Que viagem…

Acho que o título desse texto resume meu sentimento ao ler ‘Homo Deus’, do Yuval Harari, autor de Sapiens, cujo review já fiz. Esse livro é uma espécie de sequência de Sapiens, dessa vez abordando o que pode ser o futuro da espécie humana e vários cenários possíveis, tentando seguir uma boa cadeia de raciocínio embasada nos fatores que nos levaram à nossa situação presente.

Vamos tirar o elefante da sala: ‘Sapiens’ é definitivamente um livro muito melhor, com uma proposta melhor definida e mais bem embasada; é um livro muito mais amadurecido. Não é também o esplendor que dizem, mas é bastante bom, e revela a habilidade de escrita que Harari definitivamente tem. Alçado à categoria de grande guru, o autor se aventurou em cima de um tema que é definitivamente mais espinhoso, e portanto iria requerer muito mais pesquisa sólida e aprofundamento dos temas levantados. Infelizmente, há muito pouco disso no livro. Diversas conclusões são tomadas com certa pressa, por vezes disfarçadas pela boa capacidade narrativa. Chama atenção a história do algoritmo que, com 300 likes de um usuário no Facebook, conseguia prever melhor o comportamento deste usuário no Facebook que o próprio cônjuge. Só que like em Facebook é dificilmente um reflexo tão preciso da personalidade de alguém, para que se queira que uma pessoa próxima consiga prevê-lo, e o algoritmo recebia também um questionário de personalidade de 100 questões respondidas pelo usuário. Não é a melhor maneira de mostrar que algoritmos já nos conhecem melhor que outros humanos.

Seria mentira, porém, se dissesse que ‘Homo Deus’ não vale a pena, ou que é um livro ruim. Pelo contrário, o grande mérito deste é suscitar grandes questões e nos por a debater e analisar quais são os valores que nos pautam, e o que poderia vir a substitui-los, de maneira menos apaixonada e mais reflexiva. É precisamente quando Harari reflete sobre o presente e busca fazer as perguntas certas que o livro se torna uma divertida experiência de pensamento. O debate sobre o que, de fato, é a consciência, e qual seu propósito, acabam por inclusive revelar uma faceta interessante de Harari: seu desespero. Ao fim, parece que o que ele expõe no livro também não o agrada, e ele gostaria de encontrar respostas diferentes, quase implorando para que o leitor reflita e consiga provar que os seres humanos não são, afinal, apenas um conjunto ultra sofisticado de algoritmos.

É uma pena, na realidade, que Harari tenha explorado tão pouco daquilo que levanta. Se existe um espectro tão variado de estados mentais que não experimentamos como ocorre com o espectro de sons, por exemplo, como se pode ter certeza de que toda a experiência espiritual é necessariamente vazia, apenas porque cientificamente a existência da alma é questionável? Não seriam essas experiências, que ele mesmo coloca como pouquíssimo exploradas, a chave para entender os relatos subjetivos de conexão universal? E toda a questão da auto recursividade? Uma vez que nós possamos controlar o que desejamos, passaremos à desejar sentir desejo por algo, e isto também é controlável; entraremos em um loop infinito, extremamente interessante de analisar. Além disso, existe algo que é visto até na economia mais básica: quando fazemos uma previsão sobre o comportamento dos agentes, ela irá influenciar o comportamento deles, de tal forma que a previsão pode perder validade, porque os agentes irão agir de forma diferente. Se algoritmos forem capazes de prever qual é a melhor escolha para mim, eles devem necessariamente levar em conta que ouvir essa previsão afetará como me sinto e como irei agir, potencialmente invalidando a previsão. Nosso desagrado com o controle algorítmico nos fará querer desacreditar do que nos foi previsto, agindo de maneira a querer invalidar a previsão feita! Se sua tia chata lhe diz: largue seu marido, aí mesmo que você vai querer se aferrar a ele, mesmo que o conselho faça sentido. Como calcular essa recursividade?

Pra finalizar: é engraçado como a ideia do dataísmo e da internet das coisas, com tudo que for possível conectado num imenso processamento de dados, se assemelha à imagem da inteligência conectada que Isaac Asimov descreve em seus livros, mas de uma maneira bem mais árida. Gaia era definitivamente mais convidativa.

Leia ‘Homo Deus’, mesmo que seja para achar uma porcaria. Vai com certeza te fazer pensar sobre coisas que nem lhe passavam pela cabeça (e torcer para que nosso futuro seja mais mundano do que o descrito).

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