FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO

A cultura do selfie na pós-modernidade: o novo consumo de arte e o individualismo desprovido da consciência ética

Tamara Mekhitarian

Trabalho realizado para a disciplina Teoria do Contemporâneo.

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E MARKETING

FAAP — SÃO PAULO — JUNHO/2015

RESUMO

O presente artigo investiga a transposição da cultura como elemento emancipador para a cultura como entretenimento, tendo como objeto de estudo as novas formas de consumo cultural pelas mídias sociais. Para tanto, faz-se necessária a compreensão dos fatores que levaram a sociedade contemporânea ao ponto de tal “desintelectualização”.

Palavras-chave: pós-modernidade; indústria cultural; entretenimento; sociedade multicultural; individualismo.

INTRODUÇÃO

A sociedade contemporânea é considerada pós-moderna, o que significa pertencer a uma série de classificações a respeito de suas características. Ser pós-moderno é ser, acima de tudo, descartável. Atualmente, o valor dos produtos (e dos próprios indivíduos) está em sua facilidade de mudar, experimentar e jogar fora. A lógica da indústria cultural consiste em nivelar a produção, cristalizar modelos e instrumentalizar o indivíduo, retirando-lhe a capacidade crítica e padronizando seu comportamento. Para alcançar esse objetivo, as produções e bens culturais diminuem seu conteúdo crítico e emancipador, elevando o entretenimento a grande cultura.

Na era das mídias sociais, não poderia ser diferente. Redes como o Facebook e o Instagram servem como suporte para os indivíduos se autopromoverem, mostrando aos amigos virtuais o quanto são bonitos, felizes e, por que não, cultos? A arte e a cultura ganharam novos significados nessas redes sociais, onde as pessoas, em sua maioria, frequentam exposições artísticas preocupadas mais em tirar fotografias selfies do que em tirar reflexões críticas a respeito da arte. O sujeito pós-moderno é centrado em si mesmo, nos seus desejos e interesses, deixando de lado as questões relacionadas ao bem coletivo. Esse aspecto se traduz nas selfies em locais como velórios ou no campo de concentração de Auschwitz, em que os visitantes se fotografam sorrindo e compartilham as fotos nas redes sociais, confirmando o fato de que tudo transformou-se em atração turística.

Ao longo do artigo, será feita uma análise, com base no pensamento do autor Alain Finkielkraut, para descobrir as causas desse novo comportamento.

A CULTURA DO SELFIE

Objeto de pesquisa deste trabalho, a cultura do selfie, é uma manifestação do individualismo presente na sociedade contemporânea. A selfie é o nome que se dá a fotografias tiradas de si mesmo, para depois serem compartilhadas em redes sociais como o Instagram e o Facebook. Atualmente, as pessoas estão mais preocupadas em mostrar nas redes o que estão fazendo e aonde estão, do que realmente aproveitar determinado momento. É curioso o fato de que, cada vez mais, o individualismo predomina na sociedade e as pessoas são voltadas para si, mas sua psique precisa desesperadamente da aprovação do outro, que no caso traduz-se no número de “curtidas” e comentários dos “posts” nas redes sociais.

Um fato que vem se destacando é o aumento de visitantes em exposições culturais, o que poderia ser visto como algo ótimo de democratização da arte, se não fosse a forma como as pessoas estão consumindo-a. Na contemporaneidade o indivíduo estabeleceu um novo tipo de relação com a arte, já não se frequenta exposições a fim de obter reflexões críticas e fruição estética (aqui entendida como área intelectual), mas apenas para “postar” nas redes sociais segundo a lógica do ser-para-o-outro.

Provas desse comportamento podem ser encontradas em qualquer rede social e nas filas gigantescas de recentes exposições em São Paulo, como a do escultor Ron Mueck na Pinacoteca e, da artista pop japonesa Yayoi Kusama, no Instituto Tomie Ohtake. Esta última, ganhou o título de campeã de selfie em matérias de blogs na internet.

Um outro tipo de expressão da cultura do selfie são as fotografias tiradas em situações coletivas de tragédias e tristezas. É possível encontrar nas redes sociais fotos de pessoas em velórios ou em museus como o Memorial Nacional do 11 de setembro, em Nova Iorque, e o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Duas fotografias desse gênero ganharam repercussão na mídia: a selfie de uma menina sorrindo em Auschwitz e, a selfie de uma mulher no velório do candidato Eduardo Campos. É possível questionar se essas pessoas estão realmente preocupadas com o coletivo ou se só estão promovendo sua imagem sem nenhuma consciência ética. Sob essa perspectiva,

Como justapor o fato de que indivíduos voltados unicamente para si, tão indiferentes em relação ao próximo e em relação ao bem público, sejam ainda capazes de se indignar, praticar uma ação generosa, pautar-se por uma reinvindicação ética? (LIPOVETSKY, 2005, XXVII).

