Realmente Cordiais?

Uma das primeiras matérias que tive no curso de humanas da UFABC foi o Interpretações do Brasil, onde, basicamente, tive contato com os principais historiadores brasileiro do século XX. Dentre eles, como se era de esperar, Sérgio Buarque de Holanda com o já cliché Raízes do Brasil.

Embora antes não tenha lido diretamente esse livro ou tivesse ido atrás de alguma aula ou documentário do mesmo ou de seu autor, eu só sabia uma coisa: que era o livro responsável por dizer que o brasileiro é cordial, e, como a Wikipedia uma vez me disse, é a base do jeitinho brasileiro.

Como eu sempre fui uma pessoa que tem esse ranço absurdo com o jeito brasileiro de ser, fui logo seco atrás do bendito livro (quase nunca vou atrás de livro físico, principalmente de obra consolidada, mas desse eu fiz questão de ter em mãos), fiz questão de fazer seminário do Sérgio Buarque e logo me vi estudando o ser, todo feliz, pensando nos mil desdobramentos para falar da bendita cordialidade do brasileiro para meus coleguinhas catataus de sala de aula.

Acontece que nunca imaginei que fosse me sentir enganado com um clássico da história e dessa maneira.

Vamos por partes: a definição de cordialidade, por si só, não possui nenhum problema. Ela aparece logo no comentário do Antônio Cândido sobre o capítulo 05 do livro:

O capítulo sobre “ o homem cordial” aborda características que nos são próprias, como conseqüência dos traços apontados antes. Formado nos quadros da estrutura familiar, o brasileiro recebeu o peso das “relações de simpatia” , que dificultam a incorporação normal a outros agrupamentos. Por isso, não acha agradáveis as relações impessoais, características do Estado, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Onde pesa a família, sobretudo em seu molde tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo moderno. Em nosso país, o desenvolvimento da urbanização criou um “ desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem vivos ainda hoje” (p. 145). E a essa altura, Sérgio Buarque de Holanda emprega, penso que pela primeira vez no Brasil, os conceitos de “patrimonialismo” e “ burocracia” , devidos a Max Weber, a fim de elucidar o problema e dar um fundamento sociológico à caracterização do “ homem cordial” , expressão tomada a Ribeiro Couto.
O “ homem cordial” não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez. O “ homem cordial” é visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo, e não da sua marca pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários. (CÂNDIDO, 1967, in HOLANDA, 1995, p. 17)

Ou seja, basicamente ele está dizendo que nós, brasileiros, temos uma espécie de aversão por tratamento simples, direto, frio e cru, aquele que geralmente ocorre no balcão do fórum, na boca de lobo do Banco do Brasil ou na fila da Santa Casa: nós queremos aquele tapinha nas costas, aquele abraço do conhecido que passou no concurso e hoje é o escrevente que vai passar o seu processo na frente dos outros, o seu match do Tinder que vai te deixar furar a fila na balada.

Não que o restante do mundo não goste de agrados — eles amam tanto quanto nós gostamos — , acontece que nós fizemos disso algo institucionalizado, a nossa regra e não a exceção. Brasileiro não sabe o limite entre público e privado e nem gosta quando é estabelecido um, por isso vai fazer de tudo para tratar todos como se fosse da família, mesmo que no fundo odeie todos e a tudo.

Poderia fazer mil e uma digressões sobre assunto — e estou tentado para tanto — , mas não é minha intenção com este texto. Já tem muita gente babando as bolas do Sérgio Buarque com esse maldito homem cordial. Como disse antes, meu objetivo é mostrar o que eu achei estranho.

Pois bem, a definição em si de cordialidade, como falei, não foi algo que achei estranho. Meu problema, porém, foi com a sustentação do argumento do Sérgio Buarque, ou seja, como ele prova isso.

Afinal, para todo mundo falar dessa bendita cordialidade nós teríamos que ter alguma observação bem fudida da realidade, certo? Algum comentário de documento histórico, algum registro de favorecimento pessoal, alguma relato de estrangeiro falando como brasileiro era amável e tal, correto?

Bom, não necessariamente.

