Confrontando fantasmas da Ditadura com o terror psicológico de “Ilha do Presídio”

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.

Paul Celan, “Pallaksch. Pallaksch.

“Dicionário Ilustrado da Tortura no Brasil”, feito por Bruno Maron

A ditadura militar no Brasil é um trauma latejante na alma do país — mesmo depois de 50 anos de sua instauração, e mais de 30 de seu término oficial. Em um 2016 conturbado e amedrontador, com discursos de ódio e preconceito tomando corpo nas ruas e mentes de diversos setores, ameaçando a frágil democracia brasileira, existem muitos que resgatam e disputam o imaginário, a memória relativa ao período ditatorial de modo leviano. Em vias de um golpe branco, regido por um setor político corrupto e inapto a comandar o Brasil, as violações e práticas de extermínio praticadas pelos militares tentam ser apagadas, reescritas e enfiadas goela abaixo de uma grande parte do povo — que pouco viu ou sentiu essas violências à época, sem contar os muitos que nem nascidos eram.

Durante a votação realizada na Câmara, no domingo, o deputado Jair Bolsonaro (PSC/RJ), defensor declarado de políticas de violência e extermínio de populações minoritárias, dedicou seu voto ao falecido coronel Ustra, torturador assumido da presidenta Dilma durante seu período como militante, endeusando-o e simbolicamente reafirmando uma versão falsa da história — por exemplo, a que o golpe de 1964 foi uma revolução, e que 2016 também não se configura como um golpe contra a democracia. Como acreditar em uma sociedade democrática que dá voz a figuras obscuras, que levianamente querem apagar o sangue e sofrimento já comprovados, desrespeitar a verdadeira história do país? Como reagir e combater esses pensamentos obscuros e assassinos nas ruas e mentes brasileiras?

Pra além de produções que buscam resgatar os abusos cometidos pelo regime militar, como por exemplo o Relatório da Comissão Nacional da Verdade (cujos trabalhos foram concluídos no fim de 2014), existem outras obras que tentam se debruçar sobre esse sombrio período da história recente do país. Pensando nisso, a desenvolvedora independente de games Utopia Game Studio, de Porto Alegre, também está endossando as fileiras de quem disputa essa construção do passado. Atualmente ela desenvolve o game “Ilha do Presídio”, que se inspira no gênero de terror para oferecer uma experiência imersiva — mergulhando e emulando alguns dos “fantasmas” da ditadura.

Nathália Cruz de Oliveira e Eduardo Caringi, responsáveis pela Utopia Game Studio

A ideia para o jogo surgiu durante o curso técnico na FTEC. Tivemos a ideia inicial de realizar um jogo de terror, nosso professor Ivan Sendin nos aconselhou que o jogo se passasse no Brasil; exploramos vários lugares que poderíamos usar como ambientação do jogo. Então, lembrei de um documentário que assisti, na época em que fazia oficinas de teatro, sobre uma ilha abandonada que foi usada na ditadura. O lugar chamou atenção por ter uma história bem rica do estado que moramos (RS) e ser um lugar perfeito para assustar os jogadores: um presídio abandonado. Queremos retratar o assunto da ditadura com mais maturidade, fazendo com que o medo e suspense que o jogo irá proporcionar seja causado dentro da cabeça do jogador”, relata Nathália Cruz, uma das desenvolvedoras do game.

Teaser do game

A trama, ainda em desenvolvimento, tomará a perspectiva de uma jovem jornalista que vai para a Ilha do Presídio investigar resquícios da ditadura e do que tomou parte no local — buscando, assim, resgatar a história verídica da Ilha tanto quanto se debruçando sobre as facetas mais perversas cometidas pelo regime militar; pra isso, a equipe se inspira, esteticamente, em outras obras de terror, como a série Silent Hill e Outlast, além do filme “Ilha do Medo”. “Queremos capturar e transmitir a ideia de como era estar na ditadura militar e em um ambiente como a ilha. Queremos aguçar a imaginação do jogador com uma repressão constante. A protagonista é uma jovem repórter ávida por respostas sobre acontecimentos dentro da ilha. Uma noite ela vai até o local para encontrar evidências de testes que foram feitos no local, pois a ilha já foi utilizada como laboratório para peste suína antes de ser um presídio”.

