Câncer de mama e autocuidado da Mulher Negra

Eu tinha 15 anos quando minha mãe recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Me lembro como ontem, dela me ligar chorando pra dizer; "Preta, é maligno, tenho que fazer quimioterapia".

Foi a primeira vez que ouvi minha mãe chorar de soluçar... Chorei junto, perdi o chão e achei que ficaria sem minha única família. Uma época de desespero, solidão, de cansaço extenuante físico e mental, mas hoje em dia entendo que também foi muito importante para minha conscientização social. Só que não desejo esses sentimentos e vivências à ninguém.

Modelo @hasnade ativista da conscientização sobre o câncer de mama foto por @fiona758 via Instagram

Cresci numa família monoparental, feminina, de baixa renda e negra, tendo como referência uma mulher incrível, que passava pouquíssimas horas do dia em casa. O pouco tempo que tínhamos juntas, ela usava para me fortalecer, para dizer que o mundo não me pouparia de nada, que eu não poderia fraquejar e como sempre, minha mãe estava certa, eu realmente não fui poupada. Com o câncer, ela teve que deixar o trabalho de babá e eu tive que assumir o seu posto, além dos bicos de faxinas, era encarar isso ou passar fome.

Esta é a realidade socioeconômica de milhares de mulheres negras, jovens ou não, nesse país. De acordo com o recente documento das Ongs Criola e Geledés - A situação dos Direitos Humanos das Mulheres Negras no Brasil - somos a maioria em situação de pobreza no Brasil.

"Somente 26.3% das mulheres negras viviam entre os não pobres, enquanto que 52.5% das mulheres brancas e 52.8% dos homens brancos estavam na mesma condição (IPEA, 2011). A maioria das mulheres negras reside nas regiões com menor acesso a água encanada, esgotamento sani tário e coleta regular de lixo. Por isso, estão mais expostas a fatores patogênicos ambientais e também àqueles fatores decorrentes de sobrecarga de tarefas de cuidado com o domicílio, o ambiente, com seus residentes e a comunidade, sob condições adversas e sem anteparo de políticas públicas adequadas." [1]

Arte por @paintings_by_the_prince via Instagram

Como ter e exercitar o amor próprio, dedicar atencão e se tocar (como pedem as campanhas nesse outubro rosa), matando mil leões por dia? Câncer de mama tem cura, mas sabemos que quanto mais cedo o diagnóstico, mais prováveis são as chances de vencê-lo! 
Acontece que falamos do grupo mais vulnerabilizado pela falta de acesso aos direitos básicos para uma vida saudável, como saúde (água tratada, esgoto, coleta de lixo, médicos, alimentação correta, etc) e educação (informações corretas, escolaridade) ou seja, o autocuidado acaba sendo massacrado pelas inúmeras urgências de uma vida sacrificada.

O resultado de jornadas duplas ou triplas, da necessidade de cuidar da casa, dos filhos e ainda buscar uma situação financeira melhor, através do estudo e do trabalho - somos pressionadas a deixar de lado nossa saúde e bem estar.

Quantas e quantas vezes ouço - "minha prioridade é cuidar das crianças", "não é nada demais é só trabalhar que passa", "tenho que focar na faculdade", "não estou rendendo o suficiente no trabalho", "não posso passar a madrugada e o dia todo numa fila para marcar o ginecologista no postinho, acabo sempre deixando pra depois", são múltiplos fatores externos que se interseccionam e nos impedem de focar a atenção na nossa própria saúde.


Sem contabilizar os estigmas relacionados ao conhecimento e toque do próprio corpo, que são construídos desde a infância e acabam servindo de barreira para um diagnóstico precoce de câncer de mama. Às vezes só tocamos nosso corpo cansado num banho, momento em que muitas mulheres percebem alguma alteração mamária, outras vezes só quem nos toca é um/a parceiro/a durante uma relação sexual. Em ambos exemplos, essas situações cotidianas podem se tornar frias, rápidas e mecânicas, principalmente quando somadas à situações de pobreza e vulnerabilidade.

Precisamos estar atentas, sim, mas também precisamos entender a complexidade das vidas das mulheres negras nesse país e construir campanhas e ações que nos aproximem e dialoguem de forma efetiva com essa realidade. Não podemos continuar culpabilizando as mulheres negras pelo abismo social que nos afasta da garantia de direitos.

