cumbuca

Foto-arte: Fernando Witkowski.

Da vitrine, Fernando Witkowski via uma cumbuca intocável. Talvez fossem os dias mais frios em Barcelona ou mesmo a disposição dos objetos ali, mas alguma coisa naquela cena cotidiana tirou a criatividade daquele menino pra dançar. Achou nostálgico — e quem o julgaria, não é mesmo? Assim ele decidiu o que fazer com o nosso verbete e com a saudade. Ele é tatuador e integrante do incrível e itinerante projeto La Bottega. É também uma das pessoas mais gentis e encantadoras que já passaram pela Terra.

Cumbuca

Kleber Mateus

São muito fáceis as regras do jogo da bolinha. Basta um salafrário, dinheiro e um jogador. Dispõe-se uma mesa provisória no meio da rua e sobre ela três copinhos e um pequena bola. Aos olhos de todos esconde-se, sob um dos copinhos, bola e em seguida embaralha-se os copinhos por um bom período, ao fim do qual deve-se perguntar ao apostador sob qual copo está a bolinha. Em caso de acerto o jogador leva o dobro do que apostou.

É também regra muito difundida que só ganham os jogadores previamente mancomunados com o dono da mesa provisória, porque também está escrito que todo apostador irá perder o dinheiro que jogar, isso porque o embaralhador das bolinhas é hábil prestidigitador e sempre a recolhe antes de deixar os copinhos para serem escolhidos sobre a mesa. Não importa a opção do apostador, vai sempre achar o vazio.

Na cidadezinha, porém, um sujeito resolveu inovar.

Foi dele a banca do jogo mais famosa da cidade, porque o índice de acerto dos participantes era altíssimo. Pelas regras clássicas, o jogo só havia de terminar quando a polícia aparecesse. Mas aqui até os dois soldados do Tiro de Guerra se aventuraram a ganhar algum dinheiro nas cumbucas de Benjamim.

Era uma revolução: Benjamim usava três cumbucas do tamanho da palma de sua mão e uma esfera de cristal maior que um olho de cabra no lugar dos tradicionais copinhos de metal e da colorida bolinha de espuma (preferência de patifes profissionais, dado que o material macio pode ser mais facilmente recolhido e escondido entre os dedos).

Benjamim era tido por ser boa gente. Antes de entrar no negócio das cumbucas morou sozinho em uma pequena mas honesta casinha, herança de seus falecidos pais. Os dois irmãos mais velhos foram embora e o deixaram lá, vivendo de parcos recursos que lhe rendiam os alugueis de dois casebres. Todos sabiam que os outros dois haviam-no engabelado, de maneira que ficaram com a maior parte da herança e deixaram o pobre com as tais casas, que nada eram perto do dinheiro das joias da mãe e dos lucros de prebendas que o pai angariara nos bons tempos da família.

Sua personalidade macia o acompanhara desde pequeno. Por não perceber ou por não inquietar-se, Benjamim sempre levava desvantagens em trocas de figurinhas ou de brinquedos e era alvo preferencial de chacotas e pegadinhas empreendidas por seus colegas de escola. Por diversas vezes voltou para casa sem relógio (perdido em apostas invencíveis) ou todo sujo de lama atirada por garotos mais velhos.

Na adolescência escreveu uma linda carta para Eduarda, assinando-a como admirador secreto. Reconhecendo a letra, Eduarda pediu para Gideão, amigo de Benjamim, interceder por ela junto a este. À Gideão ela entregou uma cartinha de resposta muito mimosa, que não chegaria às mãos do destinatário porque Gideão, enciumado pelo interesse da mais bela moça no famoso bobo, resolveu fazer cena, chorar no ombro do amigo e confessar que a amava muito — sem, contudo, revelar que esse amor não tinha sequer horas de idade.

Com detalhes, pedia desculpas ao amigo por beijos imaginários que já há tempos trocava com a moça e deu a entender, com total descaramento, que ela abominara a carta de Benjamim.

Benjamim sufocou no peito a paixão e deu suas bençãos para Gideão seguir seu plano de ter com a moça.