Os capítulos anteriores — Fronteiras da Europa, Trabalho & Aventura, Herança Rural e O Semeador e o Ladrilhador — são muito interessantes porque, de certa forma, vão traçar uns aspectos do perfil psicológico do colonizador português e do primeiros cidadãos de elite do brasil, como o fato de haver uma aversão ao trabalho prático, um culto às formas rebuscadas (embora elas não seja propriamente cultas), a indiferença do sentimento coletivo, a prioridade do imediatismo, entre outras coisas. Esperava que o Sérgio Buarque fosse fazer um apanhado para mostrar como tudo isso corrobora com essa tal cordialidade, como somos apegados a esse sorrisinho no rosto para nos sentirmos bem na hora que passam a mão na nossa carteira.

Mas tudo o que ele fala no capítulo O Homem Cordial é (spoilers):

  1. em locais menos desenvolvidos, há uma confusão entre família e Estado;
  2. os jovens do passado saíam da educação dos pais para a criação das regras do Estado quando iam para a faculdade;
  3. nosso corpo administrativo burocrata tende a favores os interesses individuais;
  4. nossa cordialidade não é a educação de outros povos, como os japoneses, mas sim uma aversão ao tratamento frio e comum, quase que ritualístico, em relação aos demais;
  5. a nossa cordialidade está no fato de termos uma relação próxima com as figuras e entidades religiosas, em usar sufixo “inho” para as coisas e pessoas próximas o tempo todo, não usar sobrenome para nos designar com os outros e por nós representarmos Jesus como uma criança alegre e brincalhona.

Ou seja, embora ele pudesse ter dito tanta coisa — e ele realmente disse, só que antes — , o cara preferiu falar como a gente gosta de chamar Teresa de Lisieux de Santa Teresinha (pois é). Não que o tratamento diferenciado não signifique nada — ele diz muito, na verdade — , acontece que esse foco deixou a desejar na análise crítica que o autor fez.

Não sei se foi o fato de eu ser uma pessoa muito empolgada, que bota fé nas coisas mais banais o tempo todo. Talvez seja que sim, afinal eu sou aquela pessoa que a despeito dos jogos na E3 cada vez mais sejam mais chatos e decepcionantes com o passar dos anos, eu fico urrando para cada puzzle apresentado. Mas isso não muda o fato que poderia ter mais no livro.

Ora, sei que o Sérgio Buarque foi alguém formado em Direito que se enveredou a jornalista e depois historiador, não tendo nenhuma direção acadêmica ou mesmo profissional com a psicologia para fazer grandes digressões sobre o perfil psicológico do brasileiro. Ele não é o Zizek para falar da ideologia do brasileiro, botar um trecho de Cidade de Deus, dar uma fungada and so on. Mas ajoelhou, tem que rezar: se quis se meter a falar do perfil psicológico, fale mais do que uns casinhos de velha carola.


Estou bem ciente que o título possui uma pergunta e, não, ela não é meramente enfeite. Claro que, da mesma forma que o nosso querido pai do músico crítica social dos olhos maravilhosos, eu não sou psicólogo ou alguma espécie de hegel-lacaniano que irei fazer um tratado sobre o brasileiro. Estou ganhando absolutamente zero reais para tanto. Só vou fazer uma breve análise das coisas.

De todo modo, seria o brasileiro cordial mesmo?

Num dos significados de cordial no dicionário temos a seguinte:

Diz-se de quem não esconde seus sentimentos; tb.: que age movido mais pelos sentimentos do que pela razão

Acho que qualquer pessoal com mais de 10 anos vivendo em sociedade aqui no Brasil consegue olhar pra essa definição e falar “olha, somos nós mesmo”. Sim, vamos dizer que é coisa nossa essa de sermos um povo afável, amigável, carinhoso, que abraça e beija a pessoa logo que conhece para se despedir, e outras baboseiras de costume.

Ora, tudo isso pode ser verdade, podemos ser um pouco mais receptivos e sociáveis que outros povos, termos mais afeição que alguns povos que preferem se reprimir por noções de vergonha para inibir certos atos (só lerem o clássico “O Crisântemo e a Espada”, de Ruth Benedict, que analisa tais padrões na cultura japonesa). Agora quem garante que isso é exclusivo nosso?

