Crônica de um protesto

Sozinho, em meio à nuvem de fumaça branca levantada pelo gás lacrimogêneo, viu o tempo parar. Naquele instante, já não era mais capaz de discernir o choque e a imprensa, as faixas e as bandeiras.

Em um fim de tarde, entre a Paulista e a Consolação, descobriu-se momentaneamente cego e, pela primeira vez na vida, teve compaixão pelos jornalistas e pelo jornalismo de seu país. Cegos. Incapazes de enxergar algo além da dicotomia que eles mesmos ajudaram a construir.

Será que eles realmente não percebem?” — questionou-se, ao mesmo tempo em que tampava com as mãos suas narinas e boca, ainda tentando entender o que aconteceu e o que aquela menina, segundos antes, no outro lado da pista, gritara em sua direção: “ “.

Se as bombas não existissem, eu teria compreendido”.

Se as bombas não existissem, talvez nós já teríamos compreendido o que há tempos eles tentam nos dizer.

Pegue um avião, vá até o Recife, encontre um daqueles que durante os últimos anos ocupou e lutou pelo Cais José Estelita. Assim como as perguntas feitas por nós, as respostas deles também serão sempre as mesmas. “O direito à cidade é nosso por direito. Diante da democracia direta do capital, é preciso lutar contra o Estado, pelo Estado e além do Estado”. Desde quando?

Para ele e para eles, desde sempre — ou seja, desde os anos 90. Afinal, não foi ali que essa ideia de planejamento urbano amigável ao mercado começou a tomar corpo, antes de tomar as ruas, empresas e espaços públicos desse país? Não foi ali que o Consenso de Washington foi adotado de forma consensual, transformando nossas cidades em cidades de exceção, em uma concorrência desenfreada por capitais cada vez mais móveis, em troca de subsídios, terras e isenções fiscais?

“Governista, oposicionista, massa de manobra do Estado e da Prefeitura”.

Imerso naquele caos silencioso, ele sabia que ninguém é aquilo que não pode ser.

Respirar nunca foi tão difícil como nesses dias”.

Assim como o tempo, o sangue que corria sobre seu rosto se arrefeceu, enquanto o cheiro de borracha queimada trazia algo de quase familiar à cena.

Curioso como nossos sentidos ficam aguçados em situações extremas” — observou, ao mesmo tempo em que teve raiva pelo surgimento de um pensamento desses, numa hora com aquela. Sentiu o corpo pesado e saber o porquê, caiu com os olhos abertos voltados ao meio-fio.

Horas antes, ao sair de casa para ir à escola, a sensação era de satisfação. Acusado de todas as coisas por todos os lados, os comentários em suas publicações no Facebook atestavam sua conduta, legitimavam sua luta. Se pudesse, ou tivesse paciência, responderia a cada um deles: “Arre, estou farto de semideuses! Eu queria te ver lá tirissa, pra ver onde cê ia enfiar essa merda do seu senso de justiça”.

“Governista, oposicionista, massa de manobra do Estado e da Prefeitura? Como, se o combate é justamente contra os frutos de uma ideia de cidade implementada e levada a cabo tanto pelo governo como pela oposição?!”.

Efeito colateral que o seu sistema fez, brother — se pudesse, ele cantaria. Resultado de um jogo jogado há tempos no Brasil que, se por um lado, levou os favelados para a periferia da favela, em ocupações que se multiplicam da ponte pra lá, também acabou por criar a brecha que muitos, entre o Terminal Cachoeirinha e a M’Boi Mirim, esperavam.

A formula é conhecida e por isso não há surpresas: mudanças no ambiente político institucional (como aquela que marcou a passagem do governo FHC ao lulismo) propiciam a criação e abertura de novos canais para grupos, normalmente localizados à margem da política institucional, expressarem suas reivindicações e lutarem pela participação política.

O que assusta, e com razão, é a força que tudo tem tomado desde junho de 2013. Exemplo maior de uma mudança gradativa e em curso, em que o embate político migra do campo para os grandes centros urbanos e que faz das cidades não apenas o palco da luta, mas também os principais objetos dela. Quem será capaz de apagar essa centelha antes que ela tome conta de tudo?

Uma nova leva de bombas de R$ 226 explode ao seu lado, o tempo volta a correr. Depois de suspensos, seus braços são colocados sobre os ombros de alguém que, embora o esforço, consegue arrastá-lo até a esquina mais próxima, adotada como uma espécie de barricada pelo grupo de secundaristas.

“Ainda não foi dessa vez”.

A partir daquela tarde, desistir deixou de ser uma opção para ele.

“Daqui pra frente será sempre assim: cair, levantar, correr e lutar. Até que a última catraca seja queimada!” — gritou, desaparecendo em direção à praça Roosevelt.