É surpreendente ainda, as matérias que circulam na internet disponibilizando dicas aos usuários de como fazer a selfie perfeita ou como “bombar” seu perfil do Instagram. Nos próximos tópicos será analisado, com base em fundamentos teóricos, que questões possibilitaram o surgimento desse comportamento do indivíduo pós-moderno.

A CULTURA COMO ENTRETENIMENTO

De acordo com Alain Finkielkraut, em seu livro A Derrota do Pensamento, o termo cultura possui dois significados atualmente: a cultura como instrumento de emancipação do sujeito e a cultura como entretenimento. Desde os pensadores da Escola de Frankfurt, como Adorno e Benjamin, já se analisava os efeitos da indústria cultural e da ressignificação da arte devido à capacidade reprodutiva, possibilitada pelo avanço da tecnologia. A alta cultura continua existindo, mas é o entretenimento que é elevado a grande cultura, tudo pode ser considerado cultural. Como bem analisa Finkielkraut,

O problema com o qual nos confrontamos é diferente e mais grave: as obras existem, mas, uma vez que as fronteiras entre a cultura e o divertimento não são mais claras, não há lugar para acolhê-las e dar-lhes sentindo. […] Alérgica a toda forma de exclusão, a concepção de cultura que prevalece valoriza tanto Shakespeare e Musil quanto o par de botas e o cavalo de corridas genial. (FINKIELKRAUT, 1988, p.139/140).

E ainda segundo o autor, é o princípio do prazer que rege a vida pós-moderna, as pessoas não se tornam mais sujeitos autônomos, mas estão interessadas em satisfazerem seus desejos imediatos e, a indústria do entretenimento colabora oferecendo diversão pelo menor custo. Nessas circunstâncias, Finkielkraut aponta para o descarte da cultura:

Brilhar é a palavra de ordem desse novo hedonismo […] Seus adeptos não aspiram a uma sociedade autêntica, na qual todos os indivíduos viveriam confortáveis em sua identidade cultural, mas a uma sociedade polimorfa, a um mundo matizado que colocaria todas as formas de vida à disposição de cada indivíduo. Uma vez que para eles multicultural significa bem abastecido, não são as culturas enquanto tais que apreciam, mas a parte delas que podem testar, saborear e descartar após o uso. (FINKIELKRAUT, 1988, p.132).

A respeito da sociedade multicultural, em que indivíduos podem experimentar todos os estilos de cultura que quiserem, será abordado em um tópico mais à frente sobre os fatores que permitiram a descartabilidade da cultura na pós-modernidade.

HIPERTROFIA INDIVIDUALISTA E HEDONISMO

As manifestações de fotografias do tipo selfie refletem o individualismo presente nos últimos tempos. Atualmente, há uma prioridade do indivíduo em relação à sociedade da qual é membro, cada um vive para si mesmo procurando satisfazer seus próprios prazeres de uma forma egoísta, uma vez que os valores morais e universais estão em queda. De acordo com Lipovetsky,

Nossas sociedades tornaram inúteis todos os valores inerentes ao sacrifício, sejam eles relacionados à aspiração da vida eterna ou a finalidades profanas. E como a cultura do cotidiano não é mais embebida pelos imperativos hiperbólicos do dever, mas sim pelo bem-estar e pela dinâmica dos direitos subjetivos, deixamos de reconhecer a necessidade de uma dependência de qualquer coisa que seja extrínseca a nós. (LIPOVETSKY, 2005, XXIX).

Ao compartilharem selfies em exposições de arte, as pessoas só o fazem para promoverem sua imagem nas redes sociais porquê sentem prazer e acreditam que ganharão um status de cultas e, quando essas fotos se dão em ambientes de situações trágicas, além de reafirmarem seu individualismo, também demonstram nenhuma consideração com o outro e com o coletivo.

IDOLATRIA DOS VALORES JUVENIS

A partir dos anos 60, com a contracultura e a democratização do ensino, os jovens ganharam voz e inauguraram uma categoria de fase da vida até então inexistente. Na atualidade, o jovem tornou-se o padrão a ser seguido por todas as gerações, tudo é feito pensando neles. Os valores se inverteram, antes quem era mais novo procurava aparentar ser mais velho, para demonstrar mais experiência e maturidade, hoje todos querem se manter jovens numa corrida contra o envelhecimento.