Afinal, pra começo de conversa, dar um beijo para cumprimentar é algo comum em vários outros países. De outro lado, o fato de dois homens saírem andando de mãos dadas aqui no Brasil não é algo tão bem visto (só lembrarmos o triste caso do ataque homofóbico com uma lâmpada contra dois jovens de mãos dadas na Avenida Paulista em 2010), enquanto isso é um fato extremamente corriqueiro e normal na cultura árabe (sendo que não é associada a homossexualidade).

De outro lado, o fato de termos uma distinção quase que inexistente entre público e privado, embora notável em tempos de Operação Lava-Jato, onde você tem político admitindo que recebe em sua cama pessoas para tratar de assuntos oficiais como algo normal, também não é algo exclusivo nosso. Claro que a nossa corrupção — lida aqui como a falta de transparência, impessoalidade e regularidade na relação Estado-indivíduo — é patente e chega beirar o ridículo, mas não somos os piores, por incrível que pareça. Segundo dados da Transparência Nacional, ainda temos que aprender muito com a Coréia do Norte, a Venezuela e uma série de países africanos e do Oriente Médio.

Logo, se não é na forma de tratamento ou na questão da relação Estado-indivíduo, onde está a nossa MALDITA cordialidade? Onde nós poderíamos mostrar pro Sérgio Buarque, caso ele ressuscitasse nos dias de hoje, que o brasileiro é cordial?

Eu tenho um palpite. Esse palpite envolve desmembrar a cordialidade em três outros conceitos, não necessariamente sinônimos de cordial.

Digo que o brasileiro é cordial por ser (i) emotivo (ii) carente e (iii) rude. Para tanto, não vou usar nenhuma fonte histórica ou qualquer tipo de anotação de pesquisa de campo. Até possuo histórias que ilustram bem o que eu quero dizer, mas vou deixar o data vivência para as redes sociais e pro textão fanfiqueiro de como fui oprimido pelo meus espelho quando vi minha feiura no meu reflexo. Irei usar a própria Internet como fonte, embora de maneira não tão ortodoxa.


EMOTIVO

A emotividade do brasileiro não se refere a alguma tendência de pensar demais ou ser mais suscetível a doenças relacionadas a sua psiqué, embora tal fato possa ser real.

Essa emotividade está mais relacionada a outro aspecto, seria uma espécie de antônimo distorcido do tratamento frio, técnico e equidistante entre pessoas, regidos por uma série de normas e padrões pré-determinados, similar ao que o próprio Sérgio Buarque colocou.

Mas há um plus a mais nessa história: não apenas queremos o tratamento próximo e diferenciado, queremos (e gostamos) desse tratamento como forma de reverencia e superioridade.

Em outras palavras, o clássico você sabe com quem está falando.

Ah sim, a boa e velha carteirada, tão comum nos altos cargos públicos que já tivemos juiz ingressando na justiça para que fosse chamado de doutor por seu porteiro.

Essa obsessão pelo tratamento doutor é comum entre a vasta maioria dos habitantes do mundo jurídico, sendo que é extremamente comum ver tal discussão, mundo afora.

Sem analisar o mérito da discussão, vemos que só fato de existir toda uma questão de ego e exigência para termos esse tratamento diferenciados — leia-se, uma palavra de seis letras — já diz muito sobre o caráter.

Mas quem dera que a carteirada fosse algo exclusivo do mundo jurídico ou por ocupantes dos alto postos da sociedade. A busca por tratamento diferenciado é presente inclusive no público jovem para a obtenção de benesses em festas noturnas por meios de posições em veículos de media — em outras palavras, a carteirada por ser blogueira da Capricho. Como gostamos de dizer, “quem é você na fila do pão?”.

Só que não só utilizamos o tratamento diferenciado na hora de exigirmos reverência ou exigir mimos. Muitas vezes está simplesmente na forma de nos referirmos outras pessoas e profissões em determinadas situações, sendo a mais patente a velha questão de chamar garçom de amigo e outros nomes.

Se você não enraba seu garçom, você não é brasileiro.

O fato é simples: quase nunca utilizamos “garçom” para chamar um garçom. Há uma infinidade de termos, alguns utilizados para designarmos parentes, outros para nos referirmos a colegas e alguns até para nossos entes mais queridos. Esse jeito até que, de certo modo, meigo de nos tratarmos com aquele que nos trás a comida é estranhado e muito pelos turistas.

