O amor morreu.

Acordei sob o ímpeto de escrever. Não qualquer texto, ou sobre qualquer tema. Não é sobre a sabatina do nefasto ministro da (in)justiça do Brasil pleiteando vaga no STF. Não é sobre o alívio seguido de angústia que me provoca “A Peste”, do Camus. Não é sobre a oscilação cambial no mercado financeiro. Não é sobre o que me contou o Secretário da Pesca sobre a incongruência no escoamento da produção de pescados em relação à extensa costa marítima brasileira. Não é sobre o par de manequins assombrosamente apáticos que vi ontem no CONIC estampando alegorias coloridas e artificiais de carnaval. Tampouco é sobre a recente descoberta de um continente gigantesco submerso no Pacífico — li no El País. Não! Absolutamente não! Um texto do Nelson Rodrigues, de título “Amor que morre”, me despertou a vontade, ou talvez a coragem, de falar sobre a morte do amor. Justo eu, que sempre defendi e parti da premissa de que amor não morre, todavia, se reposiciona em outro espaço, por não ser etéreo, volátil ou passivo de fúnebre decomposição. Acontece que sim, o amor pode morrer, e morre. Pode até durar para sempre, mas este segundo ponto não vem ao caso agora. À parte o Nelson Rodrigues, não há a linda valsa “Quando morre o amor” no rádio do vizinho. A melodia aqui é o ruído do choro da criança no andar de cima. Optei por uma playlist de músicas indie de ligeira melancolia, para condimentar de algum lirismo este meu texto solitário e prosaico. Escrevo isto porque o amor morre todo dia e a todo instante. O amor morre na fila do pão. Na saída do cinema, mesmo se o filme é do Woody Allen. Ao atravessar a rua. No chopp às 19:24 de uma quarta-feira no mês de outubro, no Boteco Colarinho, em Botafogo. No bilhete só de ida. No joelho com vitamina de açaí da lanchonete do centro da cidade. Na louça suja na pia. Após a sessão de terapia. Acaba por WhatsApp. O amor morre ridiculamente na banalidade cotidiana. Eu, por exemplo, tive um amor que morreu enquanto amarrava os cadarços. A morte do amor não refina enredo. Para morrer, o amor não elege o café minimalista e bem decorado da Rua Consolação esquina com Desassossego, nº2014. A comprovar isto, o cronista Paulo Mendes Campos elencou 73 situações banalíssimas e sem refinamento algum para afirmar que yes, the love ends! Proselitismo: o amor morre todo dia e a todo instante, factual. Entretanto, morre para que nasça! E isso é igualmente banal! Nasce em outro lugar, outro país, sobremaneira, todo dia e a todo instante, a cada segundo; na cadeira giratória do escritório, no cabelo absurdamente negro sobre o suéter marrom, na dança de uma música bizarra, num copo de uma bebida nunca antes tragada, enquanto é transmitido o impeachment mais absurdo da história brasileira, na banalidade e no inesperado, como o meu novo amor. P.S.: Quem sabe eu devesse mudar o título para “O amor nasceu”. Piegas.

Like what you read? Give Talita Cavalcante a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.