PODE VIR

Se quiser, eu posso esperar. Se não quiser, tudo bem também, embora eu ache que seria bom.

Se acaso decidir vir, vem despido — despido de qualquer coisa que possa nos travar. Vem sem alianças, sem promessas, sem expectativas, sem flores e sem passado. Vem só você mesmo. Entregue. E não precisa me amar, não precisa de flerte, palpitação, ou tremedeira (mesmo que os últimos sintomas aconteçam naturalmente quando to perto de você). Não precisa se apaixonar ou temer que eu me apaixone. Eu tenho medo de envolvimento, então a gente sela esse acordo de viver o momento sem o peso das obrigações e acho que ambos saem ganhando. Pode ser?

Eu espero você chegar a hora que for, mas não demora muito. Posso acabar dormindo. Ando tão cansada.

Deixo você se sentar no sofá e escolher a playlist. Pode ser que eu deite no seu colo, e te permita afagar meus cabelos, leve e vagarosamente, mas não vem com carinho, não vem com ternura e tenha a certeza que quando minha nuca se arrepiar, não vai ser química. É só física mesmo. Ação e reação.

Eu pego uma bebida e a gente tenta tagarelar. Pode ser sobre os mistérios da vida, filmes, séries, fotografia, comida, viagens ou qualquer outra coisa.

Prometo me esforçar e nem faço questão de que você se importe, só segue meus olhos enquanto eu falar, franze a testa e acena de vez em quando pra fingir que está atento.

Pode até rir se achar graça, mas não me encara com afeição e também não sorri muito. Seu sorriso tem um toque tenso e preocupado. É perigoso!

Pode falar de você se der vontade.

Eu não vou interromper, nem me encher de tédio. Prometo! Tenho tendência a me entediar, mas vou tentar. Talvez eu até segure sua mão e a aperte um pouco de vez em quando. Sei lá, acho que demonstra atenção.

Pode ser que você consiga beijar minha boca, e eu até percorra os dedos pela sua barba e seu cabelo.

Só não se anima muito.

O calor que emana do meu corpo não tem nada a ver com você, nem com seu par de mãos deslizando pelas minhas costas ou seus lábios atiçando um esgar de mordida nos meus.

Pode ser que acabemos nos rendendo à compulsão da volúpia, puramente por instinto carnal. Parece que no fim sempre é assim.

De repente a gente se abraça e dorme. Encosto minha cabeça no seu pescoço e você me enlaça pela cintura. Nada muito meloso, mas se fizer frio me aperta mais junto de ti. Eu gosto do calor do seu abraço.

E antes que eu esqueça, por favor, não beija minha testa! Acho essa uma das maiores demonstrações físicas de respeito e por tudo que é mais sagrado, se eu dormir primeiro, não fica me olhando. Acho que durmo com cara de tonta e boca aberta.

Pode ser que eu me aconchegue bem perto durante a madrugada e fique observando seu peito subir e descer a cada lenta respiração se eu tiver insônia. Nada de especial. Pra terminar sem mais delongas, quando o sol lamber seu rosto e você acordar, tenta ir embora sem me fazer sentir muito sua falta. 
Prefiro evitar qualquer mínima possibilidade do meu coração apertar e ficar vazio.

Vai embora como se nunca tivesse vindo.

De repente eu te espero num outro dia como se nunca nada tivesse dado errado.

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