300 à Direita, 300 à Esquerda

THIS — IS — POLITICS

Recentemente, o mundo (para ser mais exato, a Internet) foi tomada por mais uma discussão política em decorrência de um incidente, a manifestação de cunho ideológico extremista (incluindo auto definidos nazistas) em Charlotesville. Vários dilemas tidos como superados (por 1 mês, mas mesmo assim superados) voltaram à tona, como a velha discussão se é aceitável socar um nazista ou se devemos ou não manter a liberdade de expressão, mesmo para discursos extremistas e segregacionistas. Estes, a despeito de serem constituídos por argumentos já conhecidos por muitos e, de certa forma, démodé, podem ser usados como pano de fundo para outros assuntos, mesmo que totalmente contrários às situações presentes (a título de exemplo, podemos citar o precedente judicial americano do Caso Skokie, onde a Suprema Corte americana considerou que nazistas poderiam sim marchar em um vilarejo de maioria judia em respeito da liberdade de expressão; a despeito de moralmente questionável por muitos tal decisão, ela visa os aspectos prospectivos de tal decisão, sendo tal precedente utilizado para defender todo e qualquer protesto, seja ele segregacionista ou pró-diversidade).

Contudo, outra discussão bem velha retornou: “O Nazismo foi de Direita ou de Esquerda?”.

Que delícia, 275.000 resultadozzzzzzzzzzzz

Não entrarei no mérito se o nazismo é de algum lado ou de outro, se é os dois ou nada, se é o Raul Seixas cantando Gitá ou uma aparência da ficção contida na realidade. As pessoas que sustentam suas opiniões sobre tal tema são bem convictas que o nazismo foi um movimento do espectro X e farão textos enormes defendendo tal posição — o que me dá uma preguiça.

Pessoalmente, sempre vi tal questão como inútil. Além de não servir para outra coisa que não irritar o amiguinho que não pensa igual e estufar o próprio ego, tal dúvida mostra-se cada vez mais infrutífera de resultados, vez que nem se presta a apresentar alguma nova visão do nazismo, apenas atribuir ao outro lado a figura de Hitler, ora como amigo de Donald Trump, ora como amigo de Kim Jong-un.

A real motivação do debate: saber que lado matou os judeus

Mas como posso ir além nessa minha posição de que se trata de uma discussão inútil?

Ordinariamente, não me prestaria ao papel de escrever algo a respeito. Contudo, um artigo do site A.V. Club me chamou a atenção, um que associa o filme 300 de Esparta a uma forma de presságio ao crescente fascismo contemporâneo.


O texto do site A.V. Club, escrito por Tom Breihan, é, basicamente, uma exposição pela qual o autor afirma como 300 de Esparta é um filme racistas, machista e fascista, glorificando a sociedade espartana, “construída em cima da escravidão e pedofilia institucional” (tradução livre):

300 conta uma história real, ilustrando a Batalha de Thermopylae, onde um bando de espartanos e outros lutadores gregos defenderam sem sucesso uma travessia costal de um número enorme de invasores persas, resistindo por uma semana até morrer em combate. Para Miller (autor do quadrinho que baseou o filme) — e, por extensão, para Snyder (Zack Snyder, diretor do filme) — os Espartanos eram heróis inequívocos, hábeis e mortais guerreiros que resistiram às forças da escuridão com extrema força de vontade. Nas mãos de Snyder, o rei espartano Leônidas e seus companheiros fazem constantes discursos sobre a liberdade e auto-determinação. (…) o modo de vida espartano é representado como uma espécie de mega macho jeito de ser, um espírito guerreiro de mente e estado. Uma nação de Rambos.

Ao longo do texto, o autor irá descrever algumas cenas do filme com apatia, como a primeira que vemos no filme, o abismo cheio de crânios de crianças deficientes ou a luta de Leônidas com um lobo em CGI. Ressalta a violência e o fato de gritarem a maior parte do tempo, o fato de todos os soldados serem um bando de homens fortes e viris que parecem ter saído de um filme pornô gay (com o direito de ausência de pelos) e do discurso de Lena Headey faz para o senado espartano, “Liberdade não vem de graça”.