Gideão, valendo-se da oportunidade, foi falar com Eduarda e disse, impiedoso, que Benjamim fizera troça da carta que ela carinhosamente escrevera e ainda inventou tratar-se de engodo, fruto de aposta que, aliás, Benjamim ganharia sobre os amigos que não acreditavam que Eduarda fosse ceder. Para protegê-la Gideão prometeu não anunciar-lhe o resultado. Às lágrimas, Eduarda pediu consolo à Gideão, que dali por diante já tinha esse namoro em mãos. Passados os anos, ao voltar da capital, onde fora para estudar, casaram-se, mas nunca tiveram filhos. Benjamim sequer foi convidado ao casamento pomposo. Gideão não economizou nos gastos, com os quais queimou boa parte de seu lucro de dono do único Empório da cidade.

Sufocando suas dores, Benjamim encontrou motivos para sorrir diante da felicidade do amigo e de sua grande amada. Daí por diante parecia ainda mais facilmente manipulável. Passou a enfrentar dificuldades. Os inquilinos já não pagavam o aluguel e os bicos que fazia mal davam para comer. Mas assim ele ia levando a vida.

Passou a trabalhar como garçom no bar de Adamastor, o ambiente mais decente da cidade, onde Gideão ia se refestelar com seus amigos abastados. Tratava Benjamim com certo desdém. Até as raias da humilhação, como quando em certa noite, mergulhado na bebedeira, confessou a trama que urdira para conquistar a moça mais bela. Benjamim, aturdido, não fez mais que virar as costas e sumir na noite.

Na manhã seguinte pôs as casas à venda. Por comiseração ou senso de oportunidade, logo recebeu oferta. E foi justamente Adamastor, à mando de Gideão, quem comprou as três casas por menos da metade do valor.

Ao crepúsculo do mesmo dia no qual o negócio fora fechado viram o pobre homem partir com as roupas do corpo sobre um cavalo ruço.

Por anos seu paradeiro ficou desconhecido. Como apenas Adamastor testemunhou a confissão trocista de Gideão, ninguém mais entendeu os motivos da partida repentina. E como o decente dono de bar levou o segredo para o túmulo, as pessoas da cidade difundiram as mais estranhas teorias, ficando por convencionada a opção mais sensata de ele ter ido morar com os irmãos.

Anos se passaram até a chegada de um homem montado sobre um belo alazão negro. Vinha recoberto por uma manta alva e seguido por outros quatro homens, em indumentárias mais simples, além de um tangerino que lhe conduzia uma mula munida de dois balaios.

O homem sobre alazão negro era Benjamim. Os rumores que corriam diziam que ele deixara de ser bobo desde que faturara a sorte grande encontrando uma botija de ouro no fundo de um poço, o que se reforçou após as notícias de que seus irmão morreram afogados no naufrágio de um barco que ia a caminho de França.

- As penadas almas não suportaram levar o peso da culpa para o mar. Guiaram o pobre Benjamim em direção à botija.

Já Benjamim se limitou explicar superficialmente os motivos de sua vinda, deixando à cargo da imaginação do povo a solução dos mistérios que cercaram sua partida, sucesso e retorno.

- Tinha que voltar — dizia a Adamastor — essa cidade me ensinou muito. Tudo o que eu precisava encontrei no mundo. Mulheres, bebidas e luxo. Mas nunca me esqueci daqui e do quanto ainda há por fazer. Pretendo retribuir tudo que, de alguma forma, essa cidade fez por mim.

- Virou um daqueles tais de hedonistas?

- Talvez. Disse enquanto cofiava o bigode.

Assim se encaixava a história do jogo das três cumbucas. Perder era a maneira divertida que Benjamim encontrara para dar, sem parecer de graça, o dinheiro para o povo do lugarejo.

De princípio as pessoas apostavam um ou dez Réis. Depois, cinquenta ou cem. Como o dinheiro da botija parecia não ter fim, mas já passava a faltar notas pequenas, Benjamim lançou a regra dos 50 Réis.

- Atenção, meu povo! Como a sorte está grande e como aqui não contamos com banco, as apostas serão agora todas de 50 Réis, pagando 100 em caso de vitória. Cada jogador não vai poder fazer mais que cinco apostas por dia!

Isso gerou grande alvoroço. As pessoas correram para achar em seus cofres as quantias múltiplas de cinquenta. Era investimento certo. Jogar 50 e ganhar 100, que Benjamim pagava de uma vez só com uma única nota, porque “Dinheiro trocado não mostra a fartura da botija!”, brincava.

E assim a coisa correu por semanas. O povo ganhando notas de cem e correndo até ao Empório para trocar por notas de cinquenta, as únicas que poderiam bancar as apostas contra Benjamim.

