A singularidade do Last.fm

Talles Cabral
Jul 27, 2017 · 5 min read

O last.fm era um clubinho muito exclusivo. A proposta da rede social era oferecer um plugin que memorizasse todas as músicas, álbuns e artistas, montando um perfil/biblioteca de suas preferências.

Se você estava lá, ali pelo fim da década 00’s e início dos 10’s você era um sujeito exclusivo. Provavelmente você era fã de clássicos como o The Cure e o moderninho Radiohead, conhecia o projeto solo de todo mundo do Los Hermanos e era iniciado numas bandas cujos nomes tinham mais de quatro palavras, como os texanos do …And You Will Know Us by the Trail of Dead (sim, as reticências fazem parte do nome original).

Era uma rede social muito exclusiva mesmo. A maioria não tinha um número expressivo de amigos, e quando tinha podia saber que era um sujeito pouco criterioso. Pessoas que conhecíamos "na vida real", que eram comuns nas suas outras redes sociais (Orkut e MySpace, inicialmente) eram pouquíssimos. O propósito da rede nunca foi te conectar com quem você conhecia ou oferecer um canal de interação. Vibe social quase zero.

Era o auge do Indie e o legal era o glamour em poder ostentar uma alta variedade de artistas desconhecidos na sua biblioteca. A gente espalhava o link do nosso perfil no Last.fm com um baita orgulho, como se aquelas bandas registradas ali funcionassem como uma carteirada de autoridade indie. O indie tinha essa coisa de promover uma competição de fãs.

Mas a biblioteca de scrobblers (quem inventou esse nome horroroso, meu deus), que eram os registros do que você ouvia diariamente, era só a primeira camada de informações. O Last.Fm desenvolveu tentáculos para você dividir com frequência sua atividade nas redes sociais e sempre lembrar todo mundo o que você estava ouvindo. O mais famoso era um plugin que semanalmente postava quais os artistas você mais ouviu nos últimos sete dias.

A maioria era um misto ente o tradicional e o underground inédito, algo composto mais ou menos por um David Bowie e o Placebo (o hype da época), e outra banda que ninguém além de você conhecia, com nome tipo Three New Zealand Girls.

Perceba as nuances: do classic rock do Bruce Springsteen a poesia estranha do Tom Waits, passando pelo funk de Curtis Mayfield até esse Ted Leo and The Pharmacists que não faço a menor ideia do que seja. Era assim uma biblioteca do last.fm

E é claro, como toda rede social, tinha a foto do perfil. Se você tinha bala, as suas eram tiradas com uma Sony, com aquela riqueza de detalhes de 6 megapixels que não existe nem em smartphone xing ling mais. Mas naquela época rolava até foto de webcam, então era tranquilo.

A foto em si era o de menos, o que importava era o que você acrescentava com efeitos e recursos para tentar imitar uma estética indie e cool. Borrões, desfoques, ângulos esquisitos e cortes estranhos, no fim a pessoa era só um acessório da foto. O que importava era enfeitar aquele espaço para passar a mensagem de qual tribo você pertencia.

Preto e branco com rosto cortado. Um clássico do last.fm

Tínhamos ainda os nomes de usuário, outra parte fundamental do seu perfil. Diferente do Facebook e do e-mail, aqui a gente soltava a imaginação. A composição de um perfil se sustentava na coerência dessa trindade sagrada: biblioteca de artistas + foto + username. Era possível calcular a personalidade de uma pessoa a partir dessas três variáveis.

DaveHellFire666 + foto do Coringa de Heath Ledger + ouve Slipknot = 15–19 anos, fã de Naruto e jogador assíduo de World of Warcraft.

NotAHumanBeing + foto fumando em p&b de olhos fechados + ouvinte de Libertines = tem um Tumblr artístico e posta fotos de baladas alternativas nas redes sociais.

PostMortemPoems + foto de homem com barba mostrando o dedo do meio + Bob Dylan = fã de Charles Bukowski, tem um blog onde escreve poemas e textos depressivos horrorosos e paga de alcoólatra


Por fim, é claro, havia a completa ausência de pessoas conhecidas e de interações na rede social. Não tinha página pra dar like, umas comunidades mui mal frequentas, e zero conteúdo era produzido ou compartilhado. Nem memes.

A grande — e original, ferramenta desta peculiar rede era um medidor de compatibilidade musical. Um algoritmo batia sua biblioteca de artistas com o perfil que você visitava e oferecia um nível de proximidade entre vocês.

Compatibilidade musical era um dos critérios para você adicionar novos amigos, e era representado por essa barrinha simpática.

Esse era o pilar de toda interação da rede: você encontrando um conhecido, ou conhecendo novas pessoas, e comparando aquela barrinha de gostos em comum, adicionando e deixando um shout (nome do recado que você enviava para uma espécie de mural do usuário) “Yaaaay, parabéns pelo seu bom gosto, Fulano. Te add aqui”


Em pleno ano 2017 do nosso senhor, descubro que o Last.Fm continua na ativa. O moderno Spotify abriu uma janela para que continuemos registrando nossas músicas. Mas o site eliminou a barra de compatibilidade entre usuários.

Hoje ele já não desperta mais a interação e nem incentiva como antes a descoberta de novos artistas baseados no que você já ouviu. O aplicativo para celular também é bastante inútil, enfrenta uma nota baixa na PlayStore e só reclamação dos usuários.

Uma pena. Longa vida ao Last.fm.


Bônus trivia: pesquisando para escrever esse texto, descobri que há uma página do Artista Desconhecido, que foi gerada por pessoas que ouviam faixas sem título ou identificação do artista (o famoso CD piratão das antigas). A foto da página é a Cláudia Leite. ¯\_(ツ)_/¯

Talles Cabral

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Leitor compulsivo de informação inútil, fã do Pixies e romancista fracassado.

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