tamborete

Foto: Mavi Dutra.

Nossa primeira palavra só podia ser essa aqui: tamborete. A palavra-motor que deu nome ao projeto, que deu match nos nossos rascunhos e nos trouxe, pela mão, até aqui. Para ilustrá-la, a fotografia de Mavi Dutra. Poderíamos definir a Mavi como “artista”, porque ela é daquelas que faz de tudo — canta, pinta, fotografa, escreve, planta. Mas a gente prefere mudar e adjetivar mesmo, pra dizer: Mavi Dutra é uma mulher incrível. Uma amiga e tanto, de nós dois. Não podíamos começar de nenhum outro jeito, já que foi, inclusive, ela quem nos apresentou. Obrigadx, Mavi, por também fazer germinar o Tamborete.

Tamborete

Kleber Mateus

Procurei o amor com se ele fosse uma cadeira de lauto espaldar, cheia de detalhes em dourado assentados sobre madeira cuidadosamente cinzelada. Um tipo de trono régio onde pudesse me jogar para comandar essa verdade. Mal sabia eu que era ela indomável.

Esse primeiro entendimento, de que ele, o amor, é lindo, mas também indócil, revelou-se no desconforto que era estar sob essa ostentosa cadeira. Talvez o amor careça de menos volutas e luxos.

Então lixei os detalhes, removi os arabescos e o estofado de veludo. Sonhava em encontrar o amor em uma cadeira funcional, clássica e devotada ao seu interesse imediato de trazer o descanso no simples ato de sentar.

Mas então entendi que o amor não é funcional, porque também não é lógico e talvez seja até inútil. Não era a futilidade dos enfeites nem a interferência que ele causava no trono ou cadeira.

Decidi-me então por desfazer-me plenamente do objeto, num esforço insólito para destruí-lo completamente. Queimei-o e depois, exausto e sem lugar para meu descanso, rendi-me àquela coisinha que já há muito deixara jogada no canto da sala.

Com os olhos inexplicavelmente marejados me joguei sobre o tamborete.

Só então percebi que era ali que o amor estava. Naquele pedacinho de trono, que, ainda assim, pedaço, era um trono inteiro.

***

Tamborete

Déborah Gouthier

O tamborete repousava no canto da clara cozinha. Ficara encantado ali por tantos anos, parado onde parecia ter estado desde sempre. Ela se sentou bem na beirada, prestes a escorregar, naquela noite em que chegaram bêbados, meio trôpegos, e teve uma crise de riso sem sentido enquanto lhe assistia tirando os sapatos. Foi também nele que ela tropeçou ainda no primeiro ano, a ponto de quebrar o dedo do pé. E também fora ali que encontraram o urso favorito do primeiro filho, solenemente sentado, assistindo-os à mesa de jantar mais adiante. Era o mesmo tamborete que herdara da casa da avó materna. As pernas numa madeirinha clara, o tampo de couro, e um monte de histórias estampadas nos frisos da madeira — histórias que não eram suas, mas que vieram como parte da herança. Não combinava em nada com a decoração da sala, mas ficava bem como um coadjuvante, narrador dos anos que tomavam conta da casa.

Ela estava sentada ali, vestida numa camiseta velha, quando ele lhe pediu pra ficar. E ela sentiu o tamborete desaparecer debaixo de si, deixando-lhe exposta e exausta, o corpo todo retumbando no chão. Ficou parada ali, feito o arranjo de sempre-vivas que ganhou no aniversário de casamento e, sem saída, achou que combinava com a cor da madeira. Agora ali, encarando o teto daquela casa há tanto sem vida, teve pena do tamborete.

Não esperou o sol nascer. Pegou as chaves, a bolsa, um lenço que ainda carregava o cheiro dele. Antes de fechar a porta, ainda deu uma última olhada: demorara todos aqueles anos pra perceber que o tamborete ficava bem melhor no centro da sala de estar.