Isso muito aprazia Gideão, um dos poucos que não jogava. E só não jogava porque não tinha tempo, de tanto que o Empório, única instituição próxima a um banco da região, andava movimentado. Um mês inteiro ficando mais rico, tendo que dispensar sacos e mais sacos de notas pelos homens de Dom Cabral, dos poucos na região que podia movimentar dinheiro pelas tortuosas estradas sem o risco de ser roubado por bandoleiros. O velho caudilho também se beneficiava, pois cobrava dez para cada 100 Réis que o dono do Empório pedia para despachar. Um bom lucro sem muito esforço. Gideão mandava o dinheiro em notas de 100 e o velho devolvia, em troca, noventa partes de volta, tudo em notas de 50.

- É bom negócio para o velho. De tempos em tempos manda o dinheiro para os bancos na capital e ainda obtém lucro sobre os juros. Canguinha — comentava Gideão, cada dia mais contente.

Em pouco tempo todos os negócios da cidade passaram a ser realizados em notas de cem, de maneira que tudo mais era comercializado em termos de centenas. Salvo a inflação, naquelas semanas todos prosperaram. Os moradores gastavam 100, 200 ou 500 Réis sempre que saíam e reservavam as notas de cinquenta, trocadas no Empório, para fazer as apostas com Benjamim.

O dono das Cumbucas passou aqueles dias sendo convidado para festejos e refestelos. Até Gideão tomou coragem e chamou Benjamim para um jantar íntimo de agradecimento. O antigo amigo aceitou e foi. Lá, recebido com um sincero abraço de Gideão, ordenou que o passado fosse esquecido. Que tudo se deu para seu próprio crescimento e aprendizado. E que, ao invés de rancor, tinha era muita gratidão por Gideão. Bem como para com todos da cidade.

- Trouxe presentes para vocês. — Eram caixinhas embrulhadas em papel dourado, uma para Gideão e outra para Eduarda. Pediu somente que não o abrissem em sua presença. — Por favor. Fico muito envergonhado em dar presentes pelo medo que tenho de errar.

- Não diga isso, tenho certeza de que é algo de muito bom gosto. Disse Eduarda, meio sem jeito, com a voz levemente embargada.

Ao encontrá-la, aliás, Benjamim lhe beijou a mão e pediu desculpas pela piada de mau gosto que fizera com a história da carta e da aposta, e disse isso olhando e piscando sorridente para Gideão, que naquele momento entendia está recebendo perdão e cumplicidade, o que quase o levou as lágrimas.

Ao fim da noite, ficaram a sós, pois Eduarda pediu licença para retirar-se. Entre charutos e conhaque, Benjamim confessou ao amigo que devia partir. “Já fiz tudo o que meu coração mandava fazer”.

- Fique mais — pedia Gideão. Temos muito o que conversar. Não sei como lhe agradecer pelo que fez por esta cidade. Esse tempo que ficou aqui me rendeu muito mais dinheiro do que durante esses quase dez anos que tenho o Empório. E sobrou até lucro para o velho Dom. Fique mais tempo para receber meus agradecimentos e meus sinceros pedidos de desculpas.

- Ora, deixe disso, homem! Tudo aconteceu como tinha que acontecer. E quem sabe outro dia eu volte com mais cumbucas para a cidade. Por agora devo partir. Ontem já até despachei minha mula. Meus homens de armas foram na frente e não posso me dar ao luxo de não ir encontrar minhas coisas.

- Podia ter pedido ajuda do pessoal de Dom Cabral, meu velho.

- Não adiantaria, vou passar pelo outro lado da Serra.

- Pois faz é bem. Do jeito que o velho é acabaria lhe cobrando dez por cento só por passar lá perto. Ambos caíram na gargalhada.

Eles riram e conversaram até quase o amanhecer. Benjamim então se despediu deixando Gideão sonolento no sofá.

O dono do Empório só acordou mais tarde, assustado com o galopar do cavalo que cruzava o piso de sua sala.

- Adeus, Gideão! Gritou Benjamim, com os dentes à mostra.

- Adeus, seu mentiroso! Disse Eduarda ao atirar uma bolinha de papel em seu rosto.

Ainda assustado e ressaqueado, viu a esposa e o amigo cruzarem o umbral da porta em direção à rua, deixando poeira atrás do forte galope do alazão negro.

Só então teve tino para ler o que havia no papel atirado: uma carta que acompanhara o presente para Eduarda com letras onde Benjamim explicava toda a história do passado e a devoção que sempre dedicou a Eduarda ao longo da vida.

