Té.

Domingo. Inadiável inquietação de domingo. Caminho pela casa. Caminhos. Espero um movimento súbito, qualquer surpresa que me furte daqui para o lugar onde repousa o sentido. Mentira. Lugar onde te encontre. Mentira de novo. O encontro é factual. É dentro, em tudo. Consumado. Consumida. Encontrei o pacote de chá inglês que roubei do Café Brasilero. “Té negro saborisado de grosella negra”. Mistura caótica, tal qual meus pensamentos. Água quente, aroma, o primeiro gole. Deleite. Lembrei que o Galeano fora o mais expoente e assíduo cliente da casa. Uma amiga me contou. Tem aquela foto clássica. Quero uma igual. Último gole. Findo chá. Domingo de novo. Tragada pela realidade onde falta. Você não é capaz de entender. Mais uns passos. A estante da velha. Figura quase mitológica. Habitara aqui. Deixou entre suas quinquilharias traços de sua erudição. Lia Beauvoir, Marx, Nietzsche, Hesse, Spinoza, Mommsen. Encontrei na estante. LOS PREMIOS NOBEL DE LITERATURA VII. Hermann Lausche. Logo no prólogo o gatilho. Tua presença ocupa todas as palavras. Spotify. Espera. Another new day — Jazzanova, In Between. Que porrada! Disparo. Dissipou tudo, palavra e você. Som. Sente esse bumbo. Esse compasso. Groove! Por um breve momento. O antídoto. A panacéia do meu bem, meu mal. Som que te invoca, sinuoso, também posterga. Até um novo domingo. Sem você. Ritornelo.

Like what you read? Give Talita Cavalcante a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.