A COR DO VERÃO

Sob o sol ela passou as férias. E eu vi tudo, tudo que ficou de fora das alças dos bikinis alternados. Que Elisa só queria saber duma coisa: de torrar aquela pele sueca até o talo. E por isso vinha até a praia carregando uma cesta de cremes e tratamentos. Dava uma hora e um tanto, ela estudava com as mãos todo o volume do corpo, untando ele de óleos brilhantes.

Era um verão quente, desses que em julho a gente sonha ter, e em janeiro a gente não suporta. Na praia, a água fervia. Mas fervia com fervor que fazia favor de furtar um tanto de frescor um tanto de mar. Que eu quis que acabasse, não houve dia, e muito menos Elisa queria. Abraçada à areia até depois do sol se esconder, ficava pro rastro laranja do céu e a brisa da terra pro mar.

Pra tirar ela do sol, nem Cristo tinha. E eu que tentei cantar a bola, Entra na água, Elisa! Vem brincar enquanto dá! A toa, pois eu não era Santo, ou muito menos. Era um nada, pra ela acreditar que o tempo de verão não volta o ano todo, e o tempo de fazer o que dá vontade é uma vez só. Brincar era verbo já descrido pra Elisa, que só queria bronzear só só.

Almoço, jantar, café não tinha distinção. Tudo meio laranja-igual, pois que os supermercados da praia não tinham essa curadoria monocromática dela. Mas tinha mamão, laranja e cenoura a rodo. Que bom que ela não cansava de tudo o mesmo, um tanto eu enjoava de ver ela comer, na minha.

Um dia descobriu que era melhor pra pegar cor tomar água. Tomou litros d’água. Soube que era melhor o banho frio. E passou frio. Ouviu que melhor ainda era passar na pele cenoura mesmo, batida no liquidificador. Então bateu lá um ou dois legumes e levou o copo pra passear. Eu já não achei mais normal e perguntei, Elisa, pra que isso? respondeu, Pra ter a cor do verão.

Não fui só eu que achei estranho, então Elisa tomou sol por escondida pra ninguém por defeito no corpo cheio do suco grosso. Um cara interessantíssimo passou por ela e foi duro disfarçar qual era a situação. Ficou longe e fugiu das pessoas no fim das férias, pra sugar os raios do céu enquanto havia.

E tinha a cor mais linda, pois bem, e tinha o tom profano. E tinha a cor do verão que passou tentando ter a cor do verão. Elisa fechou as férias felissíssima. Em março vieram as águas findar a estação e lavar suas marcas. Acabou o verão pra todos. Também pra Elisa, descascada.