Gideão no fundo não se importou. “Tenho o dinheiro do Empório que esse palerma me deixou”.

O regozijo momentâneo foi quase tão grande quanto o susto que levou ao ouvir o galopar da tropa de Dom Cabral entrar pelo portal de sua casa.

- Então o senhor dono do empório acha que pode me enganar? Disse o velho, enfurecido, antes de ordenar que um seu jagunço despejasse, no chão da sala, um saco de notas de cem.

- Tomara que esse dinheiro tenha sido falsificado com tinta feita de grama, porque é isso que o jumento Gideão vai comer até a polícia da capital chegar para tomar satisfação. Essas são as regras do jogo.

***

Em caixas

Déborah Gouthier

Um sopro. Como se bastasse para varrer dos dedos o pó. Ficou olhando o dedo em riste, a ponta escurecida das velharias da casa, ela pálida das memórias de dentro.

Não visitava aquelas estantes há muito. Muito mais do que queria admitir. Nem percebera os meses se passando, não ouviu os dias silenciosos, não poderia saber. Mas conseguia ainda adivinhar a ordem com que ela teria empilhado os livros, invertido os porta retratos, mandado limpar as taças. E agora tudo estava ali, coberto de uma poeira que não lhe pertencia e da qual ela agora era a única responsável.

Aquela casa tinha mudado de endereço e formato inúmeras vezes. Incontáveis mesmo, há anos tinha perdido o jeito de lembrar. Ela dizia odiar as mudanças, o caos das caixas, só de pensar já vinha um pânico e sempre perdia alguma coisa pelo caminho. Ainda assim, inventava jeito de trocar de endereço, de cama, de identidade. Houveram casas que sequer chegou a conhecer e acompanhava, exausta à distância, aquele movimento de camalear. Mas sempre que chegava era a mesma coisa: as velhas gravuras na parede, uma decoração excessiva, as mórbidas flores de plástico e o cheiro, sempre aquele cheiro de perfume doce, impregnado em tudo. Nauseou da lembrança do cheiro e percebeu que ele ainda estava ali.

Os últimos dias haviam corrido feito pesadelo. A ligação veio na madrugada, ela levantou no susto e xingou em voz alta, porque bateu o pé na quina da cama. Ficou com a notícia latejando na beira do ouvido por alguns minutos, processando. Não conseguia se mexer. Esperou o dia clarear, lento, porque pensou que não faria sentido sair no meio da noite. Só depois fez algumas ligações, colocou uma muda de roupas na bolsa e saiu. Calma, como se já soubesse desde sempre como seria, como se tivesse uma premonição.

Depois dali foi tudo tempestade. O tumulto que era de se esperar, como só pode ser. Eu sinto muito, querida. Não é melhor vesti-la com o vestido amarelo? Não te esquece do batom, ela morreria se saísse sem batom, oh, por Deus, que comentário de mau gosto, eu sinto muito, queridinha. Eu sinto muito. Sinto. Muito. Ninguém sentia, nada. Ninguém nunca sente nada, a não ser culpa. E afinal, ninguém a conhecia de verdade ali, a não ser pelos retratos na sala de estar.

Agora ela limpava a mesma sala de estar com a ponta dos dedos. Finalmente sozinha com todos aqueles fantasmas. Encaixotando tudo, pra fazer ela mesma, uma última mudança. Por um segundo de descuido, viu seu próprio reflexo num pratinho de sobremesa que já não devia ser usado há anos. Olhou bem. Até que se pareciam um pouco, se observasse bem a boca, o formato do rosto, talvez as sobrancelhas. Pensou naquele último vislumbre da pele ainda queimada do sol e teve medo, como se o corpo dentro do caixão fosse o dela e não da outra. Deixou cair o pratinho e viu o vidro se espalhar em câmera lenta por tudo ao redor. Outra vez xingou em voz alta. E continuou, entre os cacos, naquele ritual de encaixotar, por tanto tempo que, mais uma outra vez, perdeu as contas.

Estava exausta. Mas só admitiu quando encontrou, finalmente, a velha cumbuca da sua infância, estampadinha de flores coloridas. Olhou lá dentro, bem fundo, e passou lentamente o dedo pela textura, como se assim pudesse ainda sentir os restos de algum doce. Não havia nada. Só pó. Aquele mesmo pó, grudado por toda a casa, que ela soprou forte. Como se bastasse pra impedir a lágrima de rolar. Fechou a última caixa. E a cumbuca foi a única coisa que levou consigo.