FUNDAÇÃO ARMANDO ALVARES PENTEADO

Os percursos do amor

Tamara Mekhitarian

FACULDADE DE COMUNICAÇÃO E MARKETING

FAAP — SÃO PAULO — DEZEMBRO/2014

Introdução

A relação do amor e sexo, bem como suas representações nos meios de comunicação, são temas discutidos desde o século XX, conhecido como o século do sexo. O contexto pós 2ª Guerra Mundial propiciou uma revolução sexual: as mulheres, que além de começarem a desempenhar um papel que só os homens possuíam, também adquiriram condições de viver experiências antes restritas ao sexo masculino.

A revolução sexual dos anos 60, apoiada no cenário da contracultura, possibilitou uma transformação das relações. Com o advento da pílula anticoncepcional, o sexo tornou-se um fim em si mesmo, pelo puro prazer. A dura repressão sofrida pelas gerações anteriores, em que para ter sexo era preciso estar casado e, ainda assim, com o objetivo de procriação, deu lugar a uma sociedade mais livre, emancipada e consciente dos seus direitos.

Desde os anos 80, as relações afetivas vêm sofrendo mudanças drásticas e confusas. A contemporaneidade é marcada pelo período pós-moderno, em que a lógica da efemeridade reina sob todos os aspectos da vida, inclusive os relacionamentos. O sexo é tão corriqueiro que se esquece a figura humana do outro lado, ninguém está interessado em construir uma ligação sólida, o sujeito pós-moderno quer se ver livre de responsabilidades. Há, em certa medida, uma banalização dos sentimentos, o amor é esvaziado de qualquer significado.

Ao longo deste trabalho, uma sucinta, mas não incompleta, linha do tempo é elaborada a fim de apontar os possíveis caminhos do amor no século XXI.

Século do Sexo

O século XX é composto por uma série de fatos que o caracterizam como o século do sexo. Os meios de comunicação sempre influenciaram o modo como as pessoas se posicionavam a respeito do sexo. Nos anos 20, o primeiro beijo na boca foi representado no cinema mudo, os anos 30 foi marcado pelo primeiro nu frontal feminino e um rigoroso código de conduta.

A 2ª Guerra Mundial provocou mudanças comportamentais, os maridos ficaram muito tempo fora de casa, assim as esposas envolveram-se com outros homens nesse tempo. Quando seus esposos voltaram da guerra, encontraram-nas com bebês e aceitaram essa condição. Nessa época não havia uso de métodos contraceptivos, por isso muitas mulheres engravidaram.

O pós 2ª Guerra gerou o fenômeno baby-boom, que originou os adolescentes da contracultura. Os anos 50, denominado “Os anos dourados” pelo historiador Eric Hobsbawm, caracteriza-se por uma contradição entre a programação exibida na televisão e a publicidade. Enquanto os programas de TV tinham um rígido controle do que podia ou não ser veiculado, promovendo conteúdos conservadores, patriarcais e assexuados, a publicidade ainda não tinha um órgão controlador, então era livre para produzir peças sensuais. Nessa década, duas figuras foram emblemáticas no que tange à questão sexual: Marilyn Monroe e Hugh Hefner. Ela era a mulher mais desejada pelos homens e, ele fundou a revista Playboy, fornecendo erotismo visual ao público masculino.

A década de 60 eclodiu de vez a revolução sexual que vinha sendo realizada desde o começo do século. A contracultura juvenil deu, pela primeira vez, voz e poder aos jovens, que lutaram pela liberdade em todos os sentidos. As pessoas lutaram pelos seus direitos civis e humanos, movimentos feministas, anti-racistas e homossexuais floresceram, pondo em evidência que todos deviam ser tratados igualmente. A pílula anticoncepcional permitiu que as mulheres também pudessem sentir prazer sem se preocuparem com gravidez indesejada. Nessa mesma época, o aborto foi descriminalizado nos EUA, contribuindo para a emancipação feminina. Os jovens pregavam amor e sexo livres, eram comuns comunidades de amor livre nas montanhas da Califórnia, em que a sexualidade plástica predominava. Cabe destacar que, essa sexualidade é limitada ao prazer, não tem consequências na reprodução e nenhum compromisso com os valores morais. Ainda sobre a questão feminina, teve destaque uma figura importante nesse momento: a escritora Helen Gurley Brown. Ela publicou, em 1962, o livro Sex and the Single Girl, revolucionário para a época e, entre 1965 e 1997, foi editora da revista feminina Cosmopolitan, rompendo paradigmas ao incluir sexo e carreira em suas páginas.

Erotismo nos dias atuais

A partir dos anos 80, ocorre uma transformação da intimidade com grande influência dos novos meios de comunicação. O que era privado, torna-se público. É a emergência da “civilização do espetáculo”, tema que o autor Mario Vargas Llosa discorre em seu livro de mesmo nome. Essa civilização é marcada pelo individualismo, efemeridade, hedonismo, liquidez, relativismo, obsolescência programada, auto exposição e cultura descartável. De acordo com Llosa (2013, p.29), a cultura transformou-se em pura diversão:

O que quer dizer civilização do espetáculo? É a civilização de um mundo onde o primeiro lugar na tabela de valores vigente é ocupado pelo entretenimento, onde divertir-se, escapar do tédio, é a paixão universal.

Atualmente, as relações humanas seguem, infelizmente, a mesma tendência do desaparecimento da durabilidade, profundidade, sensibilidade e fragmentação de valores nobres. O sexo entre humanos reduziu-se ao mesmo sexo que acontece entre os animais, puramente instintivo. Como bem analisa Llosa (2013, p.46):

Desafoga uma necessidade biológica, mas não enriquece a vida sensível e emocional, nem estreita a relação do casal para além do embate carnal; em vez de livrar o homem ou a mulher da solidão, passado o ato urgente e fugaz do amor físico, devolve-os à solidão com uma sensação de fracasso e frustação.

O ponto é que, nos dias de hoje, a liberdade é demais vulgarizada e os sentimentos banalizados. Como não há necessidade de comprometer-se com nada nem ninguém, o sujeito só pensa nele próprio e em satisfazer todos os seus desejos. Acontece que levar a liberdade ao extremo não funciona, ela provoca uma terrível sensação de vazio e angústia, além de anular os sentimentos de quem está ao lado. Um ditado popular ilustra essa situação: “Mas de que adianta sair para festa e voltar para casa sempre com o coração vazio?”

O erotismo, segundo Llosa, desapareceu, pois é a negação desse sexo fácil. Desde os anos 80, com a explosão da indústria pornográfica, a representação sexual está empobrecendo. De acordo com Llosa (2013, p.102):

[…] dessacralizar a vida sexual transformando-a em prática tão comum e corrente como comer, dormir e ir trabalhar, tenham como consequência desiludir precocemente as novas gerações em relação à pratica sexual. Esta perderá mistério, paixão, fantasia e criatividade e se banalizará até se confundir com mera ginástica.

Do amor em Platão ao amor pós-moderno

O conceito de amor, segundo o filósofo grego Platão, diz respeito a um caminho verdadeiro, a ser construído por uma experiência a dois e eterna. Segundo ele, o amor possui três fases:

- eros; educação estética; amor pela beleza corporal; contato físico.

- philia; educação moral; amor por uma alma bela; afinidade ética.

- ágape; educação intelectual; amor universal; afinidade eletiva.

O amor de Platão está caminhando a largos passos para o seu fim na civilização do espetáculo. A pós-modernidade é ambígua, fragmentada e paradoxal. O amor é, por sua própria definição, a construção conjunta de valores, ele não vem pronto. Amor é a vontade de cuidar e preservar o objeto amado, ele cresce com a aquisição desse objeto de desejo e se completa na sua durabilidade. Como o amor vai sobreviver numa sociedade em que o valor das coisas está na sua eficácia, facilidade e rapidez?

O autor Pascal Bruckner, em seu livro “Fracassou o casamento por amor?”, disserta sobre a diminuição dos casamentos por amor. O amor eterno e monogâmico, como visto em Platão, não encontra espaço na pós-modernidade. Bruckner compara os relacionamentos de hoje com os de antigamente (2013, p.66/73):

O fato de a opressão ter sido horrível não significa que a liberação seja maravilhosa. Estamos mais solitários hoje em dia por sermos mais livres, mesmo que tal liberdade venha acompanhada de angústia.

Conclusão

Ao longo do trabalho, identificou-se que, sim, as relações estão cada vez mais rasas, líquidas e banais. É comum pessoas descartarem umas às outras como mercadorias, elas não enxergam o elemento humano e nem se importam com as emoções presentes no outro.

Se por um lado, a revolução dos anos 60 possibilitou a emancipação sexual de rígidas regras, a pós-modernidade levou-a ao extremo do frívolo. A sociedade atual banalizou demais a união amorosa e, não vê que isso faz mal a ela mesma. Daí a necessidade de relações fugazes, pois com a troca rápida e incessante de parceiros, o sujeito iludi a ele próprio, fugindo da sensação do vazio que o acompanha. O ser humano precisa desesperadamente do outro para sua saúde mental e emocional, em algum momento esse modo de se relacionar vai provocar sérias consequências.

O futuro é incerto, os rumos do amor são flutuantes e complexos. Sem dúvida a solução não é voltar aos relacionamentos forçados, inflexíveis e rigorosos. As gerações passadas deram exemplos horríveis de repressão. Porém, do jeito que está não pode continuar.

A proposta de uma política cultural é aqui vislumbrada para incentivar o retorno dos sentimentos profundos, íntimos e contínuos. O nome do projeto é “Existe amor em nós”, que tem o objetivo de estimular o diálogo entre as pessoas, fazendo com que a capacidade de ouvir o outro com empatia e compaixão floresça entre os seres humanos. A ideia é espalhar pela cidade pontos de encontro do projeto que promovam a arte e a poesia. A ação principal é desenhar em uma lousa o contorno de duas mãos, onde duas pessoas que não se conhecem apoiam suas mãos e, só tirem-nas de lá quando compartilharem sentimentos em comum. A partir disso, atividades artísticas poderiam ser desenvolvidas, como a produção de poesia haicai com o tema amor. O intuito do projeto é despertar o amor que está escondido nos corações dos seres humanos, indo na direção contrária deste mundo vazio de significados.

Referências Bibliográficas

BRUCKNER, Pascal. Fracassou o casamento por amor? Rio de Janeiro: Difel, 2013.

LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

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