Não que haja no Brasil algum culto pela profissão do garçom. Longe disso, a figura do garçom é, de certo modo, tratada com certo desdém, principalmente quando discute-se a questão se deve-se ou não deixar uma gorjeta além dos 10% cobrados pelo serviço. Apenas há, culturalmente, uma adoção por termos mais amigáveis para designar sua palavra a uma pessoa que o nome de sua profissão.

Assim, vemos que há, no aspecto dos tratamentos, uma forma de sempre burlar a equidistância entre as pessoas no Brasil: seja para ressaltar a superioridade, seja para requisitar benefícios, seja para eliminar o aspecto da impessoalidade no serviço, há um sentimento comum no brasileiro de eliminar as relações pré-determinadas e calcadas num dever-ser impessoal.


CARENTE

O brasileiro é um povo carente. Não por falta de afeição ou de tratamento diferenciado, porque estes dois ele o tem entre brasileiros. A carência, no caso aqui tratado, está mais relacionado há necessidade do brasileiro em reconhecer sua superioridade e distinção em relação aos demais povos.

Afinal, os Estados Unidos têm a Disney, a França tem Paris e o Brasil tem o que? Isso mesmo, o brasileiro. Faça uma procura no google com O Melhor do Brasil é o brasileiro e fique impressionado com a quantidade de lixo virtual atestando uma série de gambiarras, trocadilhos linguísticos, receitas deturpadas com coxinha, açaí e catupiry, paródias musicais, web personalidades e outros recheios de entulho virtual.

Aqui nós vemos uma clara piada já utilizada em outras línguas mas traduzida para o português e postada numa página chamada “O Melhor do Brasil é o Brasileiro”

É de se notar que grande parte dos feitos atribuídos aos brasileiros não são necessariamente originais ou mesmo dotados de engenhosidade exclusiva de nossa tradição cultural. Claro há certas preciosidades que você duvida muito que vá encontrar em outros países, como utilizar um cano de PVC para fazer uma kafta perfeita em segundos. Mas outras, principalmente relacionada a erros de ortografia, placas engraçadinhas e piadas sintático-semânticas são extremamente comuns nos outros países.

Acontece que gostamos de repetir o mantra “o melhor do Brasil é o brasileiro” ou “brasileiro é o melhor povo”. Afinal, há um certo orgulho com esses nossos “feitos” (minha vontade é de dizer lixo, mas vou evitar o tom hostil) e nós queremos compartilhar o tempo todo os nossos queridos amigos gringos, mesmo que eles não compreendam perfeitamente aquilo que temos.

E aqui temos exemplos de sobra:

Como explicar para sua mãe que 30 anos depois e a Gretchen continua em alta, rebolando a raba por aí?
  • a internet inteira foi bombardeada por gifs e imagens legendada da ex-cantora da década de 80 Gretchen Miranda, a ponto de vários artistas perguntarem aos brasileiros que raios é essa mulher e usarem os memes dela. Troye Silvan, Nicki Minaj e Azealia Banks tiveram acesso a essas imagens e, assim, fizeram com que várias pessoas mundo afora tivessem contato com a Rainha do Bumbum. Não que essas imagens sejam muito diferentes dos gifs e memes que nós conhecemos, acontece que como são da Gretchen, fazem questão de usarem com os artistas até eles reproduzirem os mesmos ou, no caso de Katy Perry em uma estratégia de marketing genial, chamá-la para um clipe.
O que as pessoas não contam é que a própria Gretchen não é tão chegada assim nessa super exposição de sua imagem.
Todos sabemos que este clipe é estratégia de marketing paga pela Nintendo para promover seu mais novo console.
  • Anitta vem se mostrando a mais rentável e versátil estrela pop (a despeito da mesma jurar que ainda canta funk) do Brasil da atualidade. Sua carreira teve um início quente com Show das Poderosas em 2013 mas foi em 2015, com o álbum e single Bang que foi consolidada, momento em que iniciou seus planos para uma carreira internacional, com músicas adaptadas a outras línguas e apelo mais global em detrimento ao regional. Em 2017, seus esforços lhe renderam uma participação a cantora australiana Iggy Azalea na sua canção Switch. Iggy Azalea tem o costume de chamar outras cantoras para cantarem o refrão e às vezes o bridge de suas músicas, como ocorreu com Charli Xcx em Fancy, Rita Ora em Black Widow e MØ em Beg For It, o que seria crível esperar que os brasileiros já esperassem que Anitta cantasse apenas um trecho da música. Ocorre que os brasileiros não aceitaram o fato de Anitta ser uma mera coadjuvante da música , bem como não conseguiram compreender que outra pessoa iria tomar seu lugar no remix e, por fim, como a imagem mostra, os fãs de Anitta fizeram questão de alterar dados ou criar novos para que Anitta aparente ser mais famosa no exterior do que realmente é. Afinal, parece ser incompreensível ao brasileiro que Anitta seja mais uma cantora de sucesso contado no cenário internacional.
Isso sem falar nas aberrações que aparecem por aí, como fãs clubes na Russia usando tradutor do google para as postagens.

