Sobre cabelos e identidade

Quem me conhece sabe da minha briga eterna com meus cabelos, alisa, enrola, pinta, trata, destrata… Aparentemente a luta eterna de qualquer mulher né?

Hoje, pesquisando alguns lugares para um evento parei pra pensar em como a minha identidade tem se pautado mais basicamente em quem eu devo ser, do que em quem eu quero ser.Lembro de quando eu era criança e sonhava em ter cabelos que se mexessem (sim, meu cabelo era curto e bem enroladinho, ou seja, não se “mexia”) colocava lenços na cabeça pra fingir que eram longas madeixas.

Minhas amigas tinham cabelos lisos, na escola, na vizinhança, elas podiam fazer rabos enormes, penteados diferentes nas festinhas, elas não acordavam com o cabelo todo espantado… eu queria isso também.

Conforme fui crescendo começou o estica e puxa, permanentes, alisamentos e toda a sorte de produtos que deixassem ele mais solto e liso, a busca pelo cabelo que, embora eu tentasse de todas as maneiras, não seria meu.

Óbvio, sempre fui alvo (como até hoje) de piadinhas, não ligava pra elas, aliás, continuo não ligando, mas hoje eu percebo como elas me influenciavam negativamente.

Cabelo de cogumelo, ninho de passarinho, leãozinho, e mais um infinidade de “brincadeiras” e “apelidinhos” que lá no fundo estavam ditando o que eu buscaria pra minha identidade.

Vejam, não quero aqui falar da racismos, polêmicas, negros, brancos e tudo mais, apenas sobre cabelos e como pequenas coisas contribuem muito para construirmos quem nós somos, a nossa real identidade.

Quando você tem uma festa, seja social ou informal, o primeiro pensamento depois de “com que roupa eu vou” é, o que vou fazer no cabelo, e geralmente, se é algo em cima da hora você pensa “faço uma escova rapidinho e está ótimo”, ir com o cabelo natural? Nem pensar. Cada lugar tem um regra, e no final das contas, você tenta se encaixar para não ser “diferente”.

Essa percepção “exótica” e “descolada” que fazem de cabelos crespos me incomoda bastante e talvez por isso, até hoje eu me relutava tanto em usar meus cabelos naturais, crespos, armados, enormes… uma vida toda tentando não ser notada para ser aceita.

Se meu cabelo estiver igual o de todo mundo, ninguém vai ficar me olhando… e isso vale para n coisas que fazemos pelo simples fato de tentarmos não ser alvo de qualquer coisa. Independente se boa ou ruim.

Agora percebo que eu só me aceitei de verdade com 33 anos na cara, que eu parei de verdade de ligar para os olhares, comentários e afins, que finalmente eu sou eu e pronto.

Eu amo escovar meu cabelo, adoro, é prático, fica lindo, adoro a flexibilidade que ele escovado me dá… principalmente de dormir uns minutinhos a mais… mas eu tenho amado ainda mais eles naturais, crespos e lindos, cheios da minha personalidade e de quem eu sou de verdade.

Eu não preciso me esconder, não preciso passar ilesa aos olhares. Olhem mesmo, comentem mesmo e percebam como é bom você aceitar quem é de verdade e não deixar que outros (leia-se pessoas, modas, etc) ditem quem você deve ser.

Quer pintar, alisar, raspar, faça o que você quiser, pelo simples fato de que VOCÊ quer.

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