a revolução se faz nas palavras

Numa dessas conversas entre mulheres, com relações variadas em tempo e formatos acontece de alguma coisa surpreender uma delas. Era ela o fato das cidades, os compromissos de trabalho e ocupação não serem pensados de modo a dar espaço para o funcionamento natural — ou minimamente saudável — das pessoas.

Um pensamento aparentemente simples, este de ter tempo entre os compromissos para existir, quando a você é permitido ter espaço, ou pelo menos um pouco de sorte e predisposição para olhar pelas frestas de um contexto geral cotidiano que é bem fodido. São Paulo é uma cidade fria, caótica, violenta e isso é só reflexo de construções sociais baseadas em ideais ou padrões, em formas de existir e — no cerne do problema — de pensar absolutamente limitadoras. A organização e funcionamento da cidade têm uma estrutura que despreza fatores existenciais básicos como alimentação, prazer, interação social, locomoção, liberdade de criação e expressão, saúde. Não só despreza como modifica a visão orgânica de regulação e funcionamento de vidas. Faz ser invisível todas as diferenças além de rotular e reduzir pessoas, ideais, comportamentos e absolutamente tudo que seja de convívio humano a segmentos.

O mecanismo de funcionamento — que poderia ser simplesmente chamado de “a vida” — limitam as potencialidades de tal forma que tudo relacionado ao simples fato de ser, fica esquecido, ou sequer chegou a ser aprendido. Comunicação, auto regulagem, empatia, fortalecimento dentro de grupos heterogêneos e tantas outras coisas que podem ser desenvolvidas com o simples cultivo de ser um ser vivo e que existe em sociedade são metas aparentemente muito distantes quando a base de crescimento ignora por completo necessidades básicas dentro do desenvolvimento humano.

O pensamento acerca de cidades urbanas, desde a construção até o modo de funcionamento, é ainda muito arcaico. Toda a população é escravizada e tem, de formas diferentes e assustadoramente variadas, suas necessidades básicas negadas. A neurose se instaura de tal forma que as pessoas direcionam e se movem no sentido de manutenção desse sistema, desse mecanismo de funcionamento, por ignorarem por completo primeiramente a si mesmas. O indivíduo acaba por se fechar e limitar a sua visão para o ser socialmente construído que esquece, ou nem nota, todas as camadas que estão existindo e formam o ser.

Numa simples conversa entre mulheres de cenários variados e diferentes vivências — como sexualidades e expressões de sexualidade, ocupação, educação, colocação social (ou imposição de classe) — gerou-se esse sentimento maravilhoso, o da possibilidade de mudança através de ações aparentemente simples. Acrescenta e ao mesmo tempo serve de alerta perceber que essa forma de comunicação verbal não é desenvolvida e muito menos comum na maior parte do tempo. Numa dessas conversas entre mulheres ficou registrada a urgência de se espalhar ideais como o feminismo, a anarquia, a espiritualização, a arte e tantas outras palavras coincidentemente femininas.