Modelo @hasnade via Instagram Ativista da conscientização sobre o câncer de mama

Voltando ao meu exemplo pessoal, o racismo foi um dificultador até o diagnóstico correto do câncer de mama da minha mãe. Os médicos diziam que "câncer não dói", mas ela sentiu dores durante todo o processo e eles diziam ser "exagero". Foi submetida à duas biópsias, a primeira uma punção (com seringa) e com anestesia local, ela sentiu muitas dores durante e ao terminar o procedimento. Na segunda biópsia foi necessário uma pequena incisão, ela pedia mais anestesia, pois não aguentava a dor e a médica dizia que "não poderia encharcar mais o tecido". Até o início do tratamento quimioterápico ela mal podia usar sutiã tamanha pelo inchaço e pela dor. Já li e ouvi outros relatos idênticos e penso no quanto ainda precisamos lutar para vencer o estereótipo da mulher negra "resistente", que tudo suporta.


Para além das condições sociais, pesquisas apontam para o peso de fatores genéticos que aumentam as probabilidades do câncer de mama em mulheres negras em comparação às mulheres brancas.

Uma pesquisa publicada na revista Cancer, Epidemiology, Biomarkers and Prevencion [2], afirma que o câncer de mama triplo negativo TNBC*, um tipo de câncer que costuma ser mais agressivo existindo maior chance de retorno da doença depois de um prévio controle, levando à metástase e a uma sobrevida menor do que os outros tipos [3] é mais prevalente em mulheres negras do que em mulheres brancas. O estudo aponta para a possibilidade de uma predisposição genética para o desenvolvimento e maior incidênciade mortes pelo TNBC em mulheres negras e jovens, antes dos 40 anos, idade priorizada nas campanhas de prevenção e de realização da mamografia.

O câncer de mama é um agravo devastador, atingindo em cheio fatores físicos e psíquicos das pacientes. O tratamento é agressivo, faz perder os cabelos, as sobrancelhas e cílios, escurece as unhas e dentes, além de trazer um desconforto físico imensurável, com vômitos, intolerância à cheiros, desânimo. A autoestima é duramente afetada, o seio que é um símbolo importante de feminilidade, de vida e da sexualidade, pode ser parcialmente ou totalmente extraído, a radioterapia pode causar queimaduras... É um martírio que também afeta à todos familiares e entes queridos, que se desdobram para aliviar os sintomas e ajudar na condução do tratamento.

Arte por @tycheriee via Instagram

Pensando nas desigualdades que nós enfrentamos nessa sociedade, percebemos que o autocuidado é um desafio para as mulheres negras. Como profissional de saúde mental e me incluindo nesse grupo, entendo que as mudanças necessárias que salvam vidas, perpassam pela compreensão do racismo, do machismo e de questões de classe como obstáculos na garantia de direitos e no acesso à saúde.

Nossos corpos negros e femininos, estigmatizados e objetificados, estão sujeitos à diversas agressões e ao longo do dia e através da necessidade de "endurecer", diante das lutas cotidianas, incorporamos o estereótipo de que "damos conta", que "precisamos ser fortes e aguentar", atropelando nossa necessidade básica de de contato e cuidado com nosso próprio corpo.

Peço sempre às mulheres que atendo, para que notem - existem armadilhas construídas socialmente para nos distanciar ainda mais de nossa saúde física e mental. Que seja no banho, ou antes de dormir, mas tire alguns minutos do dia para você, seu corpo é seu melhor amigo e seu único companheiro por toda a vida.

Observação: Minha mãe fui curada do câncer de mama, fez uma cirurgia de retirada parcial do tumor e não desenvolveu metástase, esse ano fazem 12 anos desde o seu telefonema pra mim.

Minha avó teve o diagnóstico alguns anos após o da minha mãe, mas estava num estágio muito avançado, infelizmente desenvolveu metástase e não resistiu, nos deixou em 2012 com câncer ósseo.

Em 2013 com 23 anos, observei um caroço no seio esquerdo (o mesmo seio que desenvolveu o câncer na minha mãe e avó), entrei em pânico, mas é um tumor benigno que não cresceu desde então. Com um histórico que não me permite brechas, tenho que me cuidar e alertar à todas sobre a importância da observação das mamas!

Tamillys Lirio, Mulher Negra, Psicóloga CRP: 05/49444

Presidente na ONG Nação Basquete de Rua

*TNBC — Triple Negative Breast Cancer - Câncer de Mama Triplo Negativo

[1]

https://www.geledes.org.br/situacao-dos-direitos-humanos-das-mulheres-negras-no-brasil-violencias-e-violacoes/

[2]

http://cebp.aacrjournals.org/content/25/3_Supplement/B17

[3] https://www.hospitalsiriolibanes.org.br/sua-saude/Paginas/cancer-mama-triplo-negativo-imunoterapia-tratamento.aspx