E eu poderia continuar enumerando outros exemplos onde o crème de la crème de nossa cultura é empurrada para os estrangeiros e esperamos sempre a reação de positividade absoluta, caso contrário iremos atrás de pescoços, tipo é o caso das pessoas que dizem não gostar de pão de queijo ou brigadeiro.

Mas não é preciso muito. É só ver como nós mesmos ficamos ofendidos quando os estrangeiros notam nossos defeitos, seja por um episódio de um desenho em 2002, seja por uma rapper mencionar a palavra favela contra um bando de brasileiros que a xingavam.

Ou seja, a regra é clara: nós somos os melhores, falem apenas bem de nós, não mal. Ah, e vejam nosso lixo. Mas também não usem, ou iremos declarar a Guerra Memeal (Pai Nosso…)


RUDE

Há no contexto social uma exaltação da simplicidade do povo como integrante da cultura nacional bem como na persistência.

Seja nos heróis brasileiros da história, grande parte deles como figuras contrárias às elites (pelo menos segundo o imaginarium social), como Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Lampião e Antônio Conselheiro, seja nas estéticas tidas como puramente brasileira após o modernismo artístico e literário do século XX, que preferiu a simplicidade das formas em detrimento ao rebuscamento das estéticas anteriores, há essa sensação de que o brasileiro tenha ter esse viés rude, aqui entendido não apenas como simples mas também persistente. Será, então, rudimentar porque não apenas é simples mas também porque ter a capacidade de ser capaz de persistir.

Afinal, houve sempre a oposição do legítimo brasileiro contra aqueles que são herdeiros dos europeus: os heróis brasileiros lutavam contra o estabilshment dos portugueses, contra os impostos da coroa, contra o sistema escravista; as estéticas puramente brasileiras se opunham a reprodução de estéticas europeias com temas nacionais. Logo, vai ser feito uma distinção da simplicidade idealizada contra a fartura e a opulência combatida constantemente.

Assim, o brasileiro irá fazer sua imagem e se identificar nesse aspecto rude nas mais diversas formas, desde a caracterização do brasileiro por Walt Disney na figura do Zé Carioca, como o eterno desempregado mas que sempre está à busca de uma forma de lidar com o dia-a-dia; até a popularidade do público brasileiro com Seu Madruga no seriado Chaves, vez que aquele sempre se encontra na situação de penúria mas nunca desiste de sua família e de seus amigos, a despeito de nenhuma instrução.

Esse aspecto da persistência chegará a ponto de ensejar uma campanha publicitária de auto-estima nacional cujo mote é “sou brasileiro e não desisto nunca”, lançada em 2004.

De outro, o aspecto da simplicidade fica evidente quando observamos que esse caráter da persistência quase sempre é associado ao desprovimento de bens materiais ou ao de uma formação não tão elevada. O ex presidente seria o Filho do Brasil (segundo o filme) não porque fora um famoso sociólogo com doutorado em Paris, mas sim por ser um simples retirante e torneiro mecânico cuja principal formação teria sido o curso do SENAI. Tal fato irá aparecer recorrentemente em suas campanhas publicitárias ou mesmo nas formas de mencionar o presidente como “ex metalúrgico” constantemente.

