Conexão além das telas: O efeito da internet na nossa construção pessoal

As redes sociais são sem dúvidas facilitadoras de comunicação. Hoje não existe distância suficiente para separar duas pessoas quando essas podem se comunicar enviando uma simples mensagem ou fazendo uma ligação. Mas até onde esse tipo de conexão supre as necessidades sociais de uma pessoa? Qual o reflexo da vida online em nossas vidas? Se você, assim como eu, acredita que tudo na vida tem dois lados, entende que a internet também é assim. Muitos inclusive dizem que a internet aproxima quem está longe e afasta quem está perto, o que não discordo. Hoje em dia, apesar de aproximar pessoas a internet vem sendo um facilitador para pessoas mal intencionadas e infelizmente é uma ferramenta para disseminar o ódio, além de facilitar o desenvolvimento de depressão e ainda ser responsável pelo isolamento das pessoas (entre outros fatores negativos). Para compreender os efeitos causados pela vida virtual, principalmente voltados para a busca pela felicidade, vou apresentar algumas situações que presencio e espero despertar um pouco de reflexão em cada um de vocês.
A felicidade estampada nas redes, metas de relacionamentos traçadas com base em bens materiais, fotos bonitas e historinhas clichês são cada vez mais comuns. Cenários de vidas perfeitas são diariamente exibidos nas nossas telas, despertando um anseio de ser assim antes desconhecido por nós. Indiretamente você é introduzido a um padrão que você não precisa, mas deseja. Não é difícil encontrar relatos de pessoas desejando um relacionamento “tumblr” pra se sentir feliz, gente buscando aprovação dos outros através de ‘likes’ (muitas vezes até se expondo exageradamente), atualmente inclusive, a romantização de relacionamentos abusivos aumentou exponencialmente. Mas por que isso vem se tornando comum? Por que as pessoas se tornaram tão dependentes de atenção? Talvez essas perguntas não tenham respostas simples, mas é fácil traçar um padrão e entender que cada vez mais as pessoas não buscam a pura felicidade interior e sim, querem aparentar uma vida padrão e perfeita (quase sempre inexistente), fugindo da sua verdadeira natureza simplesmente para serem bem vistas nas redes sociais. Não que seja fútil ou que as pessoas sejam vazias, mas a vida digital te força a querer coisas que você não precisa, seja pra se sentir amado, seja pra te aceitarem ou até mesmo numa busca distorcida por auto aceitação.
Para que fique mais claro esse controle indireto que as redes sociais exercem nas nossas vidas, vou exemplificar através do episódio S3E01 de Black Mirror: Nosedive. Nesse episódio somos introduzidos a um “mundo paralelo” onde o nível de aceitação social é medido através de um aplicativo: tudo que a personagem Lacie faz, é avaliado através de uma nota: suas roupas, suas amizades, suas viagens, sua conduta, tudo. Ela é resumida a uma nota em um aplicativo. Sua vida gira em torno dessa rede social, ela é obcecada por aceitação e tudo que faz é pensando em ser bem avaliada. Porém, uma série de transtornos acaba forçando-a a assumir sua verdadeira natureza (que não é bem vista pelo aplicativo) e ela acaba tendo que viver uma vida normal, sem se preocupar com notas ou padrões impostos a ela por um celular.

Olhando de uma forma superficial parece uma realidade absurda e um tanto quanto idiota, mas observando com um pouco mais de atenção, percebemos que cada vez mais estamos caminhando para o mundo de Lacie. Veja só: quantas vezes você compartilhou algo simplesmente para receber aprovação online? Quantas vezes você ficou triste por receber poucos likes? e ai tomou uma atitude extrema para aumentar suas visualizações? Quantas vezes você tomou atitudes que normalmente não tomaria simplesmente para que pessoas ‘virtuais’ te aplaudissem? Quantas vezes você desejou alguma coisa só porque estava vendo? Se você se viu em alguma dessas situações, você não é muito diferente de Lacie.