Um dos lados que merece destaque é sua descrição sobre os vilões do filmes, os persas

No lado Persa, por outro lado, as coisas parecem mais divertidas; o buraco da orgia, que aparenta ser uma espécie de inferno gender-fluid, parece bem mais agradável que qualquer lugar de Esparta. Nós vemos o imperador Xerxes como um sedutor de mais de 2,5m com uma voz sedutora e um rosto cheio de piercings balançando. (…)
Rodrigo Santoro como Xerxes, inspiração para muitos participantes de RuPaul’s Drag Race

Passando mais pra frente mas antes do autor mencionar Tropa de Elite, ele finaliza sua análise sobre 300 como uma espécie de “grande e místico espetáculos inventado do cliché de defender-a-nação-branca”, já que o filme “glorifica os heroicos heróis brancos lutando para combater a incontável horda de peles-escuras”, bem como “esse tipo de baboseira ajudou de fato estabelecer um mundo onde Donald Trump poder se eleger presidente”.

Meu objetivo não é contra-argumentar tal texto. Posso ter(muitas) ressalvas àquilo que foi dito pelo autor, mas não é isso que pretendo.

Na verdade, o que quero mostrar é que uma outra análise sobre o mesmo filme foi feita há uns anos atrás: uma análise que considerou 300 como um filme que representa a real esquerda de Hollywood.


Um dos principais filósofos vivos da atualidade e muito controverso, o esloveno Slavoj Zizek é um ávido cinéfilo, sendo que constantemente analisa filmes sob a perspectiva hegel-lacaniana para analisar a ideologia nele embutida (conceito chave para toda sua obra).

Olha que coisinha fofa, nem parece que conta ideologias para dormir.

No livro “Em Defesa das Causas Perdidas” (publicado aqui pela Editora Boitempo em 2011, sendo que há o texto em inglês aqui), trabalha uma breve parte de um dos capítulos para falar sobre o que ele considera a verdadeira esquerda de Hollywood. Começa observando a relação de O Código da Vinci e os dogmas cristãos, mas não o considera um filme de esquerda de Hollywood, pelo menos não por completo. Indo na contramão da maioria das análises da época, que comparavam 300 com um ode a invasão americana no Iraque, Zizek afirma que 300 é um verdadeiro filme de esquerda.

De início, remetendo à própria história que serve de plano de fundo ao filme e ao gibi, Zizek ressalta a diferença bélica dos persas em relação aos gregos, sendo aqueles bem mais desenvolvidos que estes em termos de armas, contando com flechas de fogo e elefantes, chegando a comparar a chuva de flechas que os gregos recebem no final do filme ao bombardeamento americano contra os iraquianos.

Mais adiante, ressalta o império de Xerxes como “império global persa”, principalmente quando este tenta convencer Leônidas a se ajoelhar e se submeter a lógica persa.

Ainda no tocante aos persas, uma parte merece destaque:

(…)E a corte de Xerxes não é representada como uma espécie de paraíso multicultural de diversos estilos de vida? Não participam todos das orgias, raças diferentes, lésbicas e gays, aleijados etc.? Os espartanos, com sua disciplina e seu espírito de sacrifício, não estariam muito mais próximos de algo como o Talibã, que defende o Afeganistão contra a ocupação dos Estados Unidos (ou de uma tropa de elite da Guarda Revolucionária iraniana, disposta a se sacrificar em caso de uma invasão norte-americana)?(…)

Progredindo com o texto, Zizek está ciente que mesmo Hitler (olha ele aqui) comparou “a derrota alemã em Stalingrado à morte heroica de Leônidas em Termópilas” e que isso faria com que muitos comparassem tal fato históricos e suas representações como símbolos fascistas. Contudo, o autor menciona que os aspectos de disciplina e auto-sacrifício dos espartanos, demonstrado o tempo todo no filme, devem ser reapropriados pela esquerda, vez que “não há nada inerentemente “fascista” nesses valores”.