A equipe desenvolvedora demonstra consciência da missão inglória que é tentar emular, em qualquer grau, a experiência de terror que deriva das memórias sobre a ditadura. “É um tema delicado de lidar, várias pessoas sofreram nesse período, acho que elas merecem algo que represente esse período com mais fidelidade do que algo hollywoodiano de qualquer filme de terror que se aproveita de fatos reais para atrair o público”, conta Nathália. Podemos pincelar aqui uma fala do teórico brasileiro Márcio Seligmann-Silva; o professor, que possui estudos aprofundados sobre memória, trauma e representação, afirma em Palavra e Imagem, Memória e Escritura: “Não que exista um limite técnico para se descrever um evento catastrófico: a questão é que, por um lado esta descrição sempre será parcial, por outro, ela nunca poderá dar conta da experiência do sobrevivente. É apenas a partir destes dois postulados que se pode falar de singularidade absoluta da catástrofe”.

Escolher conscientemente abordar os terrores da ditadura a partir de uma proposta imersiva é um ponto precioso da iniciativa do “Ilha do Presídio” — sabendo que não se dará conta da questão do regime militar, mas tomando partido junto àqueles que remontam uma versão mais fiel às violências cometidas pelos militares, combatendo a irresponsabilidade de caracterizar o período ditatorial como uma época boa para o Brasil. “Espero que o nosso jogo tente conscientizar algumas pessoas de como é terrível a ideia de viver uma época onde ter alguma opinião contrária poderia ocasionar morte e até tortura de uma pessoa”, relata Nathália.

Imagem retirada do teaser/demo de “Ilha do Presídio”

A tarefa de empreender na busca e na imaginação de rastros de um passado ainda obscuro é cada vez mais urgente para a construção de um outro futuro, mais humanizado e democrático. A postura de uma ala cada vez mais crescente do país — que defende um regime totalitário sem ter uma noção digna dos abusos já cometidos — atenta também ao apagar e menosprezar a vida daqueles que pereceram ante a ditadura. Essa postura, inclusive, é muito conhecida e bem apontada pela filosofa Jeanne Marie-Gagnebin; em Lembrar Escrever Esquecer, ela diz, sobre os rastros: “em nosso continente, a luta dos familiares dos desaparecidos também se opõe à mesma estratégia política de aniquilação. Tortura-se e mata-se os adversários, mas, depois, nega-se a existência mesma do assassínio. Não se pode nem afirmar que as pessoas morreram, já que elas desapareceram sem deixar rastros, sem deixar também a possibilidade de um trabalho de homenagem e de luto por parte dos seus próximos”.

A violência de negar a existência de atrocidades é das mais nocivas e cruéis possíveis e, dentre outros frutos, rende boa parte do pensamento tacanho que temos visto eclodindo na sociedade brasileira: “até houveram manifestos sobre a volta da ditadura militar. O engraçado que essas pessoas estão protestando e expondo sua opinião política justamente por estarmos em uma democracia e temos direito de expor nossa opinião. Em uma ditadura, elas não poderiam se manifestar por mudanças sem serem oprimidas”, conclui Nathália.

O trauma é a ferida aberta na alma, ou no corpo, por acontecimentos violentos, recalcados ou não, mas que não conseguem ser elaborados simbolicamente, em particular sob a forma de palavra, pelo sujeito. (…) Ao que parece, as feridas dos sobreviventes continuam abertas, não podem ser curadas nem por encantações nem por narrativas. A ferida não cicatriza e o viajante, quando, por sorte, consegue voltar para algo como uma ‘pátria’, não encontra palavras para narrar nem ouvintes dispostos a escutá-lo.
Jeanne Marie-Gagnebin

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