Lembrete para o caso de, um dia, eu ser mãe de menina
A culpa foi da britadeira. Estão perfurando o chão do terreno ao lado e o barulho é feito broca de dentista. Zunido que arrepia os dentes e prende as ideias em uma camisa de força. A tarde já estava na metade, quando eu decidi pegar minha tralha e ir escrever em outro lugar. Escolhi o Jardim Botânico. Há de se esquecer o barulho de poeira em meio aos bambus, orquídeas e bromélias.
Era terça-feira. Mais um dos tais dias úteis que nos engessam de qualquer ação. O lugar estava vazio. Sentei-me em uma clareira qualquer e tratei de logo finalizar aquela pauta. Passei quase uma hora inteira escutando entrevistas cheias de ruídos. Não me dei conta que, naquela mesma clareira, aconchegaram-se também a mãe e sua menina.
Tirei os fones em meio a um diálogo. Falavam com ares de preocupação. Entreolhavam-se inquietas. Olhei ao redor para ver se havia mais alguém, nada. Nenhuma situação que pudesse constrangê-las. Uai, pensei, por que é que essas duas estão comprimindo os beiços e suando frio?
- O que eu faço, mãe?
- Eu já não disse que você tem que levar AQUILO na bolsa, Maria Eduarda?
Eu fiquei preocupada. Tentei resgatar, nas gavetas da memória, o número do juízado de menores. Já estava cogitando qual droga a mãe estava obrigando a criança traficar, quando chega o complemento:
- Você já é uma mocinha!
Nem precisei fitar o olhar de desespero da menina para saber que se tratava de menstruação. Ela era um desses casos de criança-mocinha-precoce:
- Que vergonha! Coloca essa blusa na cintura! — ralhou a mãe.
A menina, de bochechas grandes e cabeça baixa, tirou o moletom e, toda desajeitada, levantou-se. Olhava ao redor, como se cometesse um crime. O crime de ser mulher.
Quero deixar aqui um lembrete para mim mesma, caso eu venha a parir, no futuro, uma menina. Vai se chamar Lis. Ou Elis. Ainda não decidi se o “e” vai ou fica. Mero detalhe. O importante é que, se a (e)Lis vier ao mundo, tratarei de mostrar-lhe a naturalidade e, principalmente, a normalidade da biologia feminina.
Faço questão de deixar esse escrito à vista para, quando eu for mãe, nunca abaixar a voz para falar sobre menstruação ou envergonhar minha filha, caso seu vestido de estampa infantil, eventualmente, suje de sangue.
Um lembrete para que eu nunca faça minha filha se envergonhar, encarando-me com olhos de culpa, pelo simples fato de ser mulher.
