Fim de jogo

Pelos quatro cantos do mundo, hoje, fala-se sobre relacionamentos. Vai ver a gente faça escorrer pelo coador dialógico da vida aqueles temas que, feito café, despertam nossos olhares. Por esse pano branco cortado em meia lua e preso por uma circunferência de arame, pingou exaustão.

Duas secretárias tagarelavam, enquanto uma delas fazia meu cadastro no computador amarelado pelo tempo. Tudo estagnou, inclusive os pensamentos delas. 
Uma ensinava à outra como fazer um daqueles jogos de conquista amorosa. Logo no segundo passo, bocejei. Acho uma chatice, essa mania de fazer do amor uma pista de atletismo com obstáculos. 
Eu, desastrada que sou, tropeço no primeiro e já desisto.

Mais tarde, fui ao banco. Uma moça de unhas longas e decoradas enviava um daqueles áudios quilométricos, contando as novidades do final de semana. Eu não queria prestar atenção na conversa, juro, mas fiquei alguns minutos imaginando como ela conseguia manter o touch pressionado com aquelas unhas enormes e, quando me dei conta, ouvi tudinho. 
Disse que, no sábado, foi a uma balada e o fulano estava lá. Ela fingiu que não o viu. Ele nem deu bola. Todo um roteiro previamente estabelecido. Só não rolou papo porque aquele era o dia do desprezo. No próximo sábado, quem sabe, ela puxe um assunto qualquer. 
Eu, ansiosa que sou, ia logo querer tomar uma com o fulano e contar meu passado, presente e futuro. Nunca respeitei o passo a passo que antecede um relacionamento de sucesso. Talvez, por isso, os meus tenham sido sempre soltos, amorfos e feitos para acabar.

Passei o dia pensando nisso, no tamanho de minha preguiça diante desses joguinhos que embaçam o amor. Já fui jogadora profissional, confesso, mas aposentei. Guardei as chuteiras, como diria meu avô. Admiti que, neste caso, sou uma baita perna-de-pau.

Quando digo isso, as pessoas logo deixam os olhos escorrerem, vestindo a melhor expressão de pesar. Coitada, pensam, tão jovem e tão descrente no amor. Colocam-me no banco reserva, como se esse sentir só existisse para quem tem disposição para suar a camisa.

Eu quero suar a camisa, mas não de tanto correr. Quero mesmo é fazer brotar suor de tanto estar colada no outro.

Não entro mais em campo, estou cansada. Exausta dessa história de esperar o apito soar para, então, correr sem cessar. Permaneço aqui, à beira do rio, molhando os pés nas águas cristalinas e límpidas, que, para mim, guardam o amor. 
Acho que a exaustação chegou depois de um baita temporal. É só chover para que se faça um lamaçal no campo. Ninguém enxerga nada. É um empurra-empurra e aquele sentimento besta de um dos lados vencer. Aqui, no rio, a correnteza leva a gente para o mesmo lado e, no temporal, transbordamos de tanto querer.

Moça do computador amarelado, deixa essa competição de lado e vem cá nadar. Mergulhar sem medo do abismo. Relaxar os pés na terra úmida e sentir o som do vai-e-vem das águas, fazendo a pele arrepiar. 
Moça das unhas longas, se ele não falou contigo, vai ver ele não quer. E tudo bem. Isso não é jogo. É só a realidade, que nunca satisfaz o nosso ego por inteiro.

O amor seria tão mais fácil se nós simplesmente amássemos, 
falássemos, 
gritássemos,
mergulhássemos,
aceitássemos.

Enquanto isso, jogamos, desperdiçando tempo com quem, há muito, já desistiu do placar.

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