Desmascarando seu político de estimação

Huffington Post

Nas últimas semanas, deparei-me, perambulando pelas redes sociais, com a expressão “político de estimação”. Resquícios de um zoomorfismo naturalista. De início, segui a linha do humor e sorri. Desliguei o celular e, sem querer, derrubei o vasinho de cacto que enfeita aquela minha mesa vermelha desbotada. Praguejei! Era terra para todo lado. Corri buscar a vassoura, mas, para me desfazer de todos aqueles grãos escuros, era preciso trabalho minucioso.

Certa vez, ouvi dizer que a repetição constante de movimentos leva à reflexão. E não é que funciona mesmo? Esfrega daqui, esfrega dali e, tcharam, aquela expressão, político de estimação, deixou de ser engraçada.

Abri o notebook outra vez. Era minha noite de folga, mas qual é o jornalista que se aquieta após a instalação do incômodo? No topo da lista destes políticos de estimação, de acordo com o número de declarações públicas de apoio nas redes sociais, está, pasmem, o deputado federal Jair Bolsonaro. O brasileiro conservador adotou Bolsonaro com a desculpa de que o discurso efusivo e linha dura daria um jeito no Brasil. Afinal de contas, Bolsonaro não é corrupto e nosso país precisa, urgentemente, livrar-se da corrupção.

A lista não para por aí. O brasileiro adotou Lula, Fernando Collor de Mello, João Dória, Fernando Haddad. Por um momento, parei para pensar: por que raios nós escolhemos defender este ou aquele político com unhas e dentes?

A primeira resposta que me veio à cabeça foi ideológica, mas, há muito, a política brasileira deixou a ideologia de lado para se tornar um grande negócio. Veja bem, os políticos, em sua maioria, vendem seus votos parlamentares aos interesses das empresas doadoras, que enxergam as contribuições como investimentos. Fiquei matutando. Por que raios nós escolhemos defender este ou aquele político com unhas e dentes?

Descobri: porque não sabemos nada ou quase nada sobre eles. Temos ciência apenas daquilo que esbravejam frente às câmeras ou do que a oposição divulga em portais um tanto quanto duvidosos. Nesse jogo de disse-me-disse, intrigas e reviravoltas, típicas dos roteiros romanescos, viramos reféns de informações inundadas de juízo de valor, preconceitos e conceituações clichês.

Nessa vida, aprendi que as explicações didáticas, ao contrário das midiáticas, costumam ser reconhecidas por sua neutralidade. Então, vou deixar a mania de professora aflorar e dar um exemplo prático. Utilizarei o deputado federal Jair Bolsonaro como exemplo, mas o passo a passo pode ser aplicado a qualquer político e/ou partido. Façam o exercício também com Lula, Temer, Dória, Haddad, Alckmin. Vamos lá!

UTILIDADE PÚBLICA: DESMASCARANDO O SEU POLÍTICO DE ESTIMAÇÃO

Os defensores de Jair Bolsonaro juram de pés juntos que o deputado é exemplo na luta anticorrupção. Mas, será que estes defensores conhecem o seu percurso político? Arrisco dizer que, provavelmente, adotaram-no apenas a partir dos propósitos de sua campanha política e do conteúdo discursivo de suas falas. Quer ver por quê?

Existe um portal no qual podemos consultar o perfil político de todos os candidatos, federais ou estaduais, além de sua lista de bens, certidões, propostas de governo e até realizar análises comparativas com eleições anteriores. Clique aqui: http://divulgacandcontas.tse.jus.br

Em algumas poucas horas, descobri que o Collor tem um Ferrari e um patrimônio declarado de mais de $20 milhões. Isso ele nunca expressaria em seu discurso. E é exatamente e especialmente o que não se expressa no lugar público de fala que se deve levar em conta.

Para seguir nosso exemplo, aqui está o perfil de Jair Bolsonaro: http://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/2014/680/RJ/190000001444

Do lado esquerdo da tela, clique em LISTA DE BENS. Você verá que o deputado acumula um patrimônio de R$2.074.692,4.

Agora, analise o perfil dele nas eleições gerais de 2010: http://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/2010/14417/RJ/190000001706

Neste ano, o patrimônio de Bolsonaro era de apenas R$826.670,46. Note que em nenhum dos links há empresas listadas em seu nome, ou seja, teoricamente, toda sua verba advém de seu salário de deputado federal.

Eu sei, você vai me dizer que há a inflação. Mas, calma, tem como fazer a comparação de valores a partir da correção. Aliás, existe um site bem bacana para isso. Até mesmo eu, que sou péssima com números, dei conta. Procure aí pela CALCULADORA DO CIDADÃO. É um mecanismo da Receita Federal que permite calcular a correção a partir dos valores de 2010.

Acesse: https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCorrecaoValores

Fazendo o cálculo, os R$826.670,46 transformam-se em R$1.052.020,91.
Jair Bolsonaro, em um mandato de quatro anos, fez crescer seu patrimônio em NOVENTA E SETE POR CENTO.

Lembrando: ele não tem empresas em seu nome, portanto, todo esse acúmulo é fruto de seu trabalho como deputado federal.

Opa, mas eu e você, que adotou Bolsonaro como exemplo anticorrupção, sabemos que é impossível acumular esse valor apresentando apenas o salário como fonte de renda.

Então, meu caro e minha cara, sinto lhe dizer, mas seu político de estimação recebe dinheiro de algum lugar não declarado. Você ainda vai defendê-los com unhas e dentes?

Isso vale também para os outros exemplos. Os dados estão disponíveis, minha gente! É só consultar.

Os dados têm o poder de fazer da política uma instituição órfã.

Um adendo: este é só um caminho. Sugiram outros, busquem outros, mas deixem de definir posicionamento político unicamente com base nos discursos midiáticos.

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