resultados rápidos.
2. Param de acreditar nelas mesmas.
3. Ficam presas ao passado.
4. Debruçam sobre os erros.
5. Temem o futuro.
6. Resistem à mudança.
7. Desistem do seu poder.
8. Acreditam nas suas fraquezas.
9. Sentem que o mundo as deve alguma coisa.
10. Temem a falha mais do que desejam o sucesso.
11. Nunca visualizam o que é possível.
12. Sentem que têm algo a perder.
13. Trabalham excessivamente.
14. Assumem que seus problemas são únicos.
15. Vêem os erros como um sinal pra voltar atrás.
16. Sentem pena de si mesmas.

No site Wealthy Gorilla, encontrei uma lista parecida (por que as pessoas desistem de seus sonhos), porém reduzida. Esses quatro motivos me chamaram a atenção:

  • elas deixam de acreditar que é possível;
  • elas se entediam com a repetitividade;
  • elas não percebem resultados rápidos o bastante;
  • elas acham difícil demais.

Quando cansei do desafio em japonês, eu já estava achando que era difícil demais, que estava demorando mais do que eu gostaria e que havia perdido a graça. Diferente de quando comecei, eu já não achava que era possível.

O que poderia ter sido feito diferente?

Como não desistir

Nos meus estudos de gamification, venho entendendo que o pensamento de jogos tem muito a ensinar e auxiliar nas atividades mais comuns. Afinal, a principal característica dos jogos é a capacidade de manter os jogadores engajados e se divertindo por bastante tempo.

Já expliquei anteriormente o que é um jogo e como aplicar algumas de suas lógicas na própria vida, então vou retomar uma definição de jogo que aqui será útil para pensar sobre como não desistir:

“um jogo é uma atividade de resolução de problemas realizada como uma brincadeira” (a game is a problem-solving activity, approached with a playful attitude)

Traduzir do japonês era uma resolução de problema. O que me faltou foi realizá-la como uma brincadeira, com uma atitude divertida. Acredito que acionar esse pensamento de jogo seja uma habilidade treinável — entretanto, essa não é uma habilidade comum, que todo mundo já esteja habituado a usar. Por isso, precisamos criar as condições para que as pessoas que ainda não a desenvolveram possam brincar também.

O que é divertido?

Em minhas pesquisas, encontrei oito elementos que nos proporcionam diversão:

  • Sensação (elementos sensoriais);
  • Fantasia (viver algo mágico, suspensão da descrença);
  • Narrativa (entrar em uma história, drama)
  • Desafio (a incerteza da vitória, adversidade, a habilidade é mais importante que o acaso);
  • Parceria (trabalhar junto, estar com outras pessoas);
  • Descoberta (revelar segredos e mistérios);
  • Expressão (criar, deixar sua marca no mundo);
  • Submissão (escapar da realidade).

Pessoas diferentes encontram mais diversão em alguns elementos do que outros. Uma boa narrativa me diverte mais do que um bom desafio, por exemplo.

O que mantém jogadores engajados

Ainda pensando sobre jogos, há diferentes tipos de jogadores. Se seguirmos a Taxonomia de Bartle, encontraremos quatro tipos.

Esses tipos são definidos a partir do comportamento típico dos jogadores quanto ao modo de agir (se é mais interativo ou mais ativo) e para onde ele se volta (outros jogadores ou o jogo em si).

Quando pensados como ações que diferentes jogadores assumem em jogos sociais, temos os seguintes verbos: explorar, competir, criar e colaborar.

Observe que esses verbos são muito próximos aos elementos que geram diversão. Pensando sobre isso e sobre o que gera motivação, a galera do Gamasutra chegou a um diagrama sobre sete tipos de jogadores e sua relação com o tempo de jogo.

Esses sete tipos nasceram do modo como as pessoas se envolvem com os jogos: experimentação rápida de prazeres simples, motivadores extrínsecos e motivadores intrínsecos.

De modo geral, o que esse gráfico mostra é uma sequência para engajar diferentes tipos de jogadores (partindo do princípio que todos têm autonomia para decidirem jogar ou não):

  • em primeiro lugar, a garantia de prazeres rápidos e emoções positivas, o que cuida daqueles que estão mais em busca de escapar rapidamente da realidade;
  • em segundo lugar, a oferta de motivadores extrínsecos de propósito (mostrar-se capaz), maestria (conquistar coisas) e relacionamento (fazer network);
  • por fim, a presença de motivadores intrínsecos de propósito (encontrar sentido), maestria (vencer desafios) e relacionamento (criar laços com as pessoas).

Para garantir que todos esses jogadores se engajem e se divirtam com o jogo proposto, precisamos oferecer uma gama variada de elementos que atendam a todos esses motivadores.

Como trazer tudo isso para a vida real?

A definição de jogo com a qual estou trabalhando (“um jogo é uma atividade de resolução de problemas realizada como uma brincadeira”) é, antes de tudo, uma forma de pensar e de se posicionar frente ao mundo. É uma escolha.

Vejo dois caminhos para aplicar esse conhecimento à vida real. O primeiro é manipular ambientes para que eles se tornem mais divertidos para tipos variados de pessoas. Podemos fazer isso inclusive para nós mesmos. O segundo caminho é entrar no espírito do improviso, um tipo de jogo cujas regras são úteis para a vida cotidiana: aceitar que o outro é diferente, deixar o “não” de fora, entender que errar faz parte e construir em cima dos erros.

“Ah, mas é difícil”, um lado do meu cérebro gritou. Tudo bem, é difícil mesmo, mas e daí? A questão não é ser fácil ou difícil, mas sim entender que fica mais fácil jogar com a vida tendo essas ideias em mente.

Aliás, a frase em japonês significa “minha mãe te deu um presente” :)

E então, vamos nos divertir?

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