Onde deixo o celular?

Tamar Bedran
Jul 15 · 4 min read
https://www.melhoresdestinos.com.br/o-que-fazer-porto-alegre-dicas.html

Reunião de amigos de trabalho. Nunca sei em que lado se coloca o celular. Direita ou esquerda? Rafaela sempre diz para que eu não mexa no celular, enquanto estivermos com nossos amigos. Bem, esse “nosso” nem sempre é “nosso”; pra mim sempre terão os amigos dela e os meus. Acontece que ela mexe no celular, quando estamos com os amigos dela, me deixando “sozinha”, enquanto mastigo a carne de soja e sou obrigada a ouvir falarem de pessoas as quais não conheço, em lugares que nunca frequentei, fazendo coisas muito engraçadas (as quais não acho graça, mas rio e levanto o vinho, dando uma piscadela de olho como quem diz “realmente, muito boa”). A farsa é uma excelente aliada à etiqueta.

Tudo escrito para que você não se mostre muito você, mas sim um alguém — alguém, esse, que decidiu, em comum acordo com outro alguém, como se portar a uma mesa com pessoas sem a própria (pasmem) etiqueta. Afinal, o ideal não seria falar de assuntos os quais todos pudessem participar? Claro, não vamos falar de política. Um grupo não é obrigado a se odiar tão cedo. A etiqueta fala disso? Política? Aliás, não fazer certas coisas e fazer outras é política, não? Tudo é política. Direita, esquerda ou centro… Mas e o meu celular, onde coloco?

Isso me lembrou um debate sobre os testes de QI (as regras de etiqueta, não o lugar certo de colocar meu celular). Quem disse que você precisa saber que, se DE é 30 e DO é 40, DEDO tem o resultado de 70? Nem todo mundo saberia assimilar isso, nem todo mundo sabe sequer ler. Mas e se ela, a pessoa que não sabe ler, fizesse um teste sob o qual meio mundo tivesse que se submeter? Melhor, imagina se um indígena faz um teste no qual o resto da população teria que passar… Rio só de imaginar. Não sei dizer no que implicaria, mas duvido que os feitores do famigerado teste de QI passariam. Talvez ficariam com uma pontuação lá embaixo. Meu coração se aqueceu novamente, com essa imaginação.

Mas aqui não havia indígenas, só os amigos da Refaela, que seguiam falando de um tal Cristian, “cara chato”, que tinha tratado a Renata mal na frente do Robson. Nunca os vi, também. Provavelmente nunca os conhecerei visualmente. Eu tentava dar cara às figuras, mas sentia que a rodinha me afastava do meio. Já brincou de pular corda? Sabe quando já estão batendo a corda e você tem que entrar para pular? Me senti assim, procurando uma brecha do falar mal do mala do Cristian para entrar na conversa.

— Ele tem hábitos estranhos! — disse Gal, finalmente me dando uma abertura.

— Vai me dizer que ele cheira livros? — falei, ao que gerou alguns risos, vendo que alguns dos oito se identificaram com a prática. — Ou exclui pessoas de roda de conversas… — disse, balançando minha taça e olhando algo nojento boiando sobre o líquido.

Sasha, que estava à minha direita, pegou meu copo por engano. Ele comia costela de porco assada e deixou sebo boiando no meu vinho. Não me importaria, não fosse vegetariana. Ao menos Sasha havia me incluído, ainda que sem querer, em alguma coisa. Bem, na verdade, incluiu minha bebida. Tudo cooperava para minha vontade crescente de sair dali.

Não sei se não ouviram minha última sentença, não assimilaram à ocasião ou entraram em acordo — todos, simultaneamente, num contrato não verbal, mas telepático — de fingir que eu não havia dito o que disse. Rafaela não olhou para mim. Ria dos comentários sobre Cristian e fazia carinho nas minhas costas. Eu estava com raiva. Peguei meu celular, como último recurso para estar ali. Olhava para a tela e não conseguia ler, até que o icon de uma amiga pulou na notificação.

Fazia muitos anos que não falava com Julia (lê-se “Rulia”, porque é espanhol, segundo ela). A conversa fluiu e foi como se eu saísse dali; estava num café de esquina, tomando um pingado com a velha amiga. Falei que ela havia me chamado num excelente momento e agradeci o web resgate.

Eu: Estou num jantar entre amigos da Rafaela.

Julia: Para estar no celular, deve estar um porre.

Eu: Estavam falando de um cara que me deu pena. A orelha dele deve estar pegando fogo.

Julia: Você não encontrou alguém parecido pra comentar junto, porque a chata é você.

Eu: Acha que eu vou me expor? Acha mesmo que dou ferramentas para o inimigo me atacar? hahahahaha

Julia me respondeu com um meme, que me tirou gargalhadas e me atraiu olhares da mesa. Foi quando me dei conta de que ainda estava no bar, jantando com os amigos da Rafaela e que, ao invés de escolher entre direita ou esquerda para colocar meu celular, decidi deixar ele na minha mão, em uso.

Ao que parece, eu ri na hora errada; estavam falando do falecimento do ex-chefe deles, que era a pessoa mais amada e gentil que pôde pisar na face da terra. Um exemplo de líder a ser seguido por todos, que citava a Bíblia, Dalai Lama, passagens de livros transcendentais do Hare Krishna e tuítes do Neymar. Realmente, uma perda.

— Se junte a nós, Di — Rafaela disse, com um olhar de vergonha pela minha péssima etiqueta à mesa de bar, diante dos seus amigos, às 22h de um sábado no centro de Porto Alegre. Já estávamos lá havia duas horas e meia. Seu olhar de vergonha e o dos amigos dela de julgamento me irritaram novamente.

— É, Di! Vai ficar se excluindo de nós? — falou Marcelo.

— Não. Vocês já o fizeram — levantei e saí juntando minhas coisas.

Eu: Ju, tá fazendo o quê? Estou indo pra sua casa.

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