Até a época da contracultura, os filhos deveriam obedecer aos seus pais, cumprindo seus deveres com a família e, sua opinião não era levada em consideração. No momento presente tudo se inverteu, os pais não só fazem tudo o que os filhos querem, como ainda os imitam no seu comportamento e aparência. Os jovens são os usuários majoritários das redes sociais, mas os mais velhos também estão presentes “postando” suas selfies, reproduzindo as atitudes dos mais novos.

Segundo Finkielkraut, como todas as produções, sejam elas culturais, midiáticas, políticas ou religiosas, são feitas para os jovens, seu conteúdo acaba rebaixando o nível para alcançar esse público. O autor define esse processo como “rejuvenescimento geral e o triunfo da imbecilidade sobre o pensamento”, pois as práticas adultas promovem um tratamento de “desintelectualização” que diminui o teor crítico dos trabalhos. É possível encontrar os próprios museus incentivando as selfies em seus espaços, como a Galeria de Arte Moderna de Roma, que procura, de uma forma um tanto quanto vazia, maior identificação dos jovens com as obras de arte.

CAUSAS QUE LEVARAM A SOCIEDADE À PÓS-MODERNIDADE

É importante ressaltar que, todas as características citadas do indivíduo pós-moderno começaram a ganhar forma desde as raízes da modernidade. Finkielkraut problematiza questões como o individualismo oriundas da Revolução Francesa, que afirmava a autonomia plena do indivíduo, condenando o sentimento de universal, glorificando os particularismos, adorando a si mesma (nação) e colocando-se contra as outras em todos os aspectos culturais. Assim, a respeito da Revolução Francesa, Finkielkraut aponta que,

Não se tratava de restituir uma identidade coletiva a seres sem balizas ou pontos de referência. Tratava-se, ao contrário, de livrá-los de toda dependência definitiva, de afirmar radicalmente sua autonomia. Libertos de suas amarras e de sua ascendência, os indivíduos o estavam também da autoridade transcendente que até então reinava sobre eles. Nem Deus, nem pai, não dependiam mais do céu e da hereditariedade. (FINKIELKRAUT, 1988, p.22).

Outro fator que levou às sociedades pluriculturais foi o processo de descolonização das colônias europeias. Os europeus projetaram sobre os outros povos sua ideia de razão, sua cultura e seu pensamento como sendo verdade absoluta, desprezando os povos pelo, o que eles consideravam, seu atraso. A descolonização possibilitou aos colonizados que se libertassem e reencontrassem sua própria cultura, pondo fim à hierarquia das personalidades culturais. Assim se deu a transformação das nações europeias em sociedades multiculturais.

As consequências desse processo são apontadas por Finkielkraut, como por exemplo, a intolerância que é gerada entre povos de culturas diferentes. Nesse sentido,

Não se vê por qual encantamento homens, mergulhados cada um em sua cultura, seriam tomados de uma paixão espontânea pelos gêneros de vida ou pelas formas de pensamento afastadas de sua tradição. Se, por outro lado, a riqueza da humanidade reside exclusivamente na multiplicação de seus modos de existência, […] então a mútua hostilidade das culturas é não somente normal, mas também indispensável. (FINKIELKRAUT, 1988, p.102).

Já que todas as formas culturais são válidas, não há parâmetro para distinguir o certo do errado, o bom do mau. A sociedade pós-moderna recai sob um relativismo em todas as instâncias da vida, não há mais uso de pré-conceitos para julgar uma cultura que apedreja mulheres, deve-se respeitar os imigrantes de acordo com suas especificidades culturais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que, analisando a cultura do selfie sob a ótica de Finkielkraut, que é um conservador e contrário às ideias modernas, os indivíduos pós-modernos, em sua maioria, consomem arte sem nenhuma finalidade de emancipação do espírito. A arte é transformada em pura diversão pelo público, que almeja ganhar status de culto perante aos seus amigos virtuais. O sujeito pós-moderno não é capaz de se indignar frente a tragédias e mobilizar-se por uma reinvindicação ética, é o individualismo sem freios quem reina na sociedade.

A cultura contemporânea celebra o presente, estimula o ego, a vida livre e a satisfação dos anseios imediatos. Finkielkraut conclui (1988, p.145), por fim, que:

[…] Pela primeira vez na história, o patrimônio espiritual da humanidade está integral e imediatamente disponível. […] No mesmo momento em que a técnica, pela interposição da televisão e dos computadores, parece capaz de introduzir nos lares todos os saberes, a lógica do consumismo destrói a cultura. A palavra permanece, porém, esvaziada de toda ideia de formação, de abertura ao mundo e de cuidado da alma.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FINKIELKRAUT, ALAIN. A Derrota do Pensamento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

LIPOVETSKY, GILLES. A Sociedade Pós-Moralista. São Paulo: Manole, 2005.



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