“Vou colocar você no colégio público.”
O discurso comum para o ensino público básico em narrativas de punição

Em uma escola particular de classe média alta, localizada em um município no interior do Rio de Janeiro, os pais de um aluno com problemas disciplinares se reuniam com a diretora e uma das professoras da escola. A queixa era a de sempre: o menino desrespeitava colegas e funcionários, matava aulas, colava nas provas, não realizava tarefas. A escola, mais uma vez, pedia ajuda da família.
Após ouvir as considerações das representantes da instituição ali presentes, a mãe pediu para que o menino pudesse participar do encontro. O pai em silêncio. Um pouco contrariada, a diretora pediu que o inspetor chamasse o menino, que entrou sem ser educado com ninguém. Ainda que constrangido, não parecia demonstrar arrependimento. Para que tanto exagero?, pensava.
A mãe então começou, em alto e bom som, seu discurso sobre oportunidades perdidas, sobre o quanto era cansativo bancar aquela escola, sobre o quanto estava jogando dinheiro fora, sobre o quanto poderiam estar viajando com o dinheiro se ele não estivesse sendo, sem retorno, investido em educação. Não satisfeita, ali mesmo, disse ao menino em bom tom:
“Se você continuar desse jeito, vou colocar você no colégio público.Vou matricular você naquela escola de marginais, de bandidinhos, de gente que não quer nada com a hora do Brasil esquecida pelo Estado! É isso que você quer?” O menino fez que não e a mãe olhou para as outras pessoas na sala como quem diz: “Pronto! Fiz o que deveria fazer.” O pai mudo.
De repente, um silêncio devastador e a certeza de que o colégio público é entendido só como um castigo para alunos de rede privada cujo público parece não se importar com o abandono do estado em relação a locais de que não precisa. De repente, um vazio absurdo e a ideia medonha de que a esfera privada nada tem a ver com a falência do estado e com o grito de socorro de funcionários, de crianças e de adolescentes que precisam melhorar de vida e que precisam entender por que devem estudar. De repente, um entre olhar esquisito e a ideia chocante de que o aluno de escola pública é estigmatizado mesmo antes de ter seu direito reconhecido, requerido, experimentado. De repente, a tristeza e a angústia da professora que — oriunda de escola pública e também funcionária de — estava esgotada de assistir a situações desse tipo e de engolir a seco o que pessoas com esse pensamento têm a dizer.
De repente, o fato de que ainda era segunda-feira, de que a semana seria cheia, de que a greve ainda estava longe do fim, de que os professores estavam, de novo, sozinhos — sem salário, sem amparo.
O pai permanecia distante.