E esse caráter de humildade será muito explorado por todos os políticos em suas campanhas e marketing político geral. A imagem de um político quase sempre será a de uma figura acessível, de gostos simples e que batam com a do povo em geral, mesmo que seja patente que a grande maiorias dos políticos, principalmente aqueles que ocupam ou concorrem a cargos de prefeitos de capitais, possuem vasto capital, seja ele econômico, seja ele intelectual.

Assim, a título de exemplo, vemos que o atual prefeito de São Paulo, João Dória Jr., a despeito de ser oriundo de uma tradicional família de políticos, irá utilizar o mote de “João Trabalhador” para exaltar suas características como gestor pró-ativo e workaholic que veio da miséria por mérito próprio e avesso à iniciativa pública, a despeito de possuir um patrimônio superior a R$ 180.000.000,00 antes de se eleger prefeito, possuindo uma extensa carreira que conseguira por auxílio de seu pai, incluindo uma notável carreira pública na Secretária do Turismo de São Paulo. Trabalhador de Taubaté.

De outro giro, muitos irão exaltar a figura de Fernando Haddad, ex prefeito de São Paulo, quando comparado a João Dória, por beber Catuaba, andar de skate ou grafitar muros, atividades associadas às camadas mais pobres, a despeito de ter uma carreira no ramo de incorporações imobiliárias, ter atuado por anos em análises de investimentos em banco privado e ter um cargo como professor na USP, cujo salário pode chegar até R$ 60.248,38. Prefeitão da massa de Taubaté.

Detalhe que o prefeito da Catuaba foi o que teve menos apoio na periferia e mais apoio nas zonas ricas.

Finalizando a situação dos políticos e o caráter rude do brasileiro, nada ilustra melhor tal questão como a página de Facebook Testes de Macho. Tal página irá regularmente elencar cinco elementos em diferentes níveis, onde os primeiros (tido como os melhores) serão geralmente figuras rústicas e simples, enquanto os últimos serão geralmente figuras associadas a elementos ricos e novos.

Sem necessidade de legenda

Pode-se ainda analisar tal questão sobre outros ângulos. O Rude pode também ser entendido como desprovido de beleza padrão, o qual remete ao fato que há, na atualidade, uma certa forma de aparente (reforço esse adjetivo, podem me xingar, eu não ligo, eu vejo o like de vocês no instagram no Jonas do BBB) de repúdio às pessoas de beleza padrão (vulgo padrãozinho). Sem entrar no mérito dessa questão (mesmo porque não estou para defender se isso existe ou não, se estou defendendo o Luba ou não), há uma exaltação das demais formas de beleza, abrindo mais espaço a novos espaços na mídia dos “Não padrões” ao mesmo tempo que evita-se dar tanta atenção ao padrão, “não precisam de biscoito”.

Deus tá vendo você ficar olhando aquele padrãozinho no trem mas não x empoderadx sem dente.

De todo modo, seja como exaltação ao não padrão, à simplicidade e à persistência, mesmo que aparentes, o caráter rude constrói a imagem do brasileiro bem como molda sua preferência por gostos.


É evidente que utilizei fontes extremamente maleáveis para a construção dos argumentos e eles caminharam para a direção que eu escolhi. Mas isto não foi um texto acadêmico (a despeito do falatório), logo não irei me preocupar com o formato.

De todo modo, o que objetivei foi demonstrar que a cordialidade que o Sérgio Buarque trabalhou existe, embora não tão simplesmente da forma como ele a trabalhou no capítulo de sua obra.

Assim, pode-se dizer que somos cordiais, contudo a cordialidade será muito maior que uma simples superação da divisão público-privado na relação do indivíduo com Estado ou no tratamento próximo aos demais elementos da sociedade. A cordialidade será o aspecto de emoção, em trazer para as relações o tratamento às vezes próximo, às vezes superior, sempre evitando a equidistância nos relacionamentos; o aspecto da carência, vista como a necessidade de atenção e reafirmação da cultura brasileira em relação às demais, bem como a incapacidade de aceitar críticas; e será o aspecto rude, visto como exaltação a figura do simples, persistente e fora do padrão.

Dito isso, a única coisa que espero é que, caso você tenha lido tudo isso, não queira me matar por ter ofendido a honra de Sérgio Buarque de Holanda.