Fatal cegueira com o tempo?

É estranha essa coisa de ter algo que não parece nada, fisicamente falando, mesmo que na prática seja bastante coisa e me faça falta. O fato é que eu acho mágica essa tal adaptação do corpo.

Em um ambiente claro, que eu ainda não conheço, eu ando mais devagar, coloco as mãos nas pontas dos móveis por onde vou passando com a intenção de memorizar “ok, isso está aqui, não vai bater nele, pelamordedeus”, desvio de coisas baixas com o mesmo pensamento e meus olhos se movem mais rápido, em várias direções, para escanear o ambiente com minha visão central.

Depois de 8 anos convivendo com retinose pimentar, eu aprendi a fazê-los de uma maneira lindamente sutil, quase imperceptível. Então você só vai perceber tudo isso se prestar MUITA atenção, muita mesmo.

Inata ou não na arte de me locomover em ambientes novos, mesmo com tanta sutileza e cuidado nos detalhes à la “Missão Impossível”, semana passada meu campo visual escondeu uma amiga sentada no sofá e eu só percebi depois de uns 10 minutos que cheguei — eu tinha cumprimentado todo mundo, menos ela. Acontece!

As pessoas só desconfiam de verdade que existe algo de estranho comigo se estivermos em um ambiente escuro, quando eu ajo diferente. Mesmo tentando trazer a minha suposta habilidade diurna para a noturna, eu tenho que me escorar em paredes e ir sentindo o chão com os pés para me locomover. As pessoas notam em mim um certo pânico interno, eu sei. Elas sabem que está acontecendo algo, mas não sabem dizer ao certo o que. É fácil confundir os movimentos com uma dor na perna ou dor de barriga, devo admitir.

Bengala verde! Se eu precisasse me locomover muito sozinha durante a noite, eu já teria a Sofia — é assim que eu a chamaria e seríamos grandes amigas. Minha bengala hoje é o braço do maridão, que vai apertando minha mão quando tem algo na rua, como se fosse me informando: “degrau”, “buraco”, “cocô”. Confesso que não consigo ver muito bem o que está no chão, mesmo de dia.

Eu fico roxa e me machuco porque me descuido, coisa de gente ansiosa. O bom é que meu tornozelo aprendeu a ser mais forte. Ele, o quadril, o joelho, o antebraço, a cabeça, até a bochecha que bati outro dia no box entrando no banho. Sabe aquele ossinho da maçã do rosto, bem embaixo do olho? Pois é, ganhou um roxo também, lindão! Na hora ri, fazer o quê? “..Carambaaaa Taaaaalita, você não toma jeito mesmo, hein? Vai devagar!”.

…E sabe o que eu acho mais fantástico? As pessoas falarem “mas nem parece que você tem um problema tão sério”, quando me vêem vivendo, sorrindo e feliz.

A visão com o troféu de “fatal cegueira com o tempo”, seguido do rótulo vermelho com prazo de validade “indeterminado, mas um dia chega” não me assusta, não me perturba, não me assombra em nenhum nível.

Não precisa ser tão difícil assim, se você não quiser que seja.