eu também

para ler ouvindo Somewhere Only We Know, da Lily Allen

- Sempre soube que você me odeia.
- Eu juro que tentei, mas não deu pra odiar. Not even a little bit, not even at all.
- Nossa, amo muito esse filme.
- Eu também.

Perdi a conta de quantas vezes a gente respondeu eu também pra uma coisa que o outro disse que ama. Vários livros, alguns hábitos, filmes, personagens, vontade de trabalhar numa livraria se tudo der errado na vida, aquela cena do Mercúrio em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

Às vezes a maturidade atrapalha. Seria muito legal mentir pra mim mesma e continuar nessa mais um pouco, só curtindo como os jovens fazem, como se não houvesse amanhã. E talvez esse seja o caminho mais certo mesmo. Mas uma hora a gente acaba pensando que tá muito velha pra isso, e que já tem quase 30 anos e que tem que achar umas coisas mais concretas. Com plano de saúde.

Mas teve uma coisa mágica nesses últimos meses. Um romance pronto pra ser escrito, daqueles sem um final feliz nem triste, meio 500 Days of Summer, só com a realidade de um dia após o outro, uma ou outra frase apaixonada, algumas noites em claro e uns roxos pelo corpo. Minha sorte vai ser não ouvir que ele soube o que nunca teve certeza comigo.

Infelizmente eu tive certeza que o máximo dele era o mínimo pra mim, e como um ex uma vez me disse, “melhor a gente terminar agora do que mais pra frente”. Sábias palavras de alguém que não vê um futuro e não sabe como explicar isso pro outro.

Talvez seja muito recente pra colocar esse texto no mundo, mas quem liga? Assim ao invés de explicar onde está aquele cara que me deu uns sorrisos, eu mando um link. Bem geração Z.

Uma vez li um texto dele e disse que achei que tinha muitos pontos finais, e ele explicou que estava escrevendo como queria que fosse lido — e também que era um quadrinho e seria ilustrado, o que fez bastante sentido. E talvez esteja torcendo para que a vida seja assim também, cheia de pontos que parecem ser finais, mas que são só pausas que acabam contando uma história cheia de reticências, com uns desenhos bem bonitos no fundo e uns personagens novos que vão aparecendo. Aliás, escrever é outra paixão compartilhada.

Nem sei o que fazer agora com todo esse tempo que não vou gastar digitando no celular com a luz apagada até às 3h da manhã, mas escrever em um teclado me pareceu uma boa substituição. Ou ler um dos 3 livros que estão atualmente no meu criado mudo, só esperando eu terminar a sétima temporada de Gilmore Girls.

Engraçado é que não foi tão profundo nem doeu tanto assim, mas sinto como se eu tivesse achado um melhor amigo que vou precisar abrir mão, pelo menos por um tempo, para desintoxicar. A única coisa que falta é jogar fora a escova de dentes afrontosa, que anda me encarando no banheiro, me desafiando a literalmente jogar no lixo uma coisa que já não terá mais uso.

Foi um relacionamento curto, porém intenso. Eu tentei abrir, ele tentou fechar, e parece que deu uma emperrada no meio do caminho.

Depois de tantos “eu também” que deram aquele frio na barriga por encontrar outra pessoa com o mesmo tipo de esquisitice, nada mais justo do que terminar da mesma maneira.

- Eu acho que é melhor a gente parar de se ver.
- Eu também.