Aos 28, Saturno me fez berrar

Aprendi aos 27, com meu primeiro mapa astral, que um negócio chamado "Retorno de Saturno" mexe com a gente. Não tenho a menor ideia, para ser honesta, do significado essencial disso, talvez um especialista seja mais adequado nesse sentido (tenho um para indicar, se quiser), mas posso dizer algo sobre os seus efeitos: Saturno me fez berrar.

Logo eu, uma capricorniana convicta. Eu, uma hexacapri apaixonada por seu Sol. Segundo o astrólogo, mais uma "chata pra caralho" no mundo — parêntesis importante: eu poderia ter ficado chateada com ele por isso, mas tenho OITO diários de infância que confirmam, por meio de depoimentos de amigos e colegas, que ele tem razão. É terra para todo lado, olhar maduro desde a infância, com análises meticulosas sobre o mundo (também sobre inutilidades) e um plano para tudo. Perfeito, não fossem lua e ascendente em Áries (Santanáries, para alguns).

Eu era um poço de equilíbrio e segurança até esse tal de Retorno de Saturno, até uma governanta alemã de primeira passar a conviver com uma criança travessa e turrona. Tudo isso, junto e misturado, aqui dentro. E gerenciar os dois tava tranquilo, até Saturno dar a porra da volta completa no Sol.

Você passa a vida inteira lendo horóscopo diário no UOL, fazendo testezinho no Personare, torcendo para que o resumo do ônibus seja repetido antes de você descer. Porque você desenvolve um apreço pelo seu signo solar, você sabe tudo sobre ele e, portanto, sobre si mesmo. Vocês são íntimos, se compreendem, é tudo lindo e muito romântico na sua zona de conforto pessoal.

O que ninguém te conta é que nesse novo ciclo planetário quem vai gritar mais alto é seu ascendente. Tem crise existencial, tem insegurança, tem "coisas estranhas acontecendo comigo", tem "acho que preciso de terapia", tem "quanto custa um Coach de carreira?". Ninguém te conta ou ensina isso, sequer menciona em uma conversa informal, o que é uma sacanagem das brabas, e por essa razão você é pego em um misto de alívio e estranhamento diante do seu "novo" comportamento.

Não vou deixar isso acontecer com você, não esquenta. Eu faço a vez: acolha-se quando Saturno chegar.

Não é uma fase boa ou ruim. É surpreendente e é só o que eu posso afirmar com certeza. Você, que mal abre a boca para se pronunciar sobre qualquer assunto quando há mais de três pessoas presentes, se vê gritando no meio da rua com alguém, às 12h10, sem se importar se todos no ponto de ônibus e entorno estarão olhando. Entende o grau de complexidade da coisa toda? Colocar um saco de pão na cabeça não vai funcionar, então acolher-se parece ser uma boa saída, certo? E isso pode começar tentando ler o que isso quer dizer — no meu caso, que paciência tem limites e que explodir pode ser melhor do que implodir.

Eu sempre tive dois lemas nessa vida: "Nunca, em hipótese alguma, pegue a Av. Rebouças" e "Se a pessoa for de Áries, corra". São máximas absolutas, mas tive que começar a relativizar a segunda, pois a ariana agora sou eu e correr de mim pode ser pior do que ficar e me entender com essa coisa que berra no meio da rua e da qual eu e capri sentimos vergonha na maior parte do tempo — mas, confessamos, pode ser bastante libertadora. Continuo não pegando a Rebouças, sugiro que faça o mesmo.

E talvez assim o seja, referindo-me ao libertadora, porque é justamente aí que o espetáculo todo começa. Meio inseguro, meio bagunçado, meio incerto, com roteiro inacabado, é verdade. Mas ele tem que começar de algum jeito e você estará/está pronto. Preparado para os 30 e, pelo menos é o que dizem, para o começo da vida. Ensaiou até aqui para isso, então você saberá o que fazer e o que ser.

Se conselhos fossem bons e eu pudesse lhe dar um, eu diria que Saturno é mais um professor da jornada, dessa coisa maluca que é a vida, então ouça-o e confie nele. Bata um papo com ele, pois ele é sabido. Aos 28, ele me ensinou que berrar é preciso e tudo bem. :)

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