A Ascensão do Império Galático (SW)
desembaralhando os episódios I, II e III da franquia Star Wars.
Até mesmo para os espectadores mais atentos, Star Wars não é nada fácil de se entender. acompanhar os filmes não é o suficiente para captar o complexo jogo político da trama.
Comecei então a assistir The Clone Wars no Netflix, uma animação spin-off co-produzida pelo Cartoon Network, que conta parte das Guerras Clônicas, que se dão entre os Episódios II e III da franquia. A série era a peça que me faltava para compreender a narrativa. Nesse texto, contarei brevemente a história da ascensão do Império a partir do Episódio I, adicionando minhas pitadas de percepção. (SPOILER ALERT)
Introdução
Star Wars conta a história da ascensão e declínio do Império Galático sob comando do Imperador Sheev Palpatine (Darth Sidious).



A chave para entender os eventos que se desencadeiam ao longo da narrativa é acompanhar a estratégia do Senador Palpatine para destruir a representatividade da República Galática e então se tornar Imperador.
10 anos antes do Episódio I
A Galáxia vive uma paz milenar, assegurada por um sistema de governo democrático: um senado, liderado por um chanceler-supremo, que representa os diversos planetas e sistemas da galáxia. Os pequenos conflitos são rapidamente resolvidos por intervenção da Ordem Jedi, uma organização de seres sensitivos à Força cuja missão é levar paz e justiça a toda a galáxia.


A Força e o dualismo Sith-Jedi
“A Força é o que dá ao Jedi o seu poder. É um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ele nos cerca e nos preenche; é o que mantém a galáxia unida.”
Obi-Wan Kenobi , Episódio II
Algumas formas de vida tem uma interação com A Força de um modo ativo — são os chamados “Sensitivos”. Milhares de anos atrás, os Sensitivos se juntaram em grupos ideologicamente convergentes. Dentre ele estavam Os portadores da Força (Force Wielders), Sacerdotizas da Força (Force Priestesses), As irmãs noturnas de Dathomir (the Nightsisters of Dathomir) e A Ordem Dagoyana de Bardotta (the Dagoyan Order of Bardotta) e, claro, a Ordem Jedi e a Ordem dos Sith. Os grupos de Sensitivos se diferenciam por dois fatores: fundamentos morais e técnicas de manipulação da Força.


O código moral Jedi é estrito e baseado no desapego e busca pela paz e harmonia (bastante assemelhado à disciplina budista). Os Jedis aprendem a controlar sentimentos ruins, como a raiva e inveja, e acreditam que o autocontrole é a chave ter o controle da Força, sem desbalanceá-la — Essa técnica é chamada do Lado Claro da Força. A técnica do Lado Claro os permite mover objetos com a mente, prever eventos futuros, sentir a presença de outras formas e vida e até manipular mentes.
Não há emoção, só há a paz
Não há ignorância, só há o conhecimento
Não há paixão, só há serenidade
Não há caos, só há harmonia
Não há morte, só há A Força
Mantra do Código Jedi. Dark Disciple, 2015.
Formados a partir de uma dissidência interna da própria Ordem Jedi, Os Sith são seus opositores morais diretos e desenvolvem a técnica do Lado Negro da Força. Para eles, a busca relevante é a da libertação da Força através da paixão e do poder. É uma jornada mais individualista de busca por força (Algo de Niilista). O desbalanceamento da Força não deve limitar a busca por poder - assim, os Sith são muito mais poderosos no uso da Força : são capazes de criar vida, viver eternamente, conjurar raios de energia e manipular mentes. O problema com esses poderes é que para desenvolvê-los, existem dois efeitos colaterais:
1- A Força é desbalanceada, prejudicando todas as formas de vida da galáxia. Se a Força é usada para criar vida, por exemplo, isso significa que vida está sendo tirada de algum lugar da galáxia;
2- Só se consegue desenvolver o Lado Negro através de sentimentos ruins, como o ódio, raiva e medo. Em consequência, os Sith se tornam mais inconsequentes e correm mais riscos.
O lado negro é muito atrativo, e por isso os Jedi trabalham fortemente para evitá-lo.
A paz é uma mentira, só há a paixão
Através da paixão, eu ganho força
Através da força, eu ganho poder
Através do poder, eu terei a vitória
Através da vitória, minha prisão será destruída
E a Força me libertará.
Mantra do Código Sith. Dark Disciple, 2015.
Os Jedi acreditam na busca constante pela paz coletiva. Em contraposição, os Sith acreditam na busca pelo auto-conhecimento. É uma guerra ideológica entre altruísmo X egoísmo.
Crise na República Galática.
O Episódio I - “A Ameaça Fantasma” inicia no meio de uma crise institucional na República: o Senado está repleto de corruptos — inclusive o Chanceler-supremo, Finis Valorum (que significa “fim do valor” em latim, o que é certamente uma alegoria para caracterizar a fase desprovida de valores em que vive o Senado).
O desmantelamento institucional do Senado levou a perda de apoio de uma série de forças políticas importantes. A principal delas é a Federação do Comércio: uma instituição privada que representa os comerciantes de toda a República, que além de muito rica, possui bastante influência no Senado.
Um dos impasses entre a Federação do Comércio e a República foi gerado a partir da aprovação da proposta de Lei Prop 31–814D, que basicamente determinava a cobrança de impostos nos arredores do planeta Naboo, uma zona de livre comércio. Em resposta, a Federação sob comando de Nute Gunray, determina o embargo de Naboo, com o objetivo de pressionar a República a revogar a lei.
Diante do desastre diplomático e perda de apoio de Finis Valorum, a rainha Padmé Amidala, convencida pelo senador Palpatine, pede o afastamento do chanceler. No lugar dele, é eleito o próprio senador Palpatine, por ser natural de Naboo e por sua popularidade no Senado.


