Cinema

Hoje me deparei pensando em te escrever, uma mistura de Eva Katchadourian com a energia velha guarda desse lugar — escrevo a luz de velas — mas escrevo, principalmente, pelo clima ruim que ficou entre nós quando deixei a cidade.

Eu me lembro bem no nosso último encontro, foi há dois dias mas me peguei revivendo aquelas horas durante o banho: Eu estava ansiosa para te encontrar, já havia quase duas semanas que não nos víamos ou conversávamos de verdade, e para nós isso era um tempo absurdo. Meu humor estava péssimo, tive muitos motivos para desmarcar, até quis, mas tinha uma certeza bem fundamentada de que depois de uma tarde com você eu voltaria cantando para as borboletas no meu estômago.

Aquele abraço durou muito menos do que eu gostaria, eu te apertei e quando decidi que precisaria de mais alguns minutos com o corpo entrelaçado no seu, você me soltou sutilmente, como quem comete um deslize em público e espera que ninguém note. De repente me senti vigiada, talvez fossem todas aquelas pessoas passando, poderiam nos olhar…você nunca gostou muito de demonstrações públicas de afeto, eu também não, mas aquela poderia ter sido uma exceção. Me lembrei do ano anterior, fomos numa exposição horrível no mesmo shopping, eu tinha chegado recentemente de uma viagem longa, mas aquele abraço fez parecer que um de nós tinha voltado da guerra no Afeganistão, esse não, fez parecer que nos víamos todos os dias, o beijo foi tão simplório quanto o enlace.

Você faz algum comentário desnecessário como: “tá mal humorada, hein?”. Por água abaixo todo meu esforço. Depois procurou escancaradamente e assumidamente as manchas em meu cabelo, pelas quais eu lutei muito para esconder e quase não sai por vergonha delas, fiz um comentário em tom de bronca e você revirou os olhos e balançou a cabeça em um ritmo infantil, com algum comentário desleixado como “ah não, não começa.” “Eu não acredito que sou a namorada chata”, pensei. Me esforcei para não ser e me tornei subitamente, sem nem notar. Recebi a revirada de olhos e um pedido emergente para mudar de assunto, logo na fila do ingresso, me vejo tagarelando histórias longas, mas você não me parece atento, escorrega seus olhos sobre quem passa, sobre o tempo e o espaço, escorre a ideia nítida dos seus olhos para os meus de que não estava ali de corpo e alma, te chamei de volta, alegou viajar na minha história, fez um gesto — arregalando os olhos — para me provar que me ouvia e olhava, como eu faço questão, foi aí que me senti uma criança mimada e desesperada por atenção.

Te mostrei a carteira que estampei e te vendi, quase forçadamente, e despejou criticas sobre o modelo e qualidade, mesmo tendo dito por mensagem o quanto estava insegura e o quanto era importante pra mim que gostasse, você não hesitou um segundo em desdenhar, tampouco esperou um momento oportuno pra receber a sua.

Saímos da fila e nos sentamos, eu, pensando em onde te levar; você, escrevendo coisas no bloco de notas, fiquei curiosa e bisbilhotei, havia escrito um título “Gastos de Janeiro”. Achei tremendamente ridículo, minhas pernas ainda doíam do tempo que passamos na fila, o ingresso ainda estava quente e você já estava contabilizando as despesas de um passeio que acabara de começar, mesmo comprando meu próprio ingresso me senti um peso emergente, um fardo, uma mula e novamente uma criança, você não foi capaz de admitir, sequer entendeu o tamanho absurdo que é fazer anotações assim em um encontro, não é como se não fosse um encontro porquê somos nós, desde sempre nós e muito a vontade nós. Senti uma vergonha profunda em te dever algum dinheiro, gostaria de nunca ter me deixado pagar nada, tal como eu fazia no inicio.

Me recompus e ficamos bem de novo, te levei para conhecer uma loja de departamento/livraria que julgo incrível, demorou mais de uma hora para encontrarmos, eu fiz uma piada boba sobre um livro de romance água com açúcar que você havia lido e disfarçadamente me deu dedo, com meio sorriso no rosto. Eu me ofendi! tentei fingir que não mas me senti péssima. Aposto que casais se dão dedo o tempo todo e até se divertem com isso, mas nós fazemos isso? eu pensei que não, e se sim, teria sido uma primeira vez, e não foi em tom de brincadeira. Agora te digo que me senti desrespeitada e não é assim que gosto de ser tratada. Ignorei outra vez. Tentei conversar a respeito de minhas novidades recentes e da minha viagem, mas você só quis discutir a acessibilidade do negro em locais finos e me tentava convencer que sou socialista, o que não sou.

Eu não queria discutir políticas publicas, problematizar ou desconstruir, naquele momento não, eu só queria sair com você e saber como andava sua alma, comecei a contar histórias tristes de família numa tentativa desesperada de normalizar e pessoalizar a conversa, você não parecia interessado, de novo, uma hora saiu de repente com um aviso de “vou pegar algo” tão urgente que me deixou falando sozinha por alguns segundos.

No cinema, murmurei que apesar de tudo, se o filme fosse ruim, ainda teria valido a pena, você disse que o filme seria bom sim, tive que repetir outras duas vezes até conseguir arrancar de você que bom mesmo era estar comigo, finalmente consegui de extorquir palavras agradáveis.

Vimos o filme, um casal apaixonado do nosso lado se beijava e eu — numa tentativa de provar para mim mesma que ainda estávamos apaixonados — tentei te beijar, você sorriu constrangido e um pouco incomodado, se esquivou, queria ver o filme. Ora, não pode me culpar, eu só estava com saudades.

Desde o início você começou a testar a possibilidade de não vir pra chácara conosco no fim de semana, eu falei que seria tudo bem se não viesse, mas poderia ficar levemente chateada, possivelmente uma tentativa barata pra te carregar comigo, enquanto eu falava do Corumbá você divagava, eu fazia piadas mas você não via a menor graça.

Sentamos no banco da estação e não sei como, mas você acabou me cobrando algum dinheiro, cobrou mais do que eu de fato lhe devia, a profundidade do meu arrependimento em te dever estava a ponto de escorrer magma do centro da terra.

Assim que o metrô chegou, eu já estava pronta pra embarcar, você disse que estava com preguiça de me acompanhar até a chácara. “Ah, a gente conversa no metrô” — eu pensei — entrei no trem e procurei dois assentos, mas quando te vi, não havia movido um dedo, continuava sentado no mesmo lugar, você disse que seu trem era do outro lado, como se eu não soubesse, “Mas você sempre pega comigo” eu te lembrei com uma cara triste e manhosa, você apontou para o relógio e esboçou um sinto muito no rosto, era tarde demais pra me acompanhar. Só então eu entendi que o seu “tô com preguiça” era, na verdade, a sua despedida, não houve nenhum beijo, nenhum “quanto chegar em casa me avisa”, eu não ouvi sequer um “adeus”.

Não ter vindo pra cá não me chateou, me entristeceu o seu descaso de fazer as coisas em que outrora costumava amar, eu tive a sensação de que mesmo se fizéssemos tudo igual, jamais seriamos o casal apaixonado que fomos um dia, nem me lembro quando. A sua necessidade de por obstáculos para todas as soluções que eu te propunha só me fez aceitar o fato de que não viria, na mesma frieza e distância que te encontrei no outro dia.

Aposto que deve ter explodido de raiva quando me disse um “eu te amo” por mensagens — nunca houve outra forma de me dizer isso — e lancei um bom saber, apesar de ter tido certeza durante muito tempo, não me pareceu justo dizer, já que não tenho mais.

Janeiro de 2017