Você não conhece a dor do outro

Mas pode pelo menos tentar.

Tem uma cena recente que não sai da minha cabeça. Autocentrado do jeito que sou, ainda ocupo muitos neurônios pensando sobre o que vão pensar de mim em cada situação. Era nessa pergunta que eu me agarrava enquanto voltava de um seminário de aikido no metrô de São Paulo.

Sentado em um banco convencional do metrô, vi uma senhora idosa que tremelicava entrar no vagão. O banco preferencial à minha frente estava ocupado por um homem velho, do outro lado do corredor havia uma senhorinha. Ninguém nos bancos convencionais parecia ter notado ou se importado com a mulher idosa.

Espera, respira. Eu não sei com o que as pessoas se importam ou deixam de se importar. Só porque elas não reagiram externamente isso não quer dizer que eu tenha qualquer pista real sobre o que está se passando dentro delas.

Consultei o que meu corpo pensava sobre passar as próximas treze estações em pé e a única resposta foi uma dor generalizada. Depois de dois dias de treinos intensos de arte marcial, todos os meus músculos estavam pedindo descanso.

Imagina isso por oito a dez horas em dois dias: girar, torcer, cair, levantar (fonte).

Apesar disso, imagino que ninguém naquele vagão tivesse a menor condição de saber ou imaginar o que se passava com o meu corpo. Tudo o que veriam é um cara novo e sentado enquanto uma senhora idosa ficava em pé.

Justamente por isso, me dei conta de algo realmente muito básico sobre a humanidade: nós nunca temos acesso direto à dor do outro. Podemos imaginar, intuir, supor, mas um acesso direto é impossível e frequentemente invisível.

Depois daquele dia, entendi que eu não sei pelo que as pessoas estão passando nem tenho como saber se elas não se comunicarem comigo. De forma análoga, eu preciso comunicar o que estou vivendo, sentindo e querendo.

Cada pessoa que vejo na rua, no metrô, no supermercado — cada uma delas, sem exceção — vive tantas experiências diferentes das minhas! Cada pessoa é um universo aparentemente infinito de possibilidades, alegrias e dores, um mistério indecifrável porque se atualiza a cada instante.

A única coisa que posso fazer, nessa aventura de conhecer outras vidas, é me permitir o tempo para perguntar e escutar atentamente, profundamente, sem julgamentos. Dá trabalho, às vezes cansa, nunca é o suficiente, mas conecta.

É por meio dessa conexão que podemos dividir um pouco dessa imensidão que é estar vivo.

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