O novo Chanceler-supremo então envia dois Jedis, Qui-Gon Jinn e Obi-Wan Kenobi, para tentar negociar um acordo com a Federação em sua base na órbita de Naboo. O que não se sabe até então é que, secretamente, Nute Gunray está recebendo ordens do próprio Palpatine (na forma de Darth Sidious). Então, ao entrarem na base da Federação, os Jedis são atacados. Felizmente, conseguem fugir para Naboo.


O plano de Darth Sidious
O Objetivo final de Darth Sidious é se tornar Imperador de toda a galáxia- como manda o ordenamento dos Sith, o sentido da vida é a obtenção de poder para a libertação da Força. Entretanto, ele encontra dois grandes obstáculos que precisam ser vencidos: a estabilidade da República e os Jedi.
A estratégia que começa a ser implementada é sucessivamente desestabilizar a República por meio do incentivo de grupos separatistas, como a Confederação dos Sistemas Independentes — uma liga de sistemas comandada pelo Conde Dooku, um outro Sith. Os grupos separatistas desenvolveram um exército de Droides, que é usado a primeira vez em Naboo para uma invasão.


Darth Sidious está comandando os dois lados da guerra. A estratégia dele para enfrentar o apoio dos planetas à República e a ofensiva bélica dos Jedi e é ocupá-los em uma guerra e tentar convencer a galáxia de que os Jedi são fracos e que não conseguem protegê-los.
Ainda, graças ao estado de exceção gerado pela Guerra, Palpatine convence o Senado a reelegê-lo sucessivamente, concentrando mais e mais força.
Guerras Clônicas
Diante do risco separatista, liderado pela Federação do Comércio, o senador Palpatine ordena a formação do Grande Exército da República — um exército onde todos os soldados são clones de um homem chamado Jango Fett, um mercenário extremamente habilidoso. Os soldados foram geneticamente modificados pela medicina assertiva de Kamino (um dos planetas da República). Os clones foram programados geneticamente para serem extremamente leais ao seu criador (no caso, o chanceler-supremo Palpatine). Essa é a força e a fraqueza da República.

As Guerras Clônicas são sobre a guerra conceitual entre “lógica computacional” e “criatividade”. Os robôs aprendem e iteram com novas informações, mas não conseguem ter um aprendizado de máquina mais rápido que a criatividade dos clones sob o comando dos Jedi.

Sucessivamente, a República caminha em direção à vitória contra os separatistas, apesar das inúmeras tentativas de Palpatine, aliado ao conde Dooku, de sabotar a República na guerra.
A reviravolta que dá início ao Império Galático
O Episódio III inicia com a vitória iminente da República, após a captura de conde Dooku. Ao longo da trama, é descoberto que o senador Palpatine na verdade era o grande conspirador por trás dos movimentos separatistas. Diante disso, um grupo de Jedi, dentre eles Mance Windu e Anakin Skywalker partem para a captura do Senador.

Porém, um evento que muda a equação: O iminente nascimento de Darth Vader. Skywalker, tentado pela chance de salvar Padmé, deixa-se tomar pelo Lado Negro, trai General Mance e escolhe salvar Palpatine.
Palpatine então executa a Ordem 66, que ordena os clones a aniquilarem todos os Jedis, pela sua suposta “traição” à República ao tentar prendê-lo. Os únicos sobreviventes são Obi-Wan, Yoda, que fogem para dois planetas distantes. Obi-Wan carrega consigo Luke, recém-nascido filho de Anakin. Nos anos subsequentes, o Império promove uma caçada intensa para encontrar Obi-Wan e Yoda. Entretanto, o Império desconhece a existência de Luke, a quem Obi-Wan leva consigo e passa a protegê-los nos anos que se seguem.
Conclusão
Graças a um roteiro fragmentado e muito espaçado no tempo, George Lucas criou um universo que permitiu um número quase ilimitado de histórias paralelas. Por outro lado, a estética bélica do filme esconde um pouco a trama política mais profunda: um embate entre democracia e autoritarismo, estado, corrupção e sociedade.