Finalizando sua análise sobre a disciplina militar de Espartana, o autor resume bem sua posição:

Mas o que dizer do absurdo aparente da ideia de dignidade, liberdade e razão sustenta pela disciplina militar extrema, que inclui a prática de rejeitas crianças fracas? Esse “absurdo” é simplesmente o preço da liberdade — a liberdade não é gratuita, como explica o filme. A liberdade não é algo dado, é reconquistada por meio de uma luta intensa, em que é preciso arriscar tudo. (…)Não admira que todos os radicais igualitários do século XVIII, de Rousseau aos jacobinos, imaginassem a França republicana como a nova Esparta: há um âmago emancipatórios no espírito espartano de disciplina militar que sobrevive mesmo quando desconsiderada toda a parafernália histórica do domínio de classe, da exploração e do terrorismo impiedoso contra os escravos etc. Não admira também que nos anos difíceis do “comunismo de guerra” o próprio Trotski chamasse a União Soviética de “Esparta proletária” (ZIZEK, 2011, p.89)

Meu interesse não é avaliar qual das abordagens está correta ou não, se é avaliar a mensagem que Frank Miller e Zack Snyder passaram com suas releituras da batalha de Termópilas. Isso demandaria mais tempo e mais texto, o que não seria agradável aos poucos que irão ler isso.

O que achei relevante foi mostrar como um mesmo filme conseguiu ser fruto de duas abordagens interpretativas completamente opostas no espectro político: uma considera 300 um filme responsável por criar eleitores que votariam em Donald Trump e seriam capazes de apoiar uma supremacia branca; outra considera que 300 representa a resistência de uma minoria (populacional e ideológica) contra um imperialismo hedonístico, comparando a movimentos radicais pela história.

Sei que os símbolos linguísticos (incluindo os textos, os filmes, enfim, tudo aquilo que transmita uma mensagem que não a própria forma) são passíveis das mais diversas interpretações. A hermenêutica existe, inclusive, com o fim de guiar os intérpretes rumo a uma explicação coerentes dos textos e seus argumentos, lançando mão das mais variadas técnicas possíveis e, como consequência, dando em resultados diversos, alguns mais distantes que os outros.

Desta forma, podemos ver que um filme conseguiu gerar interpretações que penderam para os dois lados do espectro político, esquerda e direita. Confrontado-os, vemos que, com exceção de alguns pontos em comum, os argumentos de ambos acabam sendo questionados e desencadeiam num ciclo vicioso e dialético para gerar aquilo que será dado como certo — até outra pessoa fazer uma nova análise, dizendo que, por exemplo, 300 é um filme anarco-capitalista.

Isso tudo para voltarmos a questão original, se é realmente frutífero questionar se o nazismo é de esquerda ou de direita. Alguns vão dizer que sim, contudo sempre será com o fim de não atrelar o seu espectro político ao nazismo: afinal, é quase um axioma que o nazismo é o sumo-mal da história da humanidade, razão pela qual ninguém o quer. Assumir a culpa do nazismo seria assumir que você é o gerador do sumo-mal.

Repare como a preocupação está no medo de associar nazismo à ao espectro político

Extraindo o campo ideológico, a questão se mostra cada vez mais estapafúrdia e maçante. Não se mostra útil a discussões futuras à defesa dos interesses de outros grupos sociais, nem soluciona problema atuais: apenas gera maior rivalidade entre os diferentes espectros políticos, alimenta agendas distintas e antagoniza as pessoas por interpretações diferentes. Talvez seja benéfico para quem escreve ladainhas do tipo, mas os benefícios de tais questionamentos cessam por aí.

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