Entre jurubebas e gabirobas, apresento-lhes os meus amargos

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Na culinária, costuma-se dizer que o amargo é comida para a alma, daquelas que devem ser degustadas sem exageros. Gosto de poucos. Alimentos marcantes demais para serem comidos de forma despercebida. Em alguns casos, não importa a adição de açúcar — jurubebas, gabirobas, folha de boldo e casca de maracujá não foram feitos para adoçar. Existem para fazer acordar lados adormecidos do paladar.

No dicionário, amargo é sinônimo de ácido, penoso, triste. Conjunto de palavras pessimistas. Densas. Daquelas que puxam para baixo. Noutro dia, fui inventar de fazer limonada suíça. Comprei ingredientes e, por horas, li sobre as diferenças entre os limões. Aprendi que existe limão galego, cravo, taiti e siciliano, cada qual com suas particularidades. Para a receita, siciliano. Comprei uma dúzia. No primeiro gole, amargou. Senti aquele gosto feito amarra para a boca. Cuspi. São raras as pessoas que resistem às surpresas dos sentidos.

Quem sofre de transtorno de ansiedade não tem escolha. É como morder aquela ameixa vistosa e sentir o ácido arrepiar os dentes repetidamente. Tenho, quase sempre, a impressão de que não agrado as pessoas ao meu redor. Logo depois do término de uma conversa, arrepio nos dentes. Eu até quero cuspir aquela casca vermelha arroxeada que enroscou no meu canino, tirar com os dedos, cutucar a gengiva, mas tenho mãos atadas.

Descobri, tempos depois, que não podemos deixar saltar as sementes do limão para dentro da jarra. Na limonada suíça, que tem seus ingredientes batidos no liquidificador, a dificuldade é maior. Se, por acaso, uma das sementes misturar-se ao suco, é amargo na certa. O meu limão siciliano era cheio de sementes. Eu também.

Cuspi. Confessei alguns parágrafos atrás que cuspi. Despejei todo o conteúdo do liquidificador na pia da cozinha. Fiz outra limonada. Mas não há jeito de se fazer outra pessoa. Quando cuspimos as sementes de alguém, elas permanecem ali, no ralo da indiferença.

Minhas sementes teimam em escorregar para dentro dos mais variados recipientes. Quando começo um novo trabalho, estão ali na forma de insegurança. Ao fazer um novo plano para o futuro, saltam transvestidas de preocupação excessiva com os resultados. Em algumas noites, não me deixam dormir. Noutras, fazem suar minhas mãos e encharcar os lençóis. O amargor da ansiedade se esconde em cada copo de limonada suíça que ofereço para os que me rodeiam.

Na escola, professores, ao beberem o suco que os alunos, cospem a todo momento. Este não serve, está podre. Aquele, ácido demais. O menino que teima em sair da carteira no horário de aula tem açúcar demais, a menina, sonolenta, de menos. No mesmo ambiente, os amigos são cruéis. Facas que ferem nossa polpa. Insistem em descascar-nos, amputar-nos, retirar todas as partes que não lhes agradam. Não suportam nossas sementes amargas.

O episódio é perpetuado na faculdade, no trabalho ou em qualquer outra roda social que frequentemos. Crescemos com a dolorosa responsabilidade de causar satisfação no outro. Dolorosa no sentido literal da palavra, digo, já que dói o estômago, dá enjoo, tontura e falta de ar. Amadurecemos com medo de cair do pé.

O limão galego tem mais sementes que o taiti, aprendi também em uma de minhas buscas pela limonada suíça perfeita. O taiti é o mais encontrado no mercado brasileiro. É o ideal para quem não quer ter o trabalho de desenvolver técnicas gastronômicas específicas. Acontece que, vez ou outra, é preciso encarar os sicilianos, galegos e cravos, com suas infinitas imperfeições gustativas.

Eu nunca fui taiti. Para fazer limonada comigo, deve-se driblar a acidez dos dias e os amargores que vêm e vão. Posso, no meio da preparação, sentir uma pressão no peito, sensação de que algo ruim vai acontecer ou, simplesmente, roer minhas unhas sem cessar.

Já ia me esquecendo da tensão muscular, que me tornou amante das massagens ao final do dia, da insônia e da insegurança constante. A lista é longa, inversamente proporcional àquela de nomes que se permitem apreciar sabores.

Algumas pessoas têm mais sementes que outras, assim como os limões. Por muito tempo, martelei na ideia de mutilar meu ser. Tentei tirar o grão da ansiedade, da preocupação e da insegurança, pensando em evitar o amargor na boca daqueles que me provarem. Mas, você já experimentou tirar semente de limão? Machuca. Deixa feridas na fruta.

Desisti. A ansiedade e seus transtornos fazem parte de mim. Eu tomo cuidado para coar o suco quando for lhe oferecer minha limonada, evitando que minhas sementes amarguem sua boca, prometo. Em troca, promete não me cuspir na primeira crise.

Meus amigos e amores têm gostos peculiares, daqueles que se permitem deliciar com chá de jurubeba e frutos de gabirobas.

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