Acredito que com o passar do tempo, nós perdemos a capacidade natural de sermos levemente egoístas. Não digo egoístas ao ponto de não se importar com os outros, mas sim se importar mais consigo, se colocar como prioridade e começar a viver as nossas vidas se baseando nas nossas próprias vontades e não preocupados com o que terceiros vão achar de nós. Por mais baixa que seja a sua autoestima, eu tenho certeza que existe alguma coisinha que você admira em si. Pensa bem, somos agora cerca de 7,7 bilhões de pessoas na face da Terra e nenhuma delas é igual. Imagina como seria chato viver num mundo onde todo mundo pensa igual, vive igual, tem as mesmas coisas, tem a mesma aparência, usa as mesmas roupas. Me da agonia só de pensar…
Nossos defeitos nos diferem. Não é porque fulano tem um relacionamento e é feliz, que eu preciso de um também. Não é porque fulano usa tal roupa que eu preciso usar também. Eu não sou fulano, você não é fulano. Seria tão mais fácil se as pessoas tivessem essa percepção. Por mais difícil que seja se enxergar no mundo, essa visão nos permite viver de uma forma mais completa (tal como Lacie quando foi obrigada a ser quem ela realmente era).
Quando descobrimos quem somos (de uma maneira completa) iniciamos uma busca pelo nosso lugar no mundo, descobrimos nossos interesses, separamos prioridades, colocamos e tiramos pessoas de nossas vidas. Essa descoberta é feita com o passar dos anos (muitas pessoas alegam não terem se encontrado mesmo no fim da vida). Apesar disso, esse processo nos prepara para viver, constrói nossa visão sobre o mundo e consequentemente, determina que tipo de pessoas vamos ser. Quanto antes você se atenta para essa visão, menos influenciável você se torna. O sistema luta diariamente contra você, ele quer mandar na sua vida, literalmente te controlar (como sistema eu não quero dizer uma visão política e sim a sociedade num todo, principalmente através de padrões de consumo e relacionamentos), é fácil cair na pilha, ceder e se deixar levar, porém, esse tipo de fraqueza é o que acaba levando cada um de nós a um beco sem saída, muitas vezes terminando em depressão. A frustração de não ter uma vida padrão, não se encontrar em um relacionamento, não possuir bens materiais é devastadora, ela pode te consumir e uma vez que você descuida, pode ser o fator que irá acabar com sua vida (tanto no sentido literal — morte, como no sentido figurado — passar a vida sem ter vivido), por isso, cada vez mais a importância de se amar vem sendo discutida, alguns padrões foram desconstruídos e as pessoas começaram a tomar o controle de suas vidas. Apesar disso, textos como esse ainda são necessários para que as pessoas abram os olhos e percebam que o que elas precisam não está na timeline de uma rede social e sim dentro delas. O que eu espero com esse texto é que vocês possam olhar pra dentro e tenham a capacidade de traçar as próprias metas, sem depender de um influencer, que vocês possam se amar um pouquinho mais e desgrudar da tela do celular/computador, que você possa apreciar a vida, reparar nos pequenos detalhes e ter um senso crítico principalmente sobre aquilo que vai te influenciar ou não. Não seja uma Lacie, seja você e por mais que as pessoas que você conhece não agradem do seu jeito, lembre-se que somos quase 8 bilhões de no mundo e que você ainda não conheceu todas 😉. Para aumentar ainda mais o seu senso de reflexão, veja esse pedaço da música “De dentro pra fora" do rapper LiinK , onde ele retrata justamente essa visão de controle que a sociedade impõe de uma forma bastante direta. Não se importe com padrões, seja quem você é.
O problema não é ser vagabundo
nem fumar maconha
O problema não é ser gay
ter ou não vergonhaO problema não é acreditar em Deus
ir pra igreja
O problema é que o sistema te quer triste
então não seja
Por fim, queria deixar claro que a minha intenção não é fazer com que você abandone suas redes sociais, vá viver uma vida sem conexões ou se torne um paranóico cheio de teorias da conspiração, a minha intenção é que você passe a filtrar aquilo que você absorve das redes sociais, não se deixando influenciar pelos padrões falsos que nos são impostos e que principalmente, você seja sua própria inspiração.

