A liberdade dói

Ninguém nos ensina a ser livres. Somos enraizados desde o primeiro suspiro, quando colocam, logo na maternidade, aquele bracelete dizendo que pertencemos à fulana de tal. Seguimos pertencendo a alguém ou a algum lugar. Temos família, escola, amigos, faculdade, namorado, emprego, profissão. Tudo nos conformes. Cada qual um ganchinho que nos mantêm firmes. Fixos. Seguramente ancorados.

Chega o dia em que decidimos morar sozinhos. O curso escolhido só existe naquela faculdade, que fica a mais de 100 quilômetros de casa. O jeito é mudar de mala e cuia. Finalmente, a liberdade. 
Dizem que deste ponto em diante acontece, pouco a pouco, a emancipação dos pais. Soltamos daquele gancho para logo agarrar noutro.

A verdade é que eu nunca fui livre. Vivo pertencendo a alguém ou a algum lugar. Fui de Catanduva, Ribeirão e Bauru. Fui de tantas turmas, meia dúzia de amores e algumas dezenas de amigos. Milimetricamente encaixada. Árvore de raízes profundas. Somos assim, degustadores de uma falsa liberdade adocicada.

Falsa, digo, porque a autonomia de apenas ser é feito ferida que, de repente, rasga a pele. Machuca. Um esfolado com gosto de ferro. É a segurança disfarçada de ganchinhos, aos quais nos ancoramos, que oferece o gosto de alcaçuz.

Eis que chega outro dia, aquele em que decidimos abrir mão de toda e qualquer estrutura que nos prenda. Com a ilusão de já saber voar, mostramo-nos corajosos. Despede daqui, despede dali. Adeus, amor. E partimos. Queremos viver o mundo. Sem endereço ou beijos de chegada. Viver e só. Viver só.

É na beira do precipício, minutos antes de saltar, que o vento nos golpeia com a verdadeira face amarga da liberdade. Amarra o paladar. Embrulha o estômago. Faz as pernas bambearem. 
Estamos ali, na iminência do salto que nos fará verdadeiramente livres e, só então, notamos que, para ser dona de si, antes de tudo, é preciso coragem.

Coragem para dizer adeus.
Coragem para soltar as mãos.
Coragem para sair do abraço.
Coragem para desenraizar aquelas pernas já dormentes de tanto se agarrarem ali.

E dói.

Dói dizer adeus. 
Dói soltar as mãos.
Dói sair do abraço.

Dói cair no mundo, que é o precipício de todos nós.

Engana-se quem, como eu, achou que ser livre é coisa fácil. Já de olhos roxos de tanto apanhar dessa mania de querer ser, nunca pertencer, digo: tomar as rédeas da própria vida faz as mãos sangrarem que dá medo. A corda queima as falanges. O começo do caminho é manufatura de bolhas.

Disseram que logo caleja e, de calo em calo, a gente vai para onde quiser. Espero que as entidades divinas escutem essa prece, faz favor. Por ora, fiz um curativo.

Fica o aviso aos navegantes: essa história de ser só minha, onde eu quiser, é trabalho árduo. Afinal de contas, não é fácil admitir que os tais ganchos, aqueles, do começo, são só desculpas para não nos responsabilizarmos por quem, verdadeiramente, somos.