O Brasil gramaticalmente correto é uma ilusão

The Huffington Post UK

- Dois carioquinhas, por favor.

Naquela padaria da Tijuca, o calor não dava trégua. A balconista vestia uma touca higiênicas de baixa qualidade. Suava descontente. Com olhar mirando o longe, respondeu:

- Aqui não tem feijão, senhor.

O senhor de quase seis décadas imaginou se teria pronunciado a palavra de maneira confusa, difícil de entender. Repetiu a pergunta. A moça não poupou grosserias e esbravejou:

- O senhor tá surdo, é? Aqui não tem feijão.

Já corcunda pelo tempo, encarava o chão por natureza. Decidiu seguir caminho, deixando seus carioquinhas para depois. Na manhã seguinte, mesma cena. Chega à padaria. Pede dois carioquinhas. A balconista solta uma gargalhada e o manda ir embora, caso contrário chamaria o dono daquela espelunca, como ela mesma fez questão de afirmar a todos que quisessem ouvir.

O velho, desesperado, apontou para a cesta de pães. Fez uma mímica e explicou: no nordeste, especialmente no Ceará, carioquinha é sinônimo de pão francês. Ouviu um pedido de desculpas e rumou para casa com o saco de papel pardo amassado nas mãos.

Em Ribeirão, é filão. No Rio Grande do Sul, cassetinho. Em Sergipe, pão jacó. No Pará, pão careca. Tudo isso para nomear aquela mistura de farinha, fermento e sal.

O brasileiro tem a dificuldade intrínseca ao diálogo. É macaxeira ali, mandioca aqui e aipim acolá. Uma cesta de sabores diversos. Como o encontro daquele senhor nordestino com a balconista carioca. Dois mundos gramaticais em convergência.

Regionalmente, estamos cientes. Sabemos, desde muito cedo, que mineiro fala uai e baiano fala oxente. Mas o tempo passa, a consciência crítica aflora e decidimos fazer parte de um movimento social, de uma classe profissional e até mesmo daquele grupo de yoga que se encontra no bosque aos finais de semana.

Eu sou jornalista. Quer dizer, quase. Quase-jornalista. E já entrei em apuros linguísticos sem nem ao menos ter o canudo do diploma para escorar. Em 2013, primeiro ano de graduação, fui a um congresso de marketing para assessores de imprensa. Na tarde do segundo dia, escutei aquela mulher de olhar imponente dizer algo sobre account sampling. Caramba! Foram anos e anos de inglês e, ainda assim, não fazia sentido. E não houve tradução.

Na plateia, busquei olhares de apoio. Encarei o lado direito, nada. No esquerdo, um colega dormindo profundamente. Alguns minutos depois, o assunto era branding que, na época, não fazia ideia de que raios era aquilo.

Fazer account sampling é uma ótima estratégia para fortalecer o branding.

Quase desisti do marketing por pensar não ser capaz de aprender todos aqueles termos. As pessoas, quando falam difícil, têm a ilusão de engrandecer. Fazem de seus ouvintes meras formiguinhas prestes a serem esmagadas pelo ego, ou falta dele.

Acontece também na sala de aula. Inevitavelmente.

Na primeira aula de Gramática, perguntei aos alunos se sabiam Língua Portuguesa. Balançaram a cabeça negativamente. Oras, como não? Vivem no Brasil, comunicam-se perfeitamente e não sabem Língua Portuguesa?

Eles sabem. Nós sabemos, caso contrário, não nos expressaríamos. Fizeram-nos acreditar no contrário. Cagaram regras em nossa cabeça e desprezaram as variantes linguísticas, ainda que o tema esteja no conteúdo programático. Os gramáticos teóricos moldaram nossa língua em um manual.

Mas língua é feita pra falar, beijar, lamber e chupar. É molhada de saliva. Feita de gostos.

Próclise, mesóclise e ênclise também os assustam. Desta vez, inversão de papeis. Eles estão na plateia, eu, no palco. O sentimento de impotência não é mais meu. Eles desistem da Língua Portuguesa por pensar não ser capaz de aprender todos estes termos.

Dia desses, li um texto escrito por Nana Queiroz sobre estrangeirismos nos discursos do movimento feminista. Gaslighting, mansplaining, bropriating, manterrupting. O elitismo na ponta da língua. As minas não se entendem mais. E a periferia, que não sabe definir bilíngue, segue periférica.

Pessoas desistem de comprar carioquinhas, aprender inbound marketing, continuar os estudos da Língua Portuguesa e de participar de movimentos sociais. Tudo por causa desse idioma tão heterogêneo.

Na televisão, estão tentando nos conquistar com mesóclises e falas construídas a partir da linguagem formal. Disfarces para os muros erguidos, que separam os engravatados dos descalços. Tijolos feitos de dificuldades.

Quem não reconhece a diversificação da língua e suas variantes, não reconhece o país como um todo. Marcos Bagno, linguista mineiro, há muito desmistificou a afirmação de que o domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social. Caso fosse, os professores estariam no topo da pirâmide. Apesar de não ser instrumento efetivo, faz, ainda, parte do jogo político.

A maneira como você fala revela por quem você quer ser ouvido. O Brasil gramaticalmente correto é uma ilusão.