(auto)Responsabilidade afetiva

Existe um trem chamado responsabilidade afetiva. Um dos termos que fazem parte do pacote pós-moderno, definido pela fluidez dos relacionamentos. 
Disseram que devemos ter responsabilidade afetiva, mas esqueceram de nos ensinar que a (auto)responsabilidade afetiva é primordial. A sinceridade para com o outro é importantíssima, não questiono. Dizer quais nossas reais intenções, ser transparente nas relações interpessoais e parar de alimentar o ego com a energia amorosa do outro, sem pensar em retribuir, é preciso. E, assim, seguimos trabalhando essa questão, colocando-a em prática em cada um desses encontros providenciados pela vida.

Neste percurso, notei, de uns tempos pra cá, deixamos de lado o olhar para dentro, esquecendo de exercer a sinceridade para com quem somos e sobre o que sentimos.
Pouco se fala sobre (auto)responsabilidade afetiva, esse outro trem, que nos faria compreender e aceitar aquilo que mora em nós e reflete no outro.

Antes de preocupar-se com o outro, afetivamente falando, aprendi nas andanças, é preciso cuidar e adubar o próprio jardim. Já li esse conselho nas mil e uma noites referenciais, confesso. O caso é que, apesar de a ideia martelar sem cessar, a gente só desperta desejo por aprender jardinagem quando quase tudo já secou.

Eu passei um tempão me culpando por não conseguir ser transparente com o outro, dizendo de maneira pouco clara o que eu sentia. Angústia na certa. 
Foi de repente, o dia em que percebi que, para cristalizar nossa própria correnteza, expondo as pedras ali do fundo, é preciso, antes de mais nada, ser responsável pelo próprio afeto. Responsável consigo mesmo. Afetuoso com quem somos. O tal do gostar de si, antes de tudo, até